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Mark Carpenter e as constantes inovações da Anchor Brewing

Por Rafael Tonon

17 setembro 2014 | 22:35 por redacaopaladar

Poucas cervejarias são tão queridas e respeitadas no mercado americano como a californiana Anchor Brewing. O prestígio está relacionado, principalmente, à tradição. Fundada em São Francisco em 1874, época da Corrida do Ouro, a Golden City Brewery virou Anchor em 1896, enfrentou terremoto, incêndio e Lei Seca e, quando estava prestes a fechar, foi comprada em 1965 pelo empresário Fritz Maytag, que pagou “menos que o preço de um carro usado”.

Mark Carpenter, da cervejaria Anchor Brewing. FOTO: Divulgação

Maytag adorava a Anchor Steam – uma cerveja tão icônica que batiza um estilo, o steam beer ou california common, lager clara feita com um fermento característico. E, ao assumir a cervejaria, passou a inovar. Na festa dos 200 anos da independência dos Estados Unidos resolveu fazer uma porter, estilo que surgiu na Inglaterra durante a Revolução Industrial. Para a surpresa deles, nem na Inglaterra havia cervejarias fazendo mais receitas de porter.

“O lançamento da Anchor Porter foi um momento crucial para o movimento das cervejas artesanais americanas: uma cervejaria do Novo Mundo suplantando um dos mais importantes estilos de cerveja do Velho Mundo”, afirma Tom Acitelli, autor do livro The Audacity of Hops – The History of America’s Craft Beer Revolution (A audácia dos lúpulos – a história da revolução da cervejaria artesanal na América, sem edição no Brasil).

Maytag é considerado o padrinho da cerveja americana. “A revolução da microcervejaria nos Estados Unidos foi construída na personalidade forte de visionários que correram riscos para manter sua paixão pelas cervejas. Maytag foi um deles”, afirma Don Russell, um dos principais colunistas de cerveja americanos.

Em 2010, a cervejaria foi vendida ao Griffin Group, que administra marcas como Guinness, Smirnoff e Johnnie Walker e tem uma porcentagem da revolucionária BrewDog. Maytag virou presidente honorário e, desde então, Mark Carpenter, seu fiel escudeiro desde 1971, assumiu como mestre cervejeiro. De lá para cá, tem administrado a produção da empresa, presente em 49 Estados americanos e em países como Japão, Canadá, Brasil e toda a Europa.

Carpenter conversou com o Paladar – na cervejaria e, depois, por e-mail – sobre suas criações, como a Anchor IPA (criada neste ano, chega ao Brasil no mês que vem por R$ 15, 350 ml), e os desafios de inovar sem perder a tradição.

Quando chegou à Anchor, a única cerveja produzida era a Steam Beer.

Hoje, vocês fazem 14 tipos diferentes. O que puxou o aumento da oferta de rótulos?

Em 1971, quando comecei na Anchor, o mercado e a demanda por cervejas não eram como os de hoje. Os tempos mudaram e nos faltava uma seleção de cervejas que realmente atendesse a todos os paladares. A Anchor sempre apostou em cervejas inovadoras. Eu tenho essa curiosidade de experimentar novos ingredientes e nós adoramos recriar cervejas clássicas com o nosso toque. Felizmente, temos percebido que é exatamente isso que nosso público quer.

Como o senhor define cerveja artesanal no mercado de hoje?

Acho que o que importa é fazer algo que o consumidor goste. A maioria não está preocupada se ela é produzida por uma grande cervejaria ou em uma garagem. Para mim, importa mais como fazer a Anchor Brewing crescer, permanecendo fiel a seu espírito inovador e honrando a tradição da produção de cerveja, até para podermos ampliar nossos próprios limites.

Por que o senhor resolveu criar versões de cervejas de outras nacionalidades e estilos, como a Anchor Saison Spring Ale, de estilo belga?

Somos muito fãs dos mais variados estilos de cervejas clássicos do mundo todo. E criar nossas versões deles é a uma forma de homenageá-los. Queríamos criar uma saison belga, mas com um toque exclusivo da Califórnia. Para isso, incorporei alguns produtos locais, como capim-limão, casca de limão e gengibre, que acrescentam um tempero fresco e herbal diferente de qualquer outra saison do mercado.

Em que novidades vocês estão trabalhando?

Como agora ainda é verão aqui nos Estados Unidos, estamos lançando uma sazonal anual que produzimos, a Anchor Summer Beer, uma cerveja de trigo. Depois de quatro anos da criação da Anchor California Lager, estamos lançando a cerveja em lata – o que é pioneiro para a Anchor, já que nunca pusemos nenhuma das nossas cervejas em lata. Estamos animados com a ideia.

Qual a importância de ter cervejas sazonais como a de verão e a de Natal, tradição que a Anchor ajudou a reavivar? Isso cria alguma euforia no mercado?

Nós trabalhamos com o artista James Stitt, de São Francisco, para criar rótulos únicos e feitos à mão para muitas de nossas cervejas feitas para ocasiões especiais. O rótulo da Christmas Ale muda todo ano, assim como sua receita, e dá aos fãs de cervejas artesanais um bom motivo para ficar de olho todos ao anos. O mesmo acontece com nossa cerveja de verão. É uma forma de criar edições mais exclusivas, limitadas, e, sem falsa modéstia, poder admirar a perfeição do trabalho que o James faz a cada novo ano.

>>Veja a íntegra da edição do Paladar de 18/9/2014

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