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Os vinhos feitos nos pampas

Por Guilherme Velloso

30 dezembro 2014 | 22:06 por Míriam Castro

Épico, vinho top da vinícola Guatambu, que acaba de chegar ao mercado, é um corte ousado de quatro uvas (Cabernet Sauvignon, Merlot, Tannat e Tempranillo) de quatro safras diferentes. Localizada em Dom Pedrito, perto de Bagé, a Guatambu é uma vinícola nova e moderníssima. E é um bom exemplo do que está acontecendo na região da Campanha.

Terroir gaúcho. Vinhedo nos arredores de Bagé, na Campanha Gaúcha, região que responde por 25% da produção de vinhos finos no Brasil e vem ganhando interesse na última década. FOTOS: Divulgação

Embora já responda por 25% da produção brasileira de vinhos finos (só perde para a tradicional Serra Gaúcha), ela ainda é pouco conhecida. O Pampa gaúcho, planície com suaves ondulações que se estende por todo o sul do Brasil até a fronteira com o Uruguai, é mais conhecido pela agropecuária. Mas a produção de uvas ali não é exatamente nova. Há registros de que em 1880 um espanhol fundou uma vinícola, a Quinta do Seival, referência ao arroio Seival, palco de importante batalha da Revolução Farroupilha, que opôs os gaúchos ao império brasileiro (a marca e o que restava da propriedade foram compradas nos anos 2000 pela Miolo e deram origem ao projeto Fortaleza do Seival).

Mas foi preciso quase um século para que a Campanha voltasse a produzir vinho em escala comercial. Em 1970, a multinacional National Distillers anunciou um projeto vitivinícola na região, que se concretizaria três anos depois com a compra de enorme propriedade (1.200 hectares) nas proximidades de Santana do Livramento, fronteira do Brasil com o Uruguai. Nascia a Almadén. A escolha da região foi amparada em estudos de um professor da universidade de Davis, na Califórnia.

Em relação à Serra, a Campanha tem dois grandes atrativos. O principal é o regime de chuvas. Chove menos e as chuvas são distribuídas de maneira mais favorável ao longo do ano. Além disso, o solo arenoso, com boa drenagem e pouca matéria orgânica, é propício para uvas de melhor qualidade. Muitos consideram o terroir da Campanha mais adequado para variedades tintas de maturação tardia, como Cabernet Sauvignon e Tannat, e castas brancas como Sauvignon Blanc e Gewürztraminer.

Ainda assim, o pioneirismo da Almadén (hoje incorporada ao grupo Miolo) demorou a dar frutos. O atual ciclo de investimentos na Campanha só deslanchou nos últimos dez anos, com a chegada dos grandes produtores da Serra como Miolo, Salton e Valduga. Na esteira, vieram novos investidores – conheça três deles nesta reportagem.

Hoje, a principal bandeira da Associação dos Produtores de Vinhos Finos da Campanha é obter, junto ao INPI, o registro de Indicação de Procedência (IP) Campanha Gaúcha, primeiro passo para que a região se torne Denominação de Origem.

O sonho de Gabriela

Gabriela Hermann Pötter estudou agronomia, mas, durante o curso, direcionou seus estudos para a enologia. Formada, seu sonho era plantar vinhedos nas terras da família. O pai cedeu à insistência da filha e emprestou meio hectare para a empreitada. Parece pouco. E é. A Família Hermann Pötter é dona de mais de 10 mil hectares de terras em duas fazendas na região de Dom Pedrito. Mas tudo gira (ou girava), em torno da agropecuária, a começar pelo cultivo de arroz.

Foi nessa atividade que o avô de Gabriela, imigrante de origem alemã, começou a vida no Brasil. Hoje, a soja se juntou ao arroz, mas o forte é a criação de ovinos e, sobretudo, gado. O meio hectare foi plantado com Cabernet Sauvignon em 2003. Como as uvas revelaram excelente qualidade, a área plantada foi crescendo (hoje são 23 hectares) e novas variedades se juntaram à primeira: Tannat, Merlot, Tempranillo e Pinot Noir, tintas; Chardonnay, Sauvignon Blanc e Gewürztraminer, brancas.

Com Gabriela à frente do projeto e assessoria do enólogo uruguaio Alejandro Cardozo, a produção de vinho teve início em 2008. E levou à construção da Guatambu Estância do Vinho, complexo enoturístico de inspirada arquitetura espanhola, que abriga uma das vinícolas mais modernas do Brasil – e um belo restaurante especializado em parrilla.

O coroamento do trabalho de Gabriela veio na Expovinis 2014. Na maior feira de vinhos da América Latina, para surpresa geral, o Guatambu Rastros do Pampa Tannat 2013 foi eleito Melhor Vinho Tinto Nacional pelo júri especializado.

