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Suzana Barelli

O vinho que envelheceu no espaço

Após 438 dias na Estação Espacial Internacional, num ambiente de gravidade zero, garrafas do Château foram submetidas à degustação às cegas

06 de abril de 2021 | 10:00 por Suzana Barelli, O Estado de S.Paulo

Há diferenças na evolução entre garrafas de vinho armazenadas em uma estação espacial, sem gravidade, ou nas caves das vinícolas? E qual envelhece melhor? Responder essa questão é o primeiro passo de um projeto ambicioso da start-up Space Cargo, que procura entender os efeitos da microgravidade e, em tempos de mudanças climáticas, encontrar soluções para a viticultura e a agricultura do futuro.

Foram notadas diferenças significativas na aparência e no sabor do vinho.

Foram notadas diferenças significativas na aparência e no sabor do vinho. Foto: Fernando Sciarra/Estadão

As primeiras 12 garrafas do Château Petrus, da safra de 2000, chegaram do espaço em janeiro deste ano, depois de 438 dias no espaço, na Estação Espacial Internacional. Elas viajaram 300.000.000 quilômetros e ficaram em um ambiente de gravidade zero por 14 meses. Foram degustadas agora, às cegas, no final de março.

O projeto é conhecido desde novembro de 2019, quando as garrafas foram enviadas ao espaço, mas o nome do produtor era mantido em segredo e só foi revelado durante a degustação. O Petrus, um dos grandes ícones de Bordeaux, foi escolhido por ser um tinto elaborado com uma variedade, a merlot, por ser muito estruturado e longevo. Além das garrafas, também foram para o espaço 320 mudas entre cabernet sauvignon e merlot.

Doze especialistas participaram da primeira prova do vinho. Cada um recebeu três taças com 112 ml do tinto em cada uma. Metade tinha dois vinhos que passaram a temporada no espaço, e um que ficou em Bordeaux, e a outra metade, dois vinhos da terra e um do espaço. E nenhum sabia qual amostra correspondia a qual vinho. Emmanuel Etcheparre, co-fundador da Space Cargo, disse que diferenças significativas foram notadas tanto na aparência quanto no sabor do vinho. Os participantes, no entanto, tiveram dificuldades em diferenciar os aromas dos dois vinhos.

Quanto às mudas, depois de analises microscópicas, elas foram plantadas logo depois de chegarem do espaço. Aqui, os primeiros efeitos da falta de gravidade já foram notados. Elas crescem em ritmo mais rápido do que as que permanecem em terra.

O próximo passo do programa é tentar identificar as propriedades bioquímicas do vinho que foi ao espaço e, assim, tentar compreender o impacto do espaço no envelhecimento de um vinho, não apenas em sua cor, aromas e sabores, mas principalmente de seus componentes, como os polifenóis.

A pesquisa vai longe, mas é interessante notar como a gravidade e a pressão influi na evolução de um vinho. Garrafas encontradas em navios afundados mostram que o vinho envelhece mais devagar quando fica no fundo do mar.

A experiência que começou ao acaso, quando mergulhadores descobriram grandes adegas no fundo do mar, mas hoje é até um produto comercial. Há empresas especializadas em afundar garrafas por um período determinado. Tem várias vinícolas como clientes – até a brasileira Miolo já colocou garrafas de espumantes no fundo do mar. A pergunta, agora, é quais serão as próximas garrafas no espaço.

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