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Os heróis anônimos de regiões festejadas

Isabelle Moreira Lima

29 julho 2015 | 19:03 por redacaopaladar

Para começar, a italiana Montepulciano. Embora seja a segunda uva mais cultivada no país, é ofuscada pela Sangiovese, base do Chianti toscano e presente no famoso Brunello. Sua versão mais conhecida é a cultivada na região de Abruzzo. É uma uva que produz tintos de corpo médio, com boa acidez e fruta. Além de ser fácil de combinar com muitos pratos da cozinha italiana, tem como vantagem o preço competitivo.

Da Espanha, escolhemos a Mencía, geralmente eclipsada pela Tempranillo, quase sinônimo de vinho espanhol. Esta uva foi uma das primeiras plantadas pelos romanos na península ibérica, mas quase desapareceu com o ataque da phyloxera, a Guerra Civil espanhola, entre outros percalços. Renasceu nos anos 1990 com um grupo de produtores entusiastas de Bierzo, no noroeste espanhol. Em geral, produz tintos leves, frutados e macios, mas, nas mãos de bons vinicultores e enólogos, dá origem a vinhos de complexidade maior, com notas associadas aos solos xistosos dos melhores vinhedos de Bierzo.

FOTO: Alessia Pierdomenico/Reuters

Em Portugal, a coisa se complica: é um dos países com a maior oferta de uvas viníferas – quase 300 –, parte delas são populares e outras vivem em um anonimato profundo. Escolhemos uma casta considerada “rebelde”, pelo difícil cultivo e pelos taninos selvagens, a Baga. Pequena e de casca espessa, é comum no norte do país. Quando bem trabalhada e com algum envelhecimento, dá tintos comparáveis aos grandes tintos à base de Nebbiolo do Piemonte.

Na Argentina, a Bornarda já foi a grande estrela. Nos anos 1960, era a mais plantada. Por suas características, era muito usada para dar cor a vinhos de corte. Nos últimos 30 anos, muitos de seus vinhedos foram erradicados em favor da Malbec. Para os amantes da Bonarda, a boa notícia é que sobraram vinhedos antigos, com menor rendimento e maior qualidade.

Adotamos lógica similar para escolher nossa representante chilena, a Carignan. O país, que hoje celebra seus Cabernet Sauvignon e Carmenère, tem vinhedos muito antigos dessa cepa, principalmente no Maule. De difícil manuseio, a Carignan tem seguidores fiéis, inclusive entre os produtores, que criaram o grupo Vingadores de Carignan – usam apenas uvas de antigos vinhedos, cultivadas sem irrigação, e envelhecem seus vinhos por pelo menos dois anos. Nos melhores exemplares, um vinho à base de Carignan recompensará o consumidor com boa estrutura e rusticidade.

Para concluir, a Cabernet Franc da França. Presente no clássico corte bordalês, para conhecê-la melhor é preciso ir ao Loire, onde dá tintos com boa estrutura, aromas florais e herbáceos e notas terrosas na boca, e mostra que não é apenas uma versão menos intensa (em cor, acidez e taninos) de sua filha famosa, a Cabernet Sauvignon – fruto do casamento com a Sauvignon Blanc.

Escolhidas as uvas preteridas, o especialista Guilherme Velloso, os sommeliers Tiago Locatelli e Gabriela Monteleone e eu fomos à prova no restaurante Varanda (leia abaixo).

GABA DO XIL MENCIA 2010 TELMO RODRIGUEZ

FOTOS: Felipe Rau

Origem: Valdeorras, Espanha

Preço: R$ 111, na Mistral

Complexo – notas de cogumelo, terra, flores e gás –, este vinho está pronto para o consumo. Apesar dos taninos firmes, é macio. Combina com embutidos, porco e carnes de caça.

 FILIPA PATO BAGA 2013

Origem: Bairrada, Portugal

Preço: R$ 55 na Casa Flora

Produzido com uvas de vinhas de 15 a 80 anos de solo argilo-calcário, tem aromas de ervas – alecrim, sálvia, louro. Maturado em cubas de inox, é fresco, limpo, com final salino e frutado, tem boa acidez e é ideal para pratos como barriga de porco.

LUPI REALI 2013 MONTEPULCIANO D’ABRUZZO

Origem: Abruzzo, Itália

Preço: R$ 62 na Zahil

É um vinho leve, fresco, que não passa por barris de carvalho. Tem aromas de grama, é limpo, direto e tem boa acidez. Vai bem com massas com molho de tomate e bracciola.

O. FOURNIER URBAN CARIGNAN 2013 

Origem: Maule, Chile

Preço: R$ 69,47, na Vinci

Único vinho que não brilhou na degustação, apresentou excesso de madeira, apesar de ter passado só três meses em barricas de carvalho. Tem aromas de frutas supermaduras e vai bem com carnes defumadas.

COLONIA LAS LIEBRES BONARDA 2012

Origem: Mendoza, Argentina

Preço: R$ 49,50, na World Wine

Este Bonarda começa o gole com muita fruta, mas tem final seco, que lembra chocolate amargo. Com acidez e cor bem típicos e sem estágio em madeira, vai bem com morcilla.

COULY-DUTHEIL CHINON LA BARRONIE MADELAINE 2009

Origem: Vale do Loire, França

Preço: R$ 131 na Decanter

Excelente expressão da variedade, este Chinon tem aroma de flores, terra e minerais. O corpo médio e os taninos bem estruturados e secos fazem dele bom par para um confit de pato.

Outra opção: Domaine Pallus Les Pensées de Pallus 2008 (R$ 167,12, na Vinci)

>>Veja a íntegra da edição do Paladar de 30/7/2015

 

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