Paladar

Bebida

Bebida

Só de birra

Heloisa Lupinacci

Para onde aponta Blumenau

O Festival Brasileiro da Cerveja acontece todos os anos no parque Vila Germânica em Blumenau

19 março 2014 | 19:21 por Heloisa Lupinacci

O Festival Brasileiro da Cerveja, que todo ano toma o parque Vila Germânica em Blumenau (dessa vez foi de quarta a domingo), reúne as cervejarias mais legais do País, que levam seus mais novos rótulos e seus mais loucos experimentos.

É um mar de boas cervejas. E muitas delas só dá para conhecer ali mesmo – ou porque não foram lançadas ainda, e algumas nunca chegarão ao mercado, ou porque estão ali em sua versão chope, na torneira, fresquíssima, recém-saída da fábrica. Enfim, esse é o lugar que oferece o melhor panorama do que está sendo feito nas boas cervejarias nacionais.

No festival também foram eleitas a cerveja e a cervejaria do ano. FOTO: Divulgação

Fazia umas oito horas que eu estava lá. Já tinha dado tempo de perceber que os assuntos do ano são a crescente presença de acidez nas cervejas, a maturação em barril de madeira e versões mais leves de estilos já conhecidos (leia abaixo). E já tinha escolhido o que iríamos provar – fizemos, eu, Rene Aduan Jr. e Raphael Rodrigues, uma maratona de provas (que você poderá ler nas próximas semanas) – quando meu pai chegou.

Ele mora lá perto e foi ao festival beber e me ver. Assim que nos vimos, entreguei a ele uns tantos ninkasis (a moeda de mentirinha que circula no festival, como se fosse ficha de parque de diversão) e uma lista de rótulos para ele provar e me dizer o que achou. Ele não é nenhum especialista, está longe de ser um sommelier. É só um cara que gosta de cerveja e, certamente, a primeira que tomei foi com ele. “Só a espuminha, hein?”, sempre dizia, numa época em que criança dar gole na espuma não era nada demais.

Terminada a jornada do primeiro dia do festival, fomos embora e, na cozinha da casa dele, antes de dormir, ele confessou: lá pelas tantas, depois de provar algumas cervejas que considerou difíceis, conseguiu encontrar um estandezinho da Ambev, onde comprou uma lata de Skol para matar a sede. Demos muita risada pelo inusitado da coisa.

Contei a ele que as cervejas convencionais brasileiras, nos anos 1980, tinham entre 16 e 20 IBUs (unidade internacional de amargor, na sigla em inglês) e hoje – depois de reduzir muito a quantidade de malte de cevada e lúpulo da receita para diminuir o índice de rejeição e o custo de produção – sobraram menos de 10 IBUs (exceção feita à Heineken, que mantém de 16 a 20 IBUs). Ele arregalou os olhos. Concordou que, 30 anos atrás, não conseguia beber cerveja em quantidade (num “beba menos, beba melhor” antes de isso virar lema) e reclamou que fica confuso diante da enorme oferta atual.

O papo na cozinha colocou o auê de Blumenau em outra perspectiva. Se no festival a conversa gira em torno da escolha da madeira do barril (bourbon ou castanheira? Carvalho americano ou francês?), fora dele o papo ainda é: por onde começar?

Hoje no Brasil existem 232 pequenas cervejarias, cada uma produzindo muitos rótulos (sem falar nos sazonais, nos lotes limitados, nas receitas que saem uma vez só). Nesse mar de cerveja, a lata de Skol funciona como boia até que cada um descubra do que gosta e consiga navegar com segurança na maré de bons rótulos.

Quem gosta mesmo de cerveja tem uma tarefa nas mãos: ajudar amigos e conhecidos a achar qual é a boa para cada um deles e nunca zoar o que estiverem tomando.

Samuel Cavalcanti em sua cervejaria, a Bodebrown, em Curitiba. Ele levou a mesma cerveja maturada em três barris diferentes para o festival de Blumenau. FOTO: Fernando Sciarra/Estadão

BARRIL

Os barris estão em voga. Samuel Cavalcanti, da Bodebrown, levou a mesma cerveja maturada em três diferentes barris, como se fosse uma degustação de barril. A Wee Heavy foi envelhecida em barris de carvalho francês, americano e de uísque bourbon. Ele também levou Atomga, russian imperial stout maturada em carvalho. A DUM fez um teste com sua imperial stout Petroleum, envelhecendo-a em um barril que recebeu tratamento prévio: eles prepararam um destilado da Petroleum e deixaram lá dentro por meses. Depois, tiraram quase todo o conteúdo e completaram o barril com a mesma cerveja, mas fresca.

ACIDEZ

A acidez está com tudo nos EUA e começa a ganhar espaço no Brasil. A Way lançou a linha Sour me Not, com frutas (acerola, graviola e morango). E a Morada Cia. Etílica levou a incrível Wheat Wine Sour, cerveja de trigo potente envelhecida em seis barris, cada um feito com uma madeira. A cerveja maturou ali por um ano. Nesse período, oxidou e ficou ácida. Então, André Junqueira, o cervejeiro, fez um blend das cervejas que ficaram no barril e depois as misturou com duas partes da cerveja original (que ficou guardada em barril de inox refrigerado). E levou ao festival. Foi a cerveja mais comentada. É um experimento, sem previsão de ser lançado.

Limbo, session stout da Seasons. FOTO: Fernando Sciarra/Estadão

MAIS LEVE

As cervejas session estão cada vez mais presentes – um alívio para quem já cansou dos extremos. Session é a cerveja de um estilo, por exemplo, india pale ale, em versão mais leve – menos álcool, menos amargor, menos corpo. A Wäls lançou a Session Citra, uma session IPA. A Seasons lançou uma session stout, a Limbo. A F#%&ing Beer lançou uma session IPA, a Fresh. Minha impressão é a de que o aumento de oferta de sessions reflete um passo, na linha: ok, já entendemos até onde o extremo pode chegar, realmente as cervejas podem ser complexas e intensas, legal. Agora a gente pode só tomar uma bem gostosa e refrescante?

 

Ficou com água na boca?