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Os 3 cavaleiros do negronismo

Eles agem em Londres, São Paulo, Berlim... sempre atrás de negronis. Onde houver o drinque vermelho, a Squadra Negroni promete atacar

05 dezembro 2012 | 23:12 por luizhorta

A Squadra Negroni está em missão. Mas, ao contrário das missões de 007, as da Squadra não nasceram de ordens: tiveram começo espontâneo, com o primeiro negroni dando origem à série um ano atrás. As missões estão “em meio” e sempre estarão, pois, não tendo finalidade, não têm fim (muito menos objetivo). Pensando bem, objetivo têm: beber negroni, o coquetel preparado com vermute, Campari e gim. E laranja. Ou sem laranja? Com mais vermute? Menos? Sem vermute, talvez. E se trocarmos o vermute italiano por um inglês de fundo de garagem? E se provarmos também o negroni feito nos bares de hotéis? Deu para entender?

A Squadra Negroni é assim, como um jogo de tabuleiro em que, dependendo da ficha que você tira, tem que executar tarefas diferentes. Ela existe quando há duas coisas presentes no mesmo ambiente: um, dois ou todos os seus membros, que são os designers Marcello “Riga” Righini e Carlos Bêla e o advogado (sempre é bom ter um advogado em casos que envolvem bebida) Alexandre Bronzatto – e um copo do drinque que lhe dá nome. Nas missões pode haver convidados, mas pode acontecer só um embate solitário entre um membro e um negroni. A única regra é postar uma foto no Instagram e dizer onde o drinque foi bebido. Uma pequena avaliação pega bem, mas não há ranking, até porque qualquer um pode colaborar com sua foto (veja quadro na pág. ao lado) e entrar na “avaliação” coletiva. No currículo da Squadra já tem negroni de Nova York, Belém do Pará, Rio, Berlim, Paris, Londres… Vai acabar um dia? Os idealizadores da brincadeira se entreolham: “Fim? Quando cansarmos de beber negroni. Acho que não vai acabar nunca”.

+ Mixologista ataca de negronista

+ Sai soda, entra gim

+ #squadranegroni

O drinque está entrando na moda no mundo – ou nunca saiu de moda, mas ganhou um foco especial. É alcoólico, porém não demasiado. Tem a mistura certa de doce e amargo, é ótimo para antes e depois da comida. No balcão do D.O.M., enquanto o chefe de bar (também do Dalva e Dito) Jean Ponce mostrava seus deslumbrantes gelos redondos, o chef Alex Atala discorria animado: “Prefiro este com gelo de laranja, mas no final fica feminino demais. Talvez goste mais do gelo de negroni, mas ele não mantem a esfera perfeita até o fim”. Jean ri, está acostumado a isso, o encantamento diante de suas criações. Assiste à indecisão do repórter, que com três copos na frente, gosta de um, depois do outro, depois do outro, sem conseguir se decidir. Conta que testaram dezenas, e nem estão perto de contentes. “Agora quero fazer com as três bolas de gelo, só que bem pequenas e juntas num só copo.”

O Paladar acompanhou uma jornada de Squadra, e deu para notar que há variações notáveis pela cidade. O desequilíbrio mais comum é o excesso de vermute – o drinque perde a cor vermelho-campari e ganha um tom quase marrom. Fica amargo demais. E, onde tem um negronista, tem uma fórmula própria.

No Ici Bistrô, já provado o coquetel feito na casa, o chef Benny Novak chegou à mesa e perguntou: “Vocês estão tomando negroni? Posso fazer o meu?” Diante das cabecinhas em perfeita sincronia respondendo sim, como quatro bonecos alucinados, foi para o bar e trouxe copinhos pequenos, dose perfeita para o fim da refeição. Delicioso negroni. O segredo foi acrescentar Noilly Prat (aquele do dry martíni), numa proporção que não ficou muito clara, mas perto de 1/3 do drinque. Benny enrolou e não contou o segredo.

Como eles não classificam os coquetéis, os comentários e avaliações abaixo são meus.

FOTO: Carlos Bêla

O bar tem uma carta ampla de drinques feitos à maneira clássica e muitas criações. Gostei muito do whisky sour, que é um dos meus drinques de cabeceira (farei uma squadrawhiskysour? Acho que não, mas estou doando a ideia). O negroni estava muito bom. Equilibrado e no ponto. Estão testando envelhecer a bebida em madeiras diferentes, provamos duas e foram uma surpresa agradável.

FOTO: Carlos Bêla

A casa é mestra em manter bom padrão na coquetelaria. O negroni não destoou do nível dos demais drinques. Feito com segurança e precisão, respeitando a receita original. Muito bom.

FOTO: Alexandre Bronzatto

Ortodoxo como é possível, da cor exata, num bom equilíbrio entre os elementos. Um ótimo negroni, sem arestas, mostrando bem o Campari, que é a alma do coquetel. Um dos que mostraram a cor mais perfeita, o vermelho vivaz, não nos tons de marrom do vermute. A foto do ato de instagramar o negroni, flagra como atua a Squadra.

FOTO: Alexandre Bronzatto

A receita pessoal e secreta do chef Benny Novak é mais amarga que as demais, ótima para o fim da refeição. O caso é ter a sorte dele ver que você pediu negroni e querer produzir um dos seus autorais. Mas a receita da carta do bar do restaurante estava bem, ligeiramente puxada no vermute.

FOTO: Carlos Bêla

Os negronis menos ortodoxos foram a sensação do passeio, para mim. Os elaborados por Jean Ponce, no restaurante D.O.M, me fizeram voltar para bebê-los novamente, como uma squadra-do-eu-sozinho. São gelos perfeitamente esféricos, um de água com menos oxigênio, outro de laranja e o terceiro do próprio negroni, que boiam numa quantidade perfeita de bebida, em copos Riedel da linha “O” (aqueles sem haste). Conseguem uma coisa admirável, despertam todos os sentidos. O aroma de negroni já é bom. O olhar fica fixo, a invenção de Ponce é linda, um sistema planetário. A lentíssima diluição pelos gelos força um tempo de consumo. Funcionam como drinques-ampulheta, têm um ritmo obrigatório para serem bebidos. Mas o que ninguém esperava é que mexessem com audição e tato. O peso oscilante da bola no copo foi bom de sentir com a mão, e o leve tilintar foi hipnótico.

FOTO: Carlos Bêla

A vantagem do Emiliano é o horário, o conforto do lobby, o serviço impecável e gentil, beber sentado nas cadeiras dos irmãos Campana e vendo o entra e sai do hotel até 2 da manhã. O negroni é apenas correto, não deslumbra, mas não destoa. E sempre dá para jantar no ótimo restaurante e resolver o dilema do drinque.

>> Veja todos os textos publicados na edição de 6/12/12 do ‘Paladar’

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