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Não se compra vinho para os netos

Junte-se a falta de espaço para guardar à falta de paciência para esperar dez anos que o vinho envelheça e temos uma prática que cresce em todas as regiões produtoras: deixar mais rapidamente os vinhos ‘prontos’ para consumo

19 novembro 2014 | 19:39 por marcelmiwa

Não é de hoje que os vinhos saem da vinícola prontos para consumo. E há duas razões básicas para isso. Primeiro, o alto custo de envelhecer a bebida nas adegas. Segundo, cada vez menos gente tem paciência para comprar uma garrafa de vinho pensando em guardá-la por anos. “Isso não significa que os vinhos são menos longevos, apenas que a data em que se pode bebê-los com prazer foi antecipada”, diz Rodrigo Fonseca, sócio da importadora Premium e um dos brasileiros que estudaram no cobiçado IMW (Institute of Masters of Wine).

A mudança começou a dar sinais na década de 1970, quando Estados Unidos, África do Sul, Austrália, Nova Zelândia, Chile e Argentina caíram no gosto dos consumidores com tintos e brancos cheios de fruta e macios. Enquanto um grande Bordeaux ou Borgonha pediam décadas de guarda para perder a austeridade dos taninos e “abrir” seus aromas, os vinhos do Novo Mundo chegavam às gôndolas prontos para beber.

A reação de Bordeaux teve como porta-estandarte o enólogo-consultor Michel Rolland. Crucificado por muitos por ter padronizado o estilo dos tintos, Rolland propagou o uso da micro-oxigenação. Graças à técnica, que consiste em aplicar microborbulhas de oxigênio durante a vinificação, os taninos começam a amaciar e os aromas se desprendem com mais facilidade. Assim como Bordeaux, diversas regiões do Velho Mundo encontraram formas para antecipar esta janela de consumo.

Vista dos vinhedos do Château de Valandraud, de Jean-Luc Thunevin. Desde as primeiras safras, o enólogo Michel Rolland ajudou a encontrar o estilo que recebeu grandes elogios e pontuações dos críticos, com taninos amaciados por microbolhas de oxigênio. FOTO: Divulgação

Toscana. Na década de 1980, despontaram os supertoscanos: mesclas da local Sangiovese com variedades francesas, normalmente Cabernets e Merlot, que amaciavam acidez e taninos da casta italiana. A austeridade da Sangiovese, que pede anos de garrafa para equacionar seus componentes, foi a razão para alguns produtores adulterarem seus Brunello di Montalcino em 2003, no escândalo conhecido como Brunellopoli. O vinho desta DOCG deve ser 100% Sangiovese, mas na safra 2003 as autoridades toscanas descobriram que muitos estavam sendo mesclados com outras variedades viníferas.

Já maduros. Recentemente os vinhos do Porto e de Champagne não só se adaptaram a esse novo gosto, mas conseguiram sofisticar o conceito, colocando à venda vinhos antigos e raros que não devem ganhar muito com amadurecimento em garrafa. Em Champagne, a tendência são os vinhos safrados com longo período de contato com as borras. Uma das principais marcas, a Dom Pérignon, relançou neste ano a safra 1998. Em vez dos 7 anos de contato com as borras da versão original, esta segunda versão, chamada de Plenitude 2, chega ao mercado com 15 anos de contato com as leveduras. O resultado é espetacular em riqueza e nuances, uma pena que o preço seja para poucos (R$ 1.900). Bollinger, Jacquesson e Veuve Clicquot também possuem linhas semelhantes.

O vinho do Porto também entrou no conceito de a vinícola envelhecer o vinho para o consumidor ao dar maior ênfase ao estilo Colheita, um porto safrado, só que, em vez de engarrafado jovem como o Vintage, é engarrafado após décadas de estágio em barris de madeira. A Taylor’s, uma das mais conhecidas vinícolas de Porto, lançou neste ano seu primeiro Colheita, um vinho de 1964 que ficou 50 anos amadurecendo nos barris e está pronto para ser consumido, isto é, não deve ganhar complexidade na garrafa. A mesma vinícola também acaba de lançar um raríssimo Porto Colheita de 1863, cuja produção até hoje se resume a meras 75 garrafas, vendidas por US$ 4.000 cada uma.

Hervé Joyaux Fabre, dono da vinícola Fabre Montmayou na Argentina e natural de Bordeaux, resumiu com precisão essa mudança: “Na época de minha avó, tínhamos um espaço imenso para guardar garrafas e os preços não eram tão altos. Hoje as pessoas querem comprar um vinho e logo ter a sensação de recompensa, é uma questão de modo de vida”.

FABRE MONTMAYOU MALBEC GRAN RESERVA 2011

Origem: Mendoza, Argentina

Preço: R$ 91, na Premium

Aqui é fácil notar as razões para a popularidade da Malbec argentina: o vinho é macio, com taninos finíssimos e aromas bem definidos de violeta e ameixa-preta madura. Destaque para a acidez que não deixa o vinho pesado.

ARGIANO ROSSO DI MONTALCINO 2011

Origem: Toscana, Itália

Preço: R$ 156, na Portus

Difícil encontrar essa intensidade aromática e textura aveludada em um Sangiovese de Montalcino jovem. Os aromas de frutas vermelhas e negras frescas (morango e cereja) aparecem com baunilha, terra e flores secas, formando um conjunto harmônico.

TAYLOR’S PORTO SINGLE HARVEST 1964

Origem: Douro, Portugal

Preço: R$ 1.200, na Qualimpor

Se o orçamento não é problema, este Tawny de 50 anos impressiona. Há algo de tâmaras, passas, mascavo e incenso. A doçura é intensa e vem acompanhada de muita intensidade aromática.

>>Veja a íntegra da edição do Paladar de 20/11/2014

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