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Mulheres do Rhône se unem pelo vinho e contra machismo

Produtoras de 31 vinícolas de norte a sul do vale do Rhône querem provar que seus vinhos têm a mesma potência que os feitos por homens

29 novembro 2017 | 19:30 por Isabelle Moreira Lima

DE GIGONDAS

O mundo do vinho é machista. Se você está chocado com a força dessa afirmação, acha que se trata de exagero, é porque tem pouca relação com o meio. Mas quem atua na área, seja na produção, no comércio ou no salão, sabe bem como pode ser difícil ser mulher e trabalhar com a bebida. 

Na França, um grupo de produtoras resolveu se unir para ganhar espaço e promover o papel da mulher em um ambiente tradicionalmente masculino. Ao longo do mapa do vale do Rhône, região vitivinícola que acompanha o rio no sudeste da França em 250 km e reúne 16 crus, 31 produtoras que sempre cuidaram de suas vinícolas, mas tinham dificuldades de ganhar o respeito de seus interlocutores criaram a Femmes Vignes Rhône (um trocadilho com a palavra vigneronne, viticultora em francês). O objetivo da entidade é claro: fazer com que seus vinhos recebam o mesmo tipo de atenção que os feitos por produtores homens.

Produtoras que fazem parte da associação reunidas em vinícola de Gigondas

Produtoras que fazem parte da associação reunidas em vinícola de Gigondas Foto: Isabelle Moreira Lima|Estadão

“Por favor não nos inclua no terroir. Vinho feito por mulher, de mulher, é igual a vinho de homem”, diz Coralie Goumarre, do Domaine Galevan, que está nas mãos da mesma família há nove gerações, sempre com homens no comando. Coralie foi a primeira mulher a assumir a vinícola, que abrange três denominações de origem. Ela afirma com veemência que é a maior bobagem do mundo usar o termo “feminino” para descrever um vinho.

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Em um bar de vinhos em Gigondas, um dos crus do sul do Rhône, cerca de 20 das associadas participavam de sua reunião mensal, em que costumam compartilhar técnicas e informações sobre os vinhedos, o clima, e a vinificação, e discutir dificuldades e peculiaridades do trabalho. “É importante que fique claro, não somos contra homens, não queremos excluir, queremos somar. Mas sabemos também que uma associação de homens seria diferente, com hierarquia totalmente vertical, não teríamos o poder de voz que temos aqui”, afirma Françoise Roumieux, do Vignobles Mayard, em Châteauneuf-du-Pape, e presidente da associação, único degrau hierárquico do grupo.

Françoise Roumieux, quinta geração em Châteauneuf du Pape

Françoise Roumieux, quinta geração em Châteauneuf du Pape Foto: Isabelle Moreira Lima|Estadão

O preconceito, elas dizem, está em todos os lugares, nos fornecedores, nos funcionários e até nos clientes. “Quando você ensina a um funcionário homem o que ele deve fazer é comum ele reclamar, fazer pouco. Muitos fornecedores tentam nos enrolar, acham que somos loiras, sem cérebro”, reclama Stéphanie Fumoso, do Domaine du Gour de Chaulé, historicamente dirigido por mulheres. 

E como resolver isso? “Os funcionários que não me respeitam, bem, eu os demito. Os fornecedores, eu troco. A verdade – e o que muitos não conseguem entender – é que nós temos o poder de decidir. E o talão de cheques na mão”, diz Véronique Lombardo, do Château le Devoy Martine.

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Se acha que as personalidades dessas mulheres são fortes, precisa conhecer seus vinhos. Abaixo você conhecerá a história de algumas dessas produtores e seus rótulos.

Pouca e ótima ​

Ano após ano, o Rhône tem se mostrado uma opção certeira de vinhos de qualidade, com safras excepcionais e abundantes. Em 2017, a coisa foi um pouco diferente: a região sofreu o efeito de fenômenos climáticos, geada, granizo e seca, que provocaram uma quebra de safra de até 60% em alguns crus. E o curioso é que deve entrar para a história da região em termos de qualidade.