De longe. A tradição da Routhier&Darricarrère vem da Argélia

Gaúcho argelino

O que a guerra pela independência da Argélia tem a ver com uma pequena vinícola da campanha? No caso da Routhier&Darricarrère, tudo. O avô de Anthony Darricarrère tinha vinhedos no país africano. Em 1958, auge da guerra, emigrou para o Uruguai. Anthony nasceu em Paysandú, no país vizinho, e estudou enologia em Bento Gonçalves. A R&D começou a nascer quando o pai dele comprou terras em Rosário do Sul, em 2000, para plantar cítricos. Quatro anos depois foram plantados os primeiros vinhedos.

Hoje, são cinco hectares de uva. A produção é pequena (entre 20 e 40 mil garrafas), mas deve chegar a 80 mil. A R&D produz tintos à base de Cabernet Sauvignon ou em corte com a Merlot, dois espumantes, um branco Chardonnay e um rosé. O maior sucesso é o Red, que tem no rótulo uma Kombi vermelha, referência a uma viagem que o pai e o tio de Anthony fizeram pelo Brasil em 1974.

Casamento enológico

Rosana Wagner e Gladistão Omizzolo, donos da vinícola Cordilheira de Sant’Ana, se conheceram já no meio do vinho. Ela se formou em Engenharia Química e foi trabalhar na Almadén. Dezoito anos depois, foi para a Forestier, do grupo Seagram’s, na serra gaúcha. Logo em seguida, o grupo comprou a Almadén. E lá trabalhava Gladistão.

Nascido em Santa Catarina, ele estudou Enologia em Bento Gonçalves. Na Cooperativa Vinícola Aurora participou do lançamento de vinhos que foram referência no então incipiente mercado brasileiro (como Bernard Tailland e Clos de Nobles). De lá foi para a Forestier, onde foi encarregado de modernizar uma fábrica de rum em Recife e convocou Rosana para ajudá-lo. Recém-saída de um casamento, ela viu a mudança com bons olhos. A relação profissional acabou, anos depois, em casamento.

Foi ele quem pediu a ela que identificasse uma área, na região de Sant’Ana para construir uma vinícola como projeto de aposentadoria. O terreno foi comprado 1999; e a vinícola, inaugurada em 2004. Hoje a produzem três tintos (Tannat, Cabernet Sauvignon e Merlot), dois brancos (Chardonnay e Gewürztraminer) e um tinto de corte.

Tintos e brancos da Campanha

ALMADÉN PINOTAGE 2012

É uma boa surpresa, ainda mais pelo preço. (R$ 15 na vinícola)

ALMADÉN TANNAT VINHAS VELHAS 2012

Combina complexidade aromática (fruta madura e chocolate) com bom corpo. (R$110, na vinícola)

BUENO PARALELO 31 2009

Vinho de estilo bordalês, que não desmerece a inspiração. Caro. (Em torno de R$ 120)

CASA VALDUGA PREMIUM RAÍZES CABERNET FRANC 2011

Frutas vermelhas maduras, notas de especiarias e leve terroso marcam esse bom exemplar da uva que se dá bem na região. (R$ 60)

CORDILHEIRA DE SANT’ANA GEWÜRZTRAMINER 2012

Nariz elegante (lichias e rosas) comprova a boa adaptação ao terroir dessa uva branca que brilha na Alsácia. (R$ 58,30)

CORDILHEIRA DE SANT’ANA TANNAT 2005

Prova do potencial de envelhecimento dos vinhos feitos com essa casta. Muita fruta no nariz e na boca, acidez refrescante e taninos macios. (R$ 66,70)

DUNAMIS PINOT GRIGIO 2012

Leve e equilibrado. Bom para os aperitivos. (R$ 35)

GUATAMBU NATURE 2012

Ótimo espumante seco, macio e com bom volume em boca. 100% Chardonnay. (R$ 48,05)

GUATAMBU RASTROS DO PAMPA CABERNET SAUVIGNON 2012

Muito redondo e gostoso. O Tannat da mesma linha, safra 2013, também é muito bom. (R$ 43,40)

PERUZZO MERLOT 2011

A Merlot, “rainha da Serra”, também se expressa bem na Campanha, como neste exemplar bem frutado. (R$ 35)

ROUTHIER & DARRICARRÈRE ESPUMANTE ANCESTRAL 2011

100% Chardonnay, talvez seja o único espumante brasileiro feito com o método tradicional, usado em Limoux antes mesmo da Champagne, com uma única fermentação em garrafa. Aromas e sabores intensos, com nota levemente terrosa. Diferente, não é para qualquer gosto. (R$ 90).

RED 2010 – Corte de Cabernet Sauvignon e Merlot

Fácil de beber e de gostar. Muita fruta, corpo médio, álcool na medida certa (12,5%). O contra-rótulo conta a história da Kombi vermelha que ilustra o rótulo e faz recomendação bem-humorada sobre harmonização: “Do seu jeito”. (R$ 30)

>>Veja a íntegra da edição do Paladar de 1/1/2015

Ficou com água na boca?