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Só de birra

Heloisa Lupinacci

Nem só de puro malte se faz uma boa cerveja

Cerveja boa é cerveja boa, seja puro malto ou produzida com cereais não-maltados. Confira dicas de rótulos que são a prova disso

06 fevereiro 2019 | 19:35 por Heloisa Lupinacci

Tem um jeito bem fácil de medir o quanto alguém entende de cerveja: se a pessoa falar que milho é ruim e bom mesmo é cerveja puro malte, é porque acabou de começar a se interessar pelo assunto. Todo mundo que decide entender o que é cerveja passa pela fase cevada, lúpulo, água e levedura e treina na frente do espelho para conseguir falar Reinheitsgebot sem titubear (o nome alemão da lei de pureza que lista esses ingredientes). 

Mas como tudo na vida passa, o bebedor logo entende que isso é só a largada de um mundo em que cabem todos os ingredientes, em que frutas entram na mesma panela que flores, em que todos os grãos têm seu papel (um traz viscosidade, outro leveza, um deixa a cerveja escura, outro defumada). 

Uma das grandes graças do mundo cervejeiro é a ideia de que a bebida acolhe tudo. Chocolate, coco, café. Até casca de ostra já vi ir parar na panela de brassagem. E uma das grandes desgraças é ver que o papo do puro malte ainda cola. É um passo para trás. 

Cerveja boa é cerveja boa: e tem muitas cervejas excelentes que são puro malte. Quer provar uma agora mesmo, já, bem fácil de achar e deliciosa? Vá de Bamberg Helles (R$ 10,50, 355 ml, na Bamberg Perdizes, R. Cayowaá, 573). Quer provar a rainha de todas, a puro malte das puro malte? A Pilsner Urquell (R$ 24, 500 ml, no EAP, R. Vupabussu, 305) acabou de voltar para o Brasil, em importação oficial. Mas quer saber? Elas são boas porque são bem-feitas, não porque não levam outros grãos na receita. 

Só de birra com esse papo puro malte, nesta semana escolhi duas cervejas incríveis, superbem feitas e que têm orgulho de levar cereais não-maltados. Perfeitas para abrir o horizonte e ajudar os bebedores a entenderem que não é a presença exclusiva de cevada que faz a cerveja ser boa ou ruim.

 

Avós Vó Dinha

R$ 9 (300 ml, chope, ou R$ 15 a lata de 473 ml  na Casa Avós, R. Croata, 703)

Quem torce o nariz para lagers devia ser forçado a passar uma noite na Casa Avós, a sede da cervejaria que pegou para si a missão de chacoalhar as lagers por aqui. É lá que dá para tomar esta rice pils, com 20% de arroz na receita e tem 4,4% de teor alcoólico. Os chamados cereais não-maltados (arroz e milho) entram na receita sempre que o cervejeiro quer um gole limpo. Como têm menos proteína, eles fermentam (ou seja, trazem teor alcoólico) e têm sabor mais neutro e deixam o lúpulo aparecer. Na Avó Dinha, brilha a duplinha Centennial e Tettnang . 

 

  Foto: Avós

 

Júpiter Duna

R$ 34 (473 ml, na hoppack.com.br)

Leva flocos milho e arroz e é uma delícia. É uma representante das brut IPAs, india pale ale mais leves, mais secas, mais limpas, com o lúpulo brilhando no primeiro plano e drinkability alta (em oposição às neIPA, aquelas turvas e adocicadas, algo cansativas). O uso dos cereais não-maltados deixa o cervejeiro brincar à vontade com os lúpulos. Aqui, o cervejeiro David Michelsson escolheu o trio Mosaic, Citra e El Dorado. As notas são cítricas e tropicais, com alguma coisa de manga, e aquele plim resinoso que todo hophead ama. 

 

  Foto: Júpiter

 

 

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