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Nova lei da União Europeia preocupa produtores de vinho franceses

Regulamentação polêmica permite plantio em áreas antes impensáveis

13 janeiro 2016 | 17:48 por Isabelle Moreira Lima

O mundo do vinho francês está de pernas para o ar desde 1º de janeiro deste ano, quando passou a vigorar uma nova regulamentação da União Europeia para o plantio de vinhedos.

Até o ano passado, a norma para dar início a um vinhedo era severa e só se plantava em novas áreas com permissão do governo. Agora, tudo mudou de figura: novas plantações estão liberadas a não ser que se tenha uma boa razão para impedi-las. Regiões como as margens do rio Sena, que corta Paris, ou a Île de France, onde fica a capital francesa, que antes podiam produzir uvas apenas para fazer vinhos de consumo pessoal, podem agora gerar inclusive rótulos para exportação.

Além disso, as novas regras permitem que vinhos sejam produzidos em qualquer lugar sem que se indique sua procedência, criando uma espécie de não-apelação, a VSIG, sigla para vinho sem indicação geográfica. A nova categoria substitui a de vinho de mesa e se une à OC/AOP (apelação controlada) e a à IGP (indicação geográfica protegida).

Os franceses estão particularmente preocupados com a ideia de um mercado inundado por vinhos de má qualidade ou de produtos feitos apenas para atender o gosto de consumidores em mercados como o brasileiro, o chinês e o americano.

Eles temem que grifes como Champagne sofram concorrência de vinhos de áreas próximas e menos qualidade. E ainda que a produção das novas áreas seja confundida com as de áreas tradicionais – e que estas saiam com a imagem arranhada.

 FOTO: Gilmar Gomes/Divulgação

“As novas regras significam a morte do sistema de apelação de origem controlada (AOC), em que funcionamos desde 1927”, afirmou à rede britância BBC o prefeito de Vertus, município em Champagne, Pascal Perrot, que também é produtor. Para ele, não haverá mais critério para o plantio. “O terroir, a qualidade da terra, a exposição ao sol, eles não valerão nada. Qualquer um poderá fazer um pseudo-Champagne aqui ou em qualquer outro lugar.”

O barulho dos produtores teve efeito e gerou salvaguardas: as novas plantações não podem exceder 1% da área plantada do país, o que na França significa 8 mil hectares. Os Estados podem limitar o crescimento de vinhedos, quando “justificável”, diz a Comissão Europeia.

As autoridades francesas já recusaram pedidos de produtores de Acy, vizinha a Champagne, para produzir, informa o jornal Telegraph, sob a justificativa de que poderia prejudicar as vendas de um produto best-seller em todo o mundo.

Mas há um grupo de entusiastas que acreditam que as novas regras podem modernizar o vinho. Na medida mais surpreendente até agora, um produtor se inscreveu para plantar Chardonnay em uma região mineradora próxima a Pas-de-Calais, norte da França, que ficou conhecido com Charbonnay, em um trocadilho com charbon, carvão em francês.

“É uma oportunidade real porque poderemos criar novos produtos e atender a novas demandas de exportação. Temos de antecipar o gosto dos consumidores globais, somos criadores do paladar”, afirma Serge Tinatanet, chefe da associação nacional de produtores Anivin. Ele aponta para o fato de a França ser o terceiro maior produtor da Europa, atrás da Espanha e da Itália, e o maior importador, atrás da Alemanha. “O vinho francês não atende a certos segmentos de preço, portanto importamos da Espanha. Precisamos reconstruir nossa competitividade. Vinhas estão sendo plantadas até na Inglaterra.”

Segundo a Comissão Europeia, o objetivo das novas normas é flexibilizar o setor para responder à demanda mundial. Ou seja, aumentar a produção para deixar a Europa mais competitiva e frear sua perda de mercado no mundo.

O presidente da ABS-SP, Arthur Azevedo, diz que entende a preocupação dos franceses porque as novas regras atingem o que há de mais caro ao país, o “terroir”. Para ele, no entanto, é o produtor quem vai determinar a qualidade do novo vinho.

>> Veja a íntegra da edição de 14/1/2016

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