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Os vinhos dos quatro doidões

Você beberia os vinhos feitos por um saxofonista? Pedro Parra é músico profissional. Tocava jazz na faculdade, na sua Concepción natal, no sul do Chile, e decidiu se mudar para Paris, tentar ser reconhecido, formar um trio. Andou daqui para ali, soprou seu instrumento em Montmartre, em pequenos clubs, gravou alguma coisa. Aquela aventura romântica do sucesso na cidade grande, que quase nunca dá certo. Deu errado. Mas já estava também estudando no instituto agronômico de Paris.

17 outubro 2012 | 22:22 por luizhorta

Um colega fazia tese sobre os terroirs do Rhône e ele era convidado para degustações, por pura camaradagem. Por razões que nem ele sabe explicar direito (tudo isso contou no ano passado, numa palestra aqui em São Paulo, onde ria e fazia rir de seus infortúnios) foi explorar buracos, ver o perfil geológico dos solos e sua influência nos vinhos, descobrindo sua importância.

Voltou para casa e, como uma gata borralheira do sax, tornou-se o mais respeitado consultor de terroirs do continente e um dos principais do mundo. Na verdade, ele praticamente inventou a profissão, intitulando-se wine terroir consultant.

Seu portfólio de clientes inclui grandes nomes de Mendoza (Chakana, Zuccardi, Las Hormigas, Flichmann) e do Chile (Montes, Lapostolle, Concha y Toro, Ventisquero, Amayna, De Martino). Quando estive em Mendoza, ano passado, encontrei-o com Sebastián Zuccardi, cobertos de terra. Passam os dias dentro de valas naturais ou que eles mesmos cavam. Plantam em todos os diferentes tipos de chão: argiloso, calcário, arenoso, argilo-calcário, todos. E experimentam o resultado. É trabalho duro, de tentativa e erro e muita paciência. Mais ou menos o que fizeram os monges cistercienses na Borgonha de muitos séculos atrás. A conclusão também é parecida: aquele pedacinho de terra ali é bom para brancos, este daqui para Pinot e uns metros adiante, Malbec. E o Pinot daqui é completamente diferente do que brota ali, mesmo que haja um espaço de meros centímetros entre uma planta e outra. O mistério das raízes em contato com o chão.

Inevitável que um apaixonado por tais nuances geológicas acabasse fazendo vinhos. Com três sócios fundou o Clos des Fous, algo como a vinícola dos doidões. E foram atrás de terroirs extremos do Chile, pouco explorados. As garrafas trazem nos rótulos: “Clos des Fous é a aventura de quatro amigos que decidiram plantar vinhedos em locais inóspitos, frios e imprevisíveis nas áreas do sul do Chile, ignoradas por outros vinicultores”.

No seu site, Parra (cujo sobrenome traduzido quer dizer parreira, confirmando o destino que os nomes emprestam aos seus portadores) avisa que continua tocando sax. Ou seja, quem preferir música ao vinho, pode optar por ouvi-lo no trio de jazz. Eu fico com o Pinot.

Pinot não sabe brincar. Mesmo na Borgonha oscila bastante. O sonho do Novo Mundo é fazer bom Pinot. Raros conseguem, lembro de alguns da Nova Zelândia e uns poucos da Patagônia, com destaque para os da Chacra. Pois eis um Pinot que entra na lista dos bons. Muita tipicidade no nariz, acidez adequada, delicadeza e toque mineral e sanguinolento como deve ser. Um belo vinho.

Uma delícia, fermentado metade em inox e metade em carvalho, mantém o frescor e a mineralidade sem ficar gordo pela madeira. Muito fino, já entra para a lista dos grandes Chardonnays sul-americanos, bem longo na boca.

Clos des Fous Cabernet Sauvignon 2010 – Bom

Nariz expressivo, notas de cacau e tostado. Um pouco decepcionante perto dos outros. É bom sem ser notável, levíssimo amargor final não atrapalha, dá até charme, mas, do trio, é o menos saboroso.

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