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O vinho que derrotou a guerra

O libanês Gaston Hochar entusiasmou-se com as histórias de um vinhateiro francês na época da 1ª Guerra Mundial e decidiu plantar uvas no Vale do Bekaa. Hoje os vinhos elaborados por sua família são os mais famosos do Líbano

26 junho 2013 | 23:07 por patriciaferraz

Cozinheiras e vinhateiros vivem às turras no Vale do Bekaa, no Líbano, uma das regiões vinícolas mais antigas do mundo. É que faz parte das tradições culinárias locais usar as folhas de uva frescas para enrolar o charutinho de arroz e a vizinhança pula a cerca sem cerimônia para se servir do ingrediente. Nos últimos anos, porém, a temperatura está cada vez mais alta e para proteger as uvas do calor os produtores precisam deixar mais folhas no pé. Só que para isso, tiveram de contratar seguranças para os vinhedos.

A história tem jeito de anedota, mas é pura verdade, contada por Marc Hochar, da família proprietária do Château Musar, a vinícola mais famosa do Líbano. Marc esteve em São Paulo há alguns dias para comandar uma degustação.

Os vinhos do Château Musar são vendidos no Brasil desde 1995 e importados pela Mistral graças a uma outra história, também com ares de anedota. Ciro Lilla ouviu falar deles numa viagem a Londres, anos antes de se tornar importador. O dono do Château Musar, Serge Hochar (o pai de Marc), havia sido eleito ‘homem do ano’ pela revista inglesa Decanter em 1984 por fazer grandes vinhos em plena guerra civil. “As uvas estavam no lado muçulmano, o Vale do Bekaa, e a vinícola ficava no subúrbio de Beirute, no lado cristão. Às vezes ele nem conseguia vinificar”, conta Ciro Lilla. Ciro provou os vinhos, se impressionou e, anos mais tarde, quando abriu a Mistral, incluiu a vinícola no primeiro portfólio.

Folhudas. Calor obriga produtores a manter nas vinhas as folhas tradicionalmente usadas para enrolar charutos de arroz. FOTOS: Divulgação

 Os vinhos do Château Musar não são fáceis. Originais, intrigantes, têm forte mineralidade e incrível capacidade de envelhecer – mesmo os brancos. Eles são longamente armazenados antes de ir para o mercado, coisa que os produtores fazem cada vez menos, por causa dos custos.

O Château Musar Rouge, um tinto de perfume intenso e taninos finos (corte de Cabernet Sauvignon, Carignan e Cinsault), passa um ano em barricas, outro em tanque de concreto, vai para a garrafa e só chega ao mercado sete anos depois da colheita. “Mas consideramos que está pronto a partir dos 15 anos, quando taninos, álcool e açúcar formam uma unidade”, diz Marc Hochar.

Na prova em São Paulo, o Château Musar 2005 (US$ 98,90) marcou pela intensidade do perfume e o equilíbrio. E o Château Musar Rouge 1991 deu sentido ao comentário do produtor sobre a “unidade” do vinho mais velho: aos 22 anos, estava em grande forma, aveludado, complexo, com aroma de café e chocolate.

O produtor trouxe na mala também o mítico Château Musar Blanc 1991, um dos brancos mais cultuados do mundo. Na verdade, este branco é quase salmão, elaborado com as uvas libanesas nativas – Merwah e Obaideh, que são as ancestrais da Semillon e da Chardonnay, respectivamente. É um vinho memorável, corpulento, intenso, mineral, que mantém incrível frescor mesmo depois de duas décadas. Numa degustação nos Estados Unidos tempos atrás, Serge Hochar disse o seguinte sobre ele: “Depois de prová-lo, vocês vão entender por que esse branco é meu grande tinto”. Bingo.

História. Vinhos de uvas nascidas a mil metros em plantas centenárias

São vinhos orgânicos, produzidos em altitude em vinhedos centenários – tintos, a 900 m, e brancos a 1.200 m, em solo calcário. Os tintos não são filtrados e envelhecem em madeira apenas 20% do tempo em barricas novas. A filosofia é a da intervenção mínima. Tem sido assim desde sua fundação, em 1930.

A história da vinícola começou na 1ª Guerra, quando Gaston Hochar ficou amigo de um major francês que era produtor em Bordeaux (Ronald Barton, do Chateau Langoa-Barton). Ouviu as histórias do vinhateiro francês e se entusiasmou. Plantou Cinsault, Carignan, Petit Verdot, Mouvèdre e começou a produzir. “Fez umas quatro ou cinco safras sem saber fazer vinho”, diverte-se o neto Marc. Ele conta que foi então que seu pai, Serge, com 17 anos, foi estudar enologia em Bordeaux, onde teve como mestre Émile Peynaud, considerado o pai da enologia moderna. Voltou para casa e assumiu a vinícola em 1959.

Até 1975, quase todo o vinho era vendido no Líbano. Mas em 1979, o crítico inglês Michael Broadbent provou o tinto e elogiou. A fama correu. Em 1990, o Château Musar já exportava quase toda a produção. Hoje, são 600 mil caixas por ano. No Brasil, além do Château Musar Rouge 2005 e do Château Musar Blanc 2005 (US$ 89,90) a Mistral tem o Musar Jeune Rosé 2010 (US$ 47,50), rosado agradável, e o Château Musar Cuvée Rosé 2008 (US$ 79,90), corte das uvas brancas libanesas com Cinsault, fermentado em barrica por nove meses.

Desde (muito) antes de Cristo

O Vale do Bekaa, no Líbano, é uma das regiões vinícolas mais antigas do mundo. O vinho surgiu no Oriente Médio, há uns 6 mil anos. Até o islamismo, a costa oriental do Mediterrâneo tinha uma importância vinícola semelhante à da França e Itália, como ressaltam Hugh Johnson e Jancis Robinson no Atlas Mundial do Vinho (Nova Fronteira, 2008). Mas, apesar da tradição, os brancos e os tintos (comparáveis aos bordeaux, para os críticos ingleses) são pouco conhecidos no Ocidente.

Envelhecer bem 

O que primeiro se nota é a aparência turva, atestado de que o vinho não foi filtrado. No nariz, café, chocolate e um toque de couro. Na boca, complexo, sedoso e com o álcool e os taninos integrados. Este tinto comprova a vocação para envelhecer dos Châteaux Musar. Estava em grande forma aos 22 anos, sem nenhum sinal de cansaço.

Libanês da gema 

Ímpar. É um dos grandes brancos do mundo e um dos poucos vinhos libaneses elaborado com uvas nativas. É um corte de Merwah, fermentada parcialmente em madeira, e Obaideh – uvas ancestrais da Semillon e da Chardonnay, respectivamente. É corpulento, mineral; as frutas secas se misturam no nariz e na boca. Um vinho incomum e impressionante.

ONDE COMPRAR – Mistral

R. Rocha, 288, Bela Vista

Tel.: 3372-3400

www.mistral.com.br

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