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O português pai de mais de 300 vinhos

Luis Duarte comanda a Rapariga da Quinta, sua vinícola própria, a Herdade dos Grous, de que é diretor-chefe, e faz consultoria para um punhado de casas. Tudo no Alentejo, região que ajudou a moldar e onde está há trinta anos

02 março 2016 | 17:19 por Isabelle Moreira Lima

Luis Duarte não sabe direito quantos rótulos de vinho já criou. Algo entre 300 e 400, ele chuta, em seus mais de 30 anos de carreira. Sua onipresença em vinícolas portuguesas chegou a irritar o crítico responsável por vinhos lusitanos de uma importante publicação. 

Em visita a Portugal para degustar a safra de seu primeiro ano no cargo, o tal crítico encontrou-se com Duarte pela manhã. Duas horas depois, em outra vinícola para o almoço. Na sequência, seguiram em carros separados para a terceira vinícola do dia e, por fim, jantaram juntos para a quarta degustação, de uma quarta casa. “Mas que diabos, está me perseguindo? Se soubesse que era você de novo nem teria vindo”, teria dito o crítico indignado, conta Duarte aos risos em São Paulo, antes de conduzir a degustação de algumas de suas criações em um restaurante em Pinheiros. 

A anedota faz entender um pouco quem é este enólogo, um homem franco e direto. E que aos 50 anos não para. Exerce três diferentes papéis ao mesmo tempo: é empresário (produz seus próprios vinhos desde 2003, o Rapariga da Quinta); é consultor (criou rótulos para vinícolas como a Herdade da Malhadinha Nova e a Quinta do Mouro); e é funcionário (diretor-geral da Herdade dos Grous).

Sua história profissional está intimamente ligada à do Alentejo, que ajudou a transformar em importante celeiro vinícola. Nos anos 80, recém saído da primeira turma de enologia de Portugal, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, o hoje acumulador de títulos de melhor enólogo lusitano (eleito em 1997, 2007, e 2014) foi convidado a desbravar a região. Duarte havia ganhado uma bolsa de três meses em Champagne e a ideia era dar só uma olhadinha no local. Afinal, o que seria melhor para um jovem enólogo que um estágio na França? 

Ficou com água na boca?

 

  Foto: Divulgação

Aparentemente, a resposta a essa pergunta seria uma terra quente sem grandes projetos de vinicultura até então. Dias depois da primeira visita, Duarte mudou-se para o Alentejo para, do alto de seus 18 anos, comandar o que seria uma das mais importantes vinícolas da região, a Herdade do Esporão. 

Trabalhava todas as horas em que estava acordado, sem fins de semana, nos primeiros anos do Esporão. Em uma passagem inacreditável, conta que foi chamado para alistar-se no Exército uma semana antes de sua primeira vindima e, por não conseguir a dispensa do chefe, um tipo paternalista, caricato, ao mesmo tempo afetuoso e esquentado, nunca se apresentou ao exército. Por anos teve medo de ser preso como desertor.

Quando estava confortável no trabalho, uma reviravolta: o chefe paternalista vendeu sua parte e Duarte, então manda-chuva, passou a ter que responder a outro enólogo recém-contratado pela nova administração, o australiano David Baverstock. Duarte (franco e direto como já sabemos) não esconde que foi difícil engolir o novo chefe – hoje o australiano e o português são amigos íntimos. A nova realidade o fez mudar de casa após 18 anos, assumindo a adega da Herdade dos Grous. 

Se não sabe direito quantos rótulos já criou, ele arrisca um número para quantas casas ergueu do zero: 15. “Estou fazendo agora uma para mim, será a décima sexta. Não conheço ninguém que tenha feito tantos projetos quanto eu. E quem permitiu isso foi a região. Se eu vivesse no Douro, onde está tudo pronto, não seria o caso. Foi um conjunto de sorte e de coincidência”, diz, de forma a confundir o interlocutor – seria modéstia ou orgulho? 

Pouco depois, a dúvida aumenta: Duarte conta que é raro participar de concurso e não levar prêmios. “Tenho mais chances porque vou logo com dez, 15 rótulos. Não lembro de ir a concursos e voltar sem prêmios. Não digo isso com vaidade, mas faço muitos vinhos.” 

 

Rapariga da Quinta foi criado para ser simples e com bom preço

Por insistência de seu primeiro importador no Brasil, que acabou virando amigo, Luis Duarte passou a investir em um projeto solo. Conhecido como um ótimo custo-benefício português, com preços de menos de R$ 50 para seu vinho de entrada, o Rapariga da Quinta nasceu em 2004 com o nome escolhido com a ajuda do brasileiro (seria Rapariga da Fonte, mas por erro de um colunista social virou “da Quinta”) e o objetivo de não ser um grande vinho.

Isso mesmo, ao criar sua própria marca, Duarte não quis se repetir. “Não estou nessa do grande vinho. Não é um sacrifício, mas de uns anos para cá resolvi que a minha linha seria mais adaptada ao futuro”, afirma. 

O que ele quer dizer é que não tem a intenção de fazer vinhos que custem fortunas e que não cheguem ao grande público. “Não quero fazer ícones porque já faço isso em outros projetos. Se fizer a mesma coisa em minha linha, concorro diretamente com outros vinhos que criei”, afirma fortalecendo a alcunha de “enólogo racional”, pela qual ficou conhecido em Portugal.

Duarte em quatro rótulos

Rapariga da Quinta Select

Origem: Alentejo, Portugal

Preço: R$ 45, na Épice

É a opção mais barata para quem quer provar um vinho com a assinatura de Luiz Duarte, um corte de Aragonez, Trincadeira e Syrah. As vinhas são regadas gota-a-gota em regime controlado, a colheita é selecionada e a vinificação é feita em cubas de aço inox com temperatura controlada. De cor rubi e aromas de frutas vermelhas, é fresco e vai bem com carnes e massas – 13,5% de álcool.

 

  Foto: Divulgação

Rubrica Branco 2013

Origem: Alentejo, Portugal

Preço: R$ 190, na Épice

Este corte de Verdelho, Antão Vaz e Viognier, com uvas colhidas manualmente, é fermentado parte em barrica de carvalho francês, parte em tanques de aço inox, onde ficam seis meses e passam por bâtonnage (técnica de misturar o vinho). Com aromas de frutas brancas frescas, tem corpo médio, ótima acidez e persistência. Vai bem com peixes e carnes brancas (13,5% de álcool).

 

  Foto: Divulgação

Moon Harvested Herdade dos Grous 

Origem: Alentejo, Portugal

Preço: R$ 287, na Épice

Se achou que este vinho foi batizado a partir da música de Neil Young, errou. Ele foi feito de acordo com os preceitos da Potential Maximum Harvest, que se guia pela evolução da lua para escolher o momento de colheita. Duarte escolheu a Alicante Bouschet, cepa difícil de domar, para testar a técnica e se diz mais que satisfeito com o resultado. Com 14% de álcool, é ideal com carne.

 

  Foto: Divulgação

Tamari dos Mundos

Origem: Vale de Uco, Argentina

Preço: R$ 290, na Épice

Fruto da colaboração do português com uma bodega argentina. Aqui, Duarte não acompanhou a vindima, mas elaborou o corte no estilo do Velho Mundo a partir de uvas populares no Novo Mundo: a predominância de um Malbec rústico é equilibrado por parcelas menores de Tannat, Cabernet Franc, Petit Verdot e Cabernet Sauvignon, que lhe conferem elegância. Estagia 18 meses em barrica.

 

 

  Foto: Divulgação

 

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