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Morcego vira 'pesticida natural' em vinícola do Alentejo

Mamífero virou aliado na produção da bebida

27 outubro 2015 | 15:09 por Isabelle Moreira Lima

Quem já viu um morcego de perto dificilmente imaginou que o mamífero poderia ser um aliado na produção de vinhos. No Alentejo, ele vem sendo testado como uma espécie de “pesticida” natural para conter pragas. A Herdade do Esporão, uma das maiores produtoras de vinhos da região, instalou 20 caixas de madeira em postes ao longo de suas vinhas, onde hoje residem cerca de 100 morcegos.

“Casa” de morcego usada pela vinícola Herdade do Esporão, em Portugal. FOTOS: Divulgação

A vinícola passa por uma transição de agricultura integrada a orgânica e portanto deve, cada vez menos, usar produtos químicos, até que a utilização de pesticidas seja reduzida a zero. Os principais problemas que encontra hoje, no entanto, são pragas e insetos. A ideia é que os morcegos dêem conta desses agressores em suas refeições. “Temos um biólogo que vai às casas dos morcegos e analisa as fezes para descobrir o que estão comendo exatamente. Tememos que eles acabem por comer insetos que também são predadores. É um teste”, afirmou David Baverstock, enólogo do Esporão, ao Paladar.

João Roquette, CEO da casa, avalia o processo de transição para a agricultura orgânica como “pouco científico e muito experimental”. Segundo ele, os ácaros e as cicadelas – ou cigarrinhas verdes – estão entre os principais problemas de suas videiras. Para combatê-las, além dos morcegos, a vinícola testará o poder da urtiga, um repelente natural.

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De rápida passagem por São Paulo, onde promoveram uma degustação vertical de seus vinhos Private Label brancos e tintos, os dois seguiram para a vinícola orgânica Emiliana, no Chile, onde esperavam conseguir mais informações sobre a prática.

No processo de transição, a Herdade do Esporão conta com a consultoria do francês Claude Bourguignon, especialista em microbiologia de solo, que tem entre os clientes as mais importantes produtoras do mundo como o Domaine de la Romanée-Conti.

“Mas no Chile e na Borgonha, os problemas são bem identificados. No Alentejo, não”, diz Roquette, que no entanto não parece assustado com o desafio. “Sinto que este é um novo capítulo na nossa procura de conseguir melhores uvas. Primeiro, olhávamos para os vinhos. Daí, mudamos para as uvas. Depois, para as plantas. E agora, nossa maior preocupação é o solo”, afirma.

Entre os vinhos Private Selection degustados pelo Paladar, duas safras estão no mercado:

Private Selection Branco 2013

R$ 283,71 na Qualimpor

Desenvolvida em 2001, a linha tem na Semillon seu estandarte. A cor é amarelo palha cristalino e no nariz há notas de frutas tropicais maduras. Apresenta tostado: a fermentação acontece em barricas novas de carvalho francês e estagia sobre as borras de fermentação. Na boca, é untuoso, equilibrado e persistente.

Private Selection Tinto 2012

R$ 517,89 na Qualimpor

Esse corte de Alicante Bouschet, Aragonês e Syrah traz aromas de frutas negras e especiarias, além de notas de tostados – estagia em 18 meses em carvalho francês, sendo 30% em barricas novas e 70% barricas de um ano de uso. Na boca, é fresco e tem taninos estruturados. Gradação alcoólica de 14,5%.

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