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Saca essa rolha

Isabelle Moreira Lima

Os vinhos de cortes inusitados de Pablo Morandé

Importante enólogo chileno, que esteve à frente da Concha y Toro por 20 anos, faz vinhos como seu avô fazia, com ânforas de barro e pouca intervenção

12 outubro 2016 | 18:37 por Isabelle Moreira Lima

Se você já bebeu vinho chileno, não tenha dúvidas, você foi atingido pela influência de Pablo Morandé. A biografia do enólogo mais ou menos se confunde com a da vinicultura moderna do país: esteve à frente da Concha y Toro por 20 anos e ajudou a transformar a vinícola numa gigante. Naquela época, lançou os primeiros varietais chilenos, conceito pelo qual o país é conhecido até hoje. Plantou os primeiros vinhedos na região de Casablanca, atualmente um celeiro de brancos. 

Pablo comandou por 20 anos a gigante chilena Concha y Toro

Pablo comandou por 20 anos a gigante chilena Concha y Toro Foto: Divulgação

Em 1996, partiu para seu voo solo na Viña Morandé, onde flertou com o experimental, mas logo se frustrou. “Estava à frente do mercado e isso é péssimo.” Após vender a casa – hoje é apenas conselheiro –, jogou-se na ancestralidade: em 2007 abriu a Bodegas RE, onde faz vinhos como o avô fazia, com ânforas de barro e pouca intervenção. “Mas com modernidade. Uso o conhecimento dos nossos tempos”, disse à coluna antes de degustação numa loja da Grand Cru, sua nova importadora no País. Mas mais que sua biografia, são os vinhos que impressionam, todos com acidez marcante (ou picante, na língua) e bem estruturados. Provei sete, originais nos cortes, nas cores e na forma de produção. Ficou claro que, além de craque da enologia, Morandé é fã de trocadilhos.

Seu RE Chardonnoir 2013 (R$ 295) é um vinho que une a Chardonnay à Pinot Noir de cor dourada com bom potencial de guarda ou “grande futuro pela frente”. “É um Champagne sem bolhas, por sua estrutura e frescor.” Já o RE Pinotel 2013 (Pinot Noir e Moscatel, R$ 198) é um rosé blush elegante que traz doçura e frescor no nariz e surpreende com tamanha acidez que chega a pinicar. O final é longuíssimo. 

Ficou com água na boca?

Com seu currículo, Morandé consegue apresentar como mérito hoje o que seria defeito há algumas décadas. É o caso do RE Velado 2012 (R$ 465), um Pinot Noir levemente (e propositalmente) oxidado, uma vez que estagia por três anos em barricas incompletas. É ouro velho, traz aromas de azeitona e balsâmico, e muita estrutura. 

Os vinhos passam por ânforas de barro, da mesma forma que seu avô fazia.

Os vinhos passam por ânforas de barro, da mesma forma que seu avô fazia. Foto: Divulgação

RE Pinotel 2013 (Pinot Noir e Moscatel, R$ 198)

RE Pinotel 2013 (Pinot Noir e Moscatel, R$ 198) Foto: Divulgação

Ainda nos brancos – que não são brancos –, Morandé apresentou seu EnREdo (R$ 475), um laranja feito com Gewurztraminer e Riesling, cofermentados em ânforas de barro. Consegue unir características das duas cepas no nariz (as flores da Gewurz e o petróleo da Riesling).

Morandé trouxe ainda dois tintos de cor rubi. O RE Cabergnan 2010 (R$ 295), feito com Cabernet Sauvignon e Carignan do Maule, é uma recriação do vinho de seu avô feito nas mesmas ânforas. É doce no ataque, mas depois é a acidez que ataca. Já o Re Nace 2013 (R$ 850), um 100% Carignan de Casablanca, foi descrito de forma emotiva como “a síntese do homem do campo, rústico e nobre”.

O enólogo chileno falou sobre os seus novos vinhos com o Paladar:

É difícil fazer vinho de autor no Chile?

Cerca de 80% dos vinhos vendidos em supermercado em todo o mundo são do Chile e isso faz com que as pessoas não entendam que o país faz vinhos de alta qualidade. As vinícolas que produzem vinhos baratos também fazem os superelaborados. É difícil entender como uma marca popular como Concha Y Toro tem um vinho como o Don Melchor. Precisamos melhorar a imagem do nosso produto, derrubar a ideia de um país de vinho de supermercado. Enquanto a França está no topo da prateleira, a 1,8 m do chão, o Chile está a 30 cm. 

Como é a aceitação dos seus vinhos, com cortes inusitados, nomes engraçados?

É cada vez maior porque os rótulos mostram um Chile desconhecido. Mas é mais fácil agradar ao público jovem, que é mais aventureiro. Os mais velhos, muitas vezes, não entendem bem. 

Será este um sinal de que hoje, na maturidade, o sr. faz vinhos mais modernos do que na sua juventude?

A renovação e a invenção devem ser permanentes. Fiz os vinhos varietais no Chile quando não existiam. Fiz coisas lindas e ousadas na Morandé, mas antes da hora. E isso não é bom. Só é bom quando se tem alguém que o siga.

Ficou com água na boca?