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Isabelle Moreira Lima

O velho novo mundo do vinho de ânfora

Prática de passar vinhos por vaso de cerâmica, comum na Grécia Antiga, volta a ser usada por produtores do mundo inteiro, inclusive no Brasil; veja rótulos

24 outubro 2018 | 19:45 por Isabelle Moreira Lima

Não há nada mais velho do que usar ânfora para fazer vinhos. A prática já era comum em Roma e na Grécia Antiga e é tradicional de regiões como o Alentejo, onde nunca foi esquecida. Ainda assim, não há nada mais novo do que usar ânfora para fazer vinhos.

Os rótulos que passam por um vaso de cerâmica em algum momento da vinificação ou do envelhecimento pipocam no mercado brasileiro vindos de diferentes países (veja indicações abaixo). Agora chegou a vez de brasileiros experimentarem o vaso. 

Itália. Na Foradori, a sala de barricas é de ânfora também

Itália. Na Foradori, a sala de barricas é de ânfora também Foto: Harald-Hertz

A gaúcha Lídio Carraro usou a argila de seus solos em Encruzilhada do Sul para fabricar ânforas de 500 litros . Nelas, foram depositadas Merlot, Pinot Noir e Nebbiolo. Ali foi realizada a fermentação sem leveduras adicionadas. 

A ideia do enólogo Giovanni Carraro, que há dois anos é responsável pelos vinhos da casa, era estreitar a relação das uvas com o solo e dar um caráter mineral ao vinho. “Tecnicamente, a principal influência da ânfora é salientar a mineralidade. Além disso, ela proporciona uma micro-oxigenação semelhante a das barricas sem aportar aromas, sabores e taninos, como ocorre com a madeira.”

O tinto que está sendo produzido agora vai ao mercado em 2020, mas já está sendo vendido, sempre aos pares. A ideia é que o consumidor abra uma garrafa no ato da compra e guarde a outra. A dupla sai por R$ 549. “Não é um vinho simples, para consumo jovem, mas para longo envelhecimento e com ótima estrutura e vocação gastronômica.”

Responsável por renovar o apelo das ânforas, Josko Gravner já era tido como o rei italiano da Chardonnay quando abriu mão das técnicas modernas de vinificação nos anos 1990 e se voltou aos métodos ancestrais. (Seus vinhos são importados pela Decanter.)

Inspirados por Gravner e por técnicas tradicionais da Georgia, produtores do Velho e do Novo Mundos têm utilizado tanto argila quanto concreto para produzir ânforas. 

Lídio Carraro usou a argila de seus solos em Encruzilhada do Sul para fabricar ânforas de 500 litros

Lídio Carraro usou a argila de seus solos em Encruzilhada do Sul para fabricar ânforas de 500 litros Foto: Lídio Carraro

A diferença é que o concreto é mais fácil de usar e manter e tem um ambiente mais protegido contra oxidação – por outro lado, a oxigenação depende do formato da ânfora. As clássicas, com uma base mais estreita e meio mais bojudo, proporcionam menor contato do vinho com as leveduras, o que resulta em um líquido menos estruturado e mais vibrante.

Em Portugal, para além do refúgio alentejano com excelentes rótulos, as ânforas encontraram lar na região dos Vinhos Verdes com o produtor biodinâmico Vasco Croft, que faz até um espumante pet nat no vaso. A Grécia continua a produzir o vinho como no passado, com a adição de resina de pinheiro para fechar o recipiente. 

Do Novo Mundo, o Chile é o principal representante da ânfora. Lá as chamadas tinajas, herdadas da colonização espanhola, são usadas por pequenos produtores que fazem vinhos com cepas ancestrais, como a País.

 

Vinhos de ânfora que chegam por aqui  

De Portugal

Cortes de Cima Amphora 2015 

Tinto do Alentejo com Aragonês, Touriga Nacional, Syrah e Petit Verdot; R$ 329 na Adega Alentejana.

Aphros Phaunos 2015

Branco à base de Loureiro do Minho feito pelo guru do biodinamismo em Portugal; R$ 229 na Winelovers.

Bojador de Talha Tinto 2016

Corte de Trincadeira, Moreto, Tinta Grossa do Alentejo; R$ 160 na Winelovers.

Da Espanha

Got 2016

100% Bobal da Manchuela que fica 4 meses em tinajas; R$ 117 na Toque de Vinho. 

Da Itália

Foradori Fuoripista Pinot Grigio 2016

Um Pinot Grigio que fica por oito meses com suas cascas em tinajas; R$ 248 na Vinho Mix.

Gravner Ribolla Gialla 2008 

Vinho laranja feito pelo mestre moderno da ânfora no Friuli; R$ 760 na Decanter.

Lezer 2017

Este 100% Teroldego de Alto-Adige é brevemente macerado (24 horas) em vários lotes e estagia em ânfora, cimento, madeira e aço; R$ 192 na Vinho Mix. 

Do Chile

De Martino Viejas Tinajas 2016

100% Cinsault do Maipo que fica em tinajas por sete meses; R$ 180 na Decanter.

Gonzales Bastias País en Tinaja

O vinho de Secano Costero, no Maule, passa por estágio durante 12 meses em ânforas de greda (terracota de 300 anos); R$ 136 na Vinho Mix.

Yumbel Tinaja Moscatel 2017

As cascas da Moscatel de Secano Interior ficam em contato com o vinho por dez meses nas ânforas; R$ 120 na Toque de Vinho.

 

  Foto: Montagem

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