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Na pressa, nem comece

Por Cíntia Bertolino

14 agosto 2013 | 23:32 por redacaopaladar

Em uma sexta-feira fria de julho, na semana com temperaturas das mais baixas já registradas no País, o dr. Leandro Marelli só tinha uma preocupação: manter alguns micro-organismos confortavelmente aquecidos no caldo de cana-de-açúcar. É que bem quentinhos, esses micro-organismos, da espécie Saccharomyces cerevisiae, poderiam, enfim, começar a transformar os açúcares do caldo de cana em álcool, durante a fermentação.

Poucas horas antes, a cana-de-açúcar havia sido colhida e moída no engenho da Fazenda Guadalupe, em Pirassununga, no interior paulista, e transportada até a vizinha Analândia, cidade com pouco mais de 4 mil habitantes, para ser fermentada e destilada no alambique de cobre do Chalé Macaúva.

O processo de produção de uma boa cachaça é simples, mas exige rigor e dedicação. Preferencialmente, a cana deve ser cortada e moída no mesmo dia, para evitar a deterioração do açúcar. Os alambiques de cobre neutralizam aromas desagradáveis, pois o cobre reage com compostos sulfurados e evita a contaminação.

Para ver as fotos da visita do Paladar à Fazenda Guadalupe e ao Chalé Macaúva é só dar play (dá até para ver as imagens em tela cheia). FOTOS: Tiago Queiroz/Estadão

Preparado o fermento, o ideal é transferir o caldo para a dorna, aos poucos, para melhorar o desempenho do fermento. Assim que começa a borbulhar, o mosto, ou caldo, muda de nome e de gosto: passa a se chamar vinho, e nele já dá para notar um leve frisante alcoólico. A fermentação leva, em média, 24 horas, e ao final dela, o vinho ganha um agradável aroma de fruta madura. Terminada a fermentação é hora de acender o fogo que vai alimentar o alambique de cobre. Um detalhe curioso do forno do Chalé Macaúva é que a argamassa foi dispensada e, para unir os blocos, foi usada garapa – esse antigo método caipira, não deixa de ter seu lirismo para os que vêm de fora.

Com o vinho na panela do alambique é preciso esperar algumas horas até que o líquido aquecido vire gás e depois líquido novamente. “O segredo da boa cachaça é a paciência”, diz Marelli. A primeira fração destilada é a cabeça; em seguida, vem o coração e, por fim, a cauda. Uma boa cachaça se faz usando apenas o coração, a parte mais nobre.

No comando do alambique, Leandro Marelli, pós-doutor pela Esalq/USP, especialista em tecnologia de bebidas e um dos autores da cartilha Produção de Cachaça de Qualidade, teve a ajuda de Gabriel Foltran Guimarães, produtor da cachaça Engenho Pequeno, em Pirassununga, e Milton Lima, criador do site cachaças.com e proprietário do Chalé Macaúva.

A cachaça ficou boa? Embora o doutor Marelli afirme, sem pestanejar, que sim, a resposta só será confirmada em seis meses. Terminada a destilação, é preciso esperar. A cachaça requer, no mínimo, seis meses para “amaciar”, armazenada em vidro, inox ou madeira. É nesse breve período de descanso que serão eliminados os compostos químicos indesejáveis formados durante a fermentação e a destilação.

Fui eu que destilei!

FOTOS: Tiago Queiroz/Estadão

A pousada e cachaçaria Chalé Macaúva organiza workshops de três dias para quem quer aprender a fazer cachaça. A ideia é apresentar para grupos de até 12 pessoas todas as etapas de produção da cachaça, do corte da cana até a garrafa. Todo o processo é orientado pelo especialista Leandro Marelli. No final, cada aluno leva para casa três garrafas de caninha. Mais informações estão no endereço macauva.com.br.

Não se perca pelos nomes

Mosto| É o caldo de cana-de-açúcar (garapa) pronto para fermentar (foto).

Pé-de-cuba | É o fermento adicionado ao mosto.

Vinho | É o caldo de cana já fermentado, pronto para ser destilado.

Vinhoto | É o produto final da destilação, um caldo escuro, lembrando a garapa, que pode ser reutilizado como adubo no canavial.

Cebolão ou alegria | Como também são conhecidos os alambiques simples.

Rosário | É como são chamadas as bolhas que se formam quando a cachaça entra em contato com o copo. Bolhas pequenas e em grande quantidade sinaliza boa destilação.

Lágrima | Ao girar o copo, observe como as “lágrimas” da cachaça deslizam pelas laterais do copo. “Lágrimas” que escorrem lentamente indicam boa cachaça.

Leia mais:

+ Leia sem moderação: tudo sobre a cachaça

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 15/8/2013

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