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Isabelle Moreira Lima

Os vinhos de châteaux do Chile

A nova safra do icônico vinho chileno Almaviva chega a São Paulo no início do próximo ano. Já o novato Vik tenta conquistar o seu espaço para concorrer com os maiores do Novo Mundo

07 dezembro 2016 | 21:42 por Isabelle Moreira Lima

Um dos maiores ícones do vinho chileno foi celebrado ontem em São Paulo: o Almaviva safra 2014, que deverá chegar às lojas no começo de 2017. Nascido há quase 20 anos, inspirado no corte de Pauillac (Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc, Petit Verdot e Malbec), esse chileno sempre quis ser grande como os melhores franceses. Seu maior aliado é o pedigree – ele é fruto da parceria entre Mouton Rothschild e Concha Y Toro.

O Almaviva 2013 é vendido por R$ 999 na Wine. Embora assuste, o preço não freia a paixão de seus fãs. Segundo o enólogo Michel Friou, só o Brasil teve uma degustação vertical espontânea de todas as safras, realizada durante uma de suas visitas a Vitória (ES), para um evento de vinhos, ocasião em que um grupo de aficionados se dispôs a abrir suas adegas para compor o que faltava. Outra prova da paixão brasileira: o Almaviva é o campeão de vendas entre brasileiros em lojas Duty Free.

Agora, outro rótulo chileno espera alcançar o poder de recall e atração do Almaviva. Trata-se do Vik, que nasceu como um capricho de um multimilionário, o financista norueguês Alexander Vik, que, inspirado pelos grandes châteaux de Bordeaux, resolveu ter seu próprio ícone, feito no Novo Mundo para concorrer com os maiores. 

Em 2005, comprou terras em Millahue, ao sul de Santiago, e em 2009, lançou a primeira safra. Em três anos, conseguiu pontuações altíssimas da crítica, mas o preço de quatro dígitos no Brasil (R$ 1.097,80 na World Wine) ainda causa espanto. Um vinho nascido e criado no século 21 tem o direito de ser tão caro? 

Vik. um dos projetos arquitetônicos mais ousados da América do Sul

Vik. um dos projetos arquitetônicos mais ousados da América do Sul Foto: Divulgação

Para o enólogo Cristián Vallejo, que assina o Vik com o franco-chileno Patrick Vallete, mais que icônico, o vinho é “holístico”: tudo é pensado e cuidado. As uvas são colhidas à noite e selecionadas quatro vezes antes de serem vinificadas. A intervenção é mínima na bodega pós-moderna e asséptica inserida em um dos projetos arquitetônicos mais ousados da América do Sul. Sem falar no hotel de überluxo que abriga seus visitantes mais empolgados. Agora, como vender isso na garrafa se o enófilo não vai provar toda a experiência? “É o que estamos tentando responder”, afirma Vallejo.  Para Friou, do Almaviva, a concorrência é positiva: “É ruim estar sozinho.”

A PROVA DOS DOIS CHILENOS 

O VETERANO

Conheça o resultado da prova de Almaviva com quatro safras, realizada na vinícola do Vale do Maipo, na região metropolitana de Santiago, no Chile.

 

  Foto: Divulgação

Almaviva 1998

(72% de Cabernet Sauvignon, 26% de Carménère e 2% de Cabernet Franc; 16 meses em carvalho francês novo)

Considerado uma das piores safras desde que foi criado, com uvas menos maduras que o esperado para o calor do Chile graças ao El Niño, esta safra evoluiu como os grandes vinhos de Bordeaux e mostra aromas de bosque, ervas secas, tabaco e geleia de fruta negra. Na boca, a sensação é de beber veludo: maciez pura. 

Almaviva 2007

(64% de Cabernet Sauvignon, 28% de Carménère, 7% de Cabernet Franc e 1% de Merlot; 18 meses em carvalho francês novo)

Feito em um grande ano para o Chile, esta edição de Almaviva traz mais fruta, mais trufa e mais maciez na boca. Os aromas são o clássico cassis chileno bem maduro, pimenta negra, violeta. Na boca, taninos maduros e concentrados. Com nove anos de idade, ainda mostra potencial de guarda e pode estagiar mais.

Almaviva 2010

(61% de Cabernet Sauvignon, 29% de Carménère, 9% de Cabernet Franc e 1% de Petit Verdot; 17 meses em carvalho francês novo)

Este foi o ano do terremoto, que não chegou a atingir a vinícola ou os vinhedos de Almaviva. Com temperaturas mais frescas, pode-se esperar uma acidez mais vibrante e mais elegância. Às frutas negras, unem-se frutas vermelhas como o morango, além da baunilha e do café. Na boca, a juventude é clara: os taninos estão mais presentes, mas com muita polidez.

Almaviva 2014

(68% de Cabernet Sauvignon, 22% de Carménère, 8% de Cabernet Franc e 2% de Petit Verdot; 18 meses em carvalho francês novo)

Neste bebê que ainda tem muito a amadurecer (prevê-se o potencial da safra 1997), a concentração é a principal característica. Foi um ano complicado, muito fresco (o que explica a boa acidez), mas com geadas, que geraram baixos rendimentos (daí a concentração). O caráter é marcado, intenso, mas os loucos por fruta podem se decepcionar. Por enquanto, o grito mais alto é do tostado.

O NOVATO

Veja as notas sobre o Vik 2011, degustado na sala de provas da vinícola em Millahue, no Vale de Apalta, no Chile.

 

  Foto: Divulgação

Vik 2011

(55% de Cabernet Sauvignon, 29% de Carménère, 7% de Cabernet Franc, 5% de Merlot, 4% de Syrah; 23 meses em barricas de carvalho francês)

A cor púrpura com levíssimo halo de evolução, sua boa fruta e sua tosta atraente e sutil são os primeiros atrativos. Na boca, o ataque é doce e macio. Depois, os taninos finíssimos aparecem e a acidez integrada se mostra. 

A degustação de Vik inclui a prova das cepas que compõem Vik separadamente e conclui-se que seu frescor e taninos são presentes da Cabernet Sauvignon de 3 parcelas colhidas e vinificadas separadamente. A adstringência e o volume de boca vêm da Cabernet Franc; da Merlot vem a maciez; da Syrah, a doçura, e da Carménère, um toque verde.

 

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