Vinho de cinema

Quando visitar o belíssimo Château la Canorgue, em Luberon, fica a dica: jamais peça para tirar foto da casa da família; foque no vinho. Nathalie Margan, que largou a carreira de jornalista internacional para assumir o negócio, fica doente com a cara de pau de visitantes atraídos pelo cenário do filme Um bom ano (Ridley Scott, 2006) e que ultrapassam qualquer limite de civilidade ao invadir sua propriedade. (Fui testemunha ocular de um caso, ocorrido assim que ela terminou de contar sobre a frequência das invasões). E mais: perdem o que há de melhor ali, o vinho. O Château La Canorgue 2015 tinto (R$ 155 na Belle Cave), um corte de Syrah, Grenache, Carignan e Mourvèdre, tem elegância e frescor tão grandes que fazem desconfiar que a vinícola seja realmente no sul do Rhône – onde o calor e a insolação remetem à potência. No Brasil, também se encontra o rosé (R$ 155), ótimo para o verão.

Minha visita incluiu uma microaula de enologia e prova de vinhos de quatro tanques, com uvas colhidas ao longo de dois meses, com distinção de sabor e aroma marcantes.

Nathalie Margan, do Château La Canorgue

Nathalie Margan, do Château La Canorgue Foto: Château La Canorgue

​Cru novinho

Sabine Thompson, que comanda o Domaine l’Ameillaud, em Cairanes, uma das denominações de origem mais interessantes do coração do sul do Rhône, alçada a status de cru apenas no ano passado, entrou na aventura da vitivinicultura nos anos 1980, quando começou a transformar a propriedade do avô, então uma vinícola de vinhos de baixa qualidade, em uma casa de vinhos finos com personalidade. O trabalho de 15 anos compreendeu eleger as melhores castas, criar os cortes e a marca e abrir mercados. Em 1997, comprou a totalidade da propriedade. O melhor cartão de visitas dessa história é o rótulo vendido no Brasil, importado há 20 anos pela Cellar. L’Ameillaude Rhône Villages Cairanne 2012 (R$ 80), um corte de Grenache (60%), Syrah, Carignan e Mourvèdre de vinhas de 45 anos, que mescla fruta negra madura e suculenta com mineralidade. Além dos vinhos, a vinícola oferece hospedagem dos sonhos para turistas.

Sabine Thompson, que transformou a vinícola da família

Sabine Thompson, que transformou a vinícola da família Foto: Domaine L'Ameillaud

​De manual

O Vignobles Mayard, de Françoise Roumieux, parece um cartão postal de Châteauneuf-du-Pape: sua sede fica no centro da cidade em um castelo reformado do século 17; e seus vinhedos estão plantados no solo pedregoso e árido típico da região com a grenache cultivada em vaso (goblet) em vez do sistema de espaldeira. E sofre na pele tudo o que o boletim de safra da denominação mais célebre do Rhône registra. Neste ano, por exemplo, teve muita qualidade e pouco rendimento graças a fenômenos como geada e granizo na primavera. Depois, com estiagem desde abril, passou a irrigar os vinhedos – algo que afirma com uma cara de “o que se pode fazer?”. 

Roumieux, da quinta geração da família, faz hoje três vinhos tintos e um branco. No Brasil, é possível encontrar Clos de Calvaire 2015 (R$ 299 na Belle Cave), de longuíssima estrutura tânica, onde a Grenache é a protagonista; e Le Crau de Ma Mère 2012 (R$ 405), alegremente discreto com fruta elegante no nariz e, na boca, complexidade de sabor – é doce, picante, adstringente e longuíssimo. “Se o vinho é feito por homem ou mulher, pouco importa. Uma degustação às cegas, por exemplo, jamais indicaria o gênero do produtor”, defende Coralie Goumarre, do Domaine Galévan, uma das personalidades mais impetuosas e doces ao mesmo tempo do grupo de mulheres do Rhône. 

​Doce e impetuosa

Ela comanda um domaine de 60 hectares com vinhas de 55 anos de Grenache, Mourvèdre, Syrah, Cinsault e Carignan entre as tintas e Clairette, Grenache Blanc, Roussanne, Marsanne e Bourboulenc para os brancos. No Brasil, vende seu vinho de entrada, o Domaine Galévan Paroles de Femme 2014 (R$ 125 na Belle Cave), uma bebida deliciosa no aroma (fruta e pimenta) e no sabor, com taninos e adstringência intensa. Por aqui também pode-se provar seu Châteauneuf-du-Pape branco 2014 (R$ 430), um corte de 80% de Grenache Blanc e 20% de Clairette, Bourboulenc e Roussane, que é ao mesmo tempo frutado, floral e mineral. Uma boa raridade.

Coralie Goumarre, primeira mulher em nove gerações a comandar o Domaine Galévan

Coralie Goumarre, primeira mulher em nove gerações a comandar o Domaine Galévan Foto: Brice Toul

VIAGEM A CONVITE DA FEMMES VIGNES RHÔNE

 

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