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‘Nossas deficiências viraram vantagem’

Por Guilherme Velloso

21 maio 2014 | 23:39 por redacaopaladar

O irreverente Jean-Luc Thunevin costuma dizer que em Bordeaux não há safra ruim. Há a safra da década, do século ou do milênio. As safras complicadas são chamadas de “clássicas” (é o caso de 2013, que ele considera “excessivamente clássica”). Estas, segundo ele, “só são interessantes para quem nasceu nesses anos”. Para além da irreverência e da fina ironia, Thunevin é um observador arguto das transformações por que passou o mundo do vinho nas últimas décadas – para as quais, aliás, muito contribuiu – como fica claro na entrevista ao Paladar.

Jean-Luc Thunevin. FOTO: Divulgação

Qual o legado dos garagistas?

Sou muito modesto… Mas, a se crer no Robert Parker, duas pessoas sacudiram o mundo do vinho: Michel Rolland e Jean-Luc Thunevin. O movimento garagista já foi polêmico, mas, hoje, o mundo inteiro faz o que nós fizemos no início. Os garagistas eram, sobretudo, artesãos. É um pouco bizarro, porque a polêmica nasceu entre os defensores da tradição, das máquinas e do não respeito às uvas, e nós, que não tínhamos dinheiro e fazíamos tudo à mão. Assim, tratávamos melhor a uva. Foi sorte. A deficiência se tornou vantagem. E isso trouxe uma influência hoje mundial.

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O que acha da declaração de Hugh Johnson de que os vinhos de garagem são vendidos a preços “idiotas pelo tipo de vinho espesso e com aromas de baunilha que a Califórnia faz”?

Preço não tem nada a ver com qualidade. Quem puder vender mais caro, vai fazê-lo. Os tradicionalistas ingleses não estavam errados ao dizer que os vinhos eram Bordeaux anormais. Mas, em Bordeaux, as grandes safras sempre foram as mais concentradas, de anos com muito sol, como 1945 e 1961. Mas isso gerou polêmica. Vinhos muito concentrados, muito aparentes, muito modernos, agradam aos novos-ricos. Atraem os chineses ou os americanos, não são para a clientela sofisticada.

Quem ganhou a “guerra” entre tradicionalistas e modernistas?

Os tradicionalistas perderam. Mas a situação se acalmou porque, na verdade, depois de cometer excessos voltamos a ser razoáveis. Nunca fizemos melhores vinhos no mundo do que hoje. Mas os tradicionalistas, como Hugh Johnson e Michael Broadbent, foram tão importantes na história do Valandraud como Parker e a Wine Spectator.

Por quê?

Eles falavam tão mal e os outros tão bem que as pessoas ficavam curiosas.

De que vinhos você gosta?

Le Pin e Petrus, sempre. Fora da França, o Pingus, do Peter Sisseck. O Ridge Montebello, um americano extraordinário. Clos de Los Siete; o Achaval Ferrer, O Egon Müller. Amo os Riesling quando são austríacos ou alemães, um pouco menos os alsacianos, porque têm açúcar residual. Não gosto muito dos Bordeaux brancos. Amo os Bordeaux tintos e os Borgonhas brancos.

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 15/5/2014

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