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Para o bem e para o mal, o vinho brasileiro em destaque

Crescimento do consumo e a boa safra de 2020 entram em pauta, juntamente com o pedido de entidades do setor para impor barreiras ao vinho importado

17 de junho de 2020 | 03:00 por Suzana Barelli, O Estado de S.Paulo

O vinho brasileiro entrou na pauta nesta semana. E por duas razões opostas. A primeira, positiva, é o crescimento do consumo dos vinhos, principalmente os tintos, neste período de quarentena. Apenas em abril, o consumo dos rótulos verde e amarelo cresceu 30%, quando comparado com igual período de 2019, segundo dados coletados pela Uvibra (União Brasileira de Vitivinicultura). O vinho, e o brasileiro entra forte nesta tendência, é a bebida alcoólica da quarentena.

A segunda razão é polêmica. Ao mesmo tempo em que coletava esses números de crescimento, a Uvibra entrava com um pedido junto ao Ministério da Economia solicitando barreiras ao vinho importado. Assinado também pela Agavi e a Fecovinho, outras entidades que representam produtores e cooperativas gaúchas, o documento pede que os vinhos chilenos passem a pagar um imposto de importação de 27% (hoje, por acordo comercial, o imposto é zero para o Chile). O documento pleiteia ainda a aprovação prévia de licenças de importação, para criar barreiras não alfandegárias para a entrada da bebida importada no Brasil, e a mudança de alguns pontos mais técnicos para que os vinhos nacionais e importados sejam tratados igualmente.

Colheita de uva em propriedade vinícola da Miola, em Bento Gonçalves.

Colheita de uva em propriedade vinícola da Miola, em Bento Gonçalves. Foto: JF Diório/Estadão

Este documento caiu como uma bomba, dividindo o setor. Deunir Argenta, presidente da Uvibra, se apressou em explicar que não se trata de uma medida para restringir a entrada do vinho importado, mas sim para garantir espaço para a bebida nacional, e para combater o contrabando. A discussão está acalorada e há lojistas falando em parar de trabalhar com o vinho brasileiro. A polêmica deve marcar o setor do vinho nas próximas semanas.

E, pena, certamente vai prejudicar as notícias positivas do vinho brasileiro. A primeira é a boa safra de 2020, que muitos enólogos

comemoraram como a melhor dos últimos tempos, por razões climáticas. O primeiro vinho que provei (e gostei) com uvas desta safra

foi o Miolo Wild. É um gamay (uva da região de Beaujolais) elaborado sem adição de sulfitos e que fez sucesso, tanto que já acabou na loja online da Miolo.

Outra ação que perde espaço é a do e-commerce Evino, que fez uma parceria para vender rótulos de produtores brasileiros e, assim, ajudá-los neste momento de crise. De dia para outro, com a quarentena, pequenos produtores, muito focados no enoturismo, viram seus clientes sumirem. Rótulos da Dom Giovanni, da Bertolini, da Don Guerino e da Cainelli são comercializados no site evino.com.br até o final deste mês.

Com o setor dividido, fico com os espumantes de Adolfo Lona, uma das vozes ponderadas nesta discussão. Argentino, ele veio elaborar vinhos no Brasil, por aqui ficou, e atualmente foca nas borbulhas – pena que as vendas desses vinhos estão em queda, pela falta de festas e eventos na quarentena (o seu espumante Nature sai por R$ 81). Ou com os vinhos de autor de Luiz Henrique Zanini, um dos primeiros produtores a se manifestar contrário às medidas das associações gaúchas (seu melhor vinho é o Peverella, mas custa R$ 290, na Eradosventos.com.br).

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