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Patrimônio cultural engarrafado

Encravados entre os Alpes e o lago de Leman, os vinhedos de Lavaux, na Suíça, são tombados como patrimônio cultural pela Unesco. Dali saem (ou melhor, não saem) brancos peculiares, encontrados apenas no mercado local

18 novembro 2015 | 18:49 por redacaopaladar

Por Jamil Chade

De Lavaux, Suíça

Nem só templos e ruínas sustentam a lista do patrimônio mundial cultural da Unesco. Amigo do homem desde a Antiguidade, o vinho tem funcionado como um radar para a organização, que cada vez mais se volta às regiões produtoras – e nesse caso não necessariamente pela qualidade da bebida, mas pela tradição do método de produção, pelas construções e até pela natureza. Até agora, esse patrimônio foi reconhecido exclusivamente na Europa.

As regiões que entraram na lista mais recentemente foram Borgonha e Champagne, na França, ambas incluídas na seleção em julho deste ano. Outras célebres áreas vinícolas, como o Piorato, na Espanha, estão buscando o reconhecimento da Unesco.

Lavaux, região vinícola na Suíça. FOTOS: Divulgação

Os critérios de avaliação são claros e públicos, disponíveis no site da Unesco. Eles dizem respeito ao tipo de representação histórica e cultural que cada região oferece. E, uma vez que um lugar entra na lista, é comum que viva um boom turístico – algumas regiões, no entanto, já são extremamente visadas pelos viajantes e até dispensariam mais turistas.

O reconhecimento da Unesco não costuma ter impacto no preço dos vinhos. No caso do Priorato, que já faz vinhos caros, o produtor Álvaro Palácios disse ao Paladar que, caso a região ascenda ao panteão do patrimônio da humanidade, o preço não sofrerá alterações.

“Seria maravilhoso entrar na lista, um reconhecimento do planeta Terra, mas isso não encareceria o vinho. Nosso problema de preço tem mais a ver com a geografia de nossos vinhedos.”

Há ainda regiões vinícolas que entram na lista por outras razões que não o vinho – seja arquitetura, beleza da paisagem ou localização, como é o caso do vale do Loire, na França, que faz alguns bons vinhos, mas não está na lista por eles.

O Paladar esteve nos vinhedos de Lavaux, na Suíça, tombados pela Unesco. A produção ali é tão pequena que mal abastece as adegas locais.

Um dos melhores vinhos brancos desconhecidos do mundo

Os vinhedos de Lavaux ficam praticamente escondidos entre o azul intenso do lago Leman e os picos dos Alpes. Amarelados e avermelhados pelo outono europeu, agora hibernam, enquanto famílias inteiras mergulham na fabricação de seus vinhos dentro de suas casas de arquitetura tradicional suíça.

As garrafas produzidas na região não são exportadas. Mal chegam a abastecer as adegas suíças. Com propriedades que variam de 3 a 4 hectares, a produção é pequena. E os vinicultores preferem assim.

Dali, saem as uvas Chasselas, que vão produzir o que os suíços chamam de “um dos melhores vinhos brancos desconhecidos do mundo”. É também um dos poucos que tem o título de patrimônio mundial da Unesco. A lista de áreas vinícolas tombadas tem aumentado, mas ainda são poucas as regiões que detêm a classificação. A entidade da ONU reconhece o caráter único dos vinhedos de Lavaux.

Para a Unesco, a região de Lavaux tem vinhos de caráter único, além de cultura e cenários peculiares. A colheita na região de língua francesa da Suíça é ainda manual. E, mesmo hoje, os produtores fazem pausas durante o dia para, merecidamente, beber seu próprio vinho. Nenhuma máquina é autorizada a entrar nos vinhedos. Uma exceção se abre algumas vezes por ano para um helicóptero usado para buscar as uvas colhidas nas áreas mais remotas da encosta.

A produção também repete praticamente as mesmas técnicas usadas por monges beneditinos desde o século 11. Não existe irrigação artificial e o uso de produtos químicos é limitado ao mínimo.

Barreira. A presença dos vinhedos na região tem quase mil anos de história e ganhou força para criar uma espécie de zona tampão entre dois reinos que disputavam o controle do território. De um lado do lago, o Duque de Saboia tinha pretensões expansionistas. De outro, o arcebispo de Lausanne tentava manter sua região fora do controle “estrangeiro”.

A sorte sorriu para o arcebispo quando, como recompensa por ter lutado ao seu lado em outras batalhas, o Duque da Borgonha cedeu as terras de Lavaux ao religioso. O que era floresta rapidamente começou a ganhar contornos de vinícolas, somando-se àquelas poucas que já existiam na região.

400 anos de trabalho depois, Lavaux conta com 450 quilômetros de muros e 10 mil terraças feitas à mão. Eles se dividem em 40 níveis diferentes, com os vinhedos mais elevados chegando a 350 metros acima do lago ou rodeando vilarejos como o de Saint-Saphorin e Dezaley. No total, são 23 comunidades entre a cidade de Lausanne e o castelo de Chillon permeada pelas vinícolas.

Os 800 hectares de plantações são dominados por pequenos produtores. No total, 1,1 mil proprietários fazem parte do mosaico de Lavaux e 200 deles vivem exclusivamente da venda do vinho.

Vulnerabilidade. Mas o cenário de uma aparente tranquilidade esconde também um sério desafio. Desde que o comércio de vinhos pela Europa foi aberto, os produtores locais passaram a ter de se confrontar com a concorrência mesmo no mercado suíço de garrafas a menos de 10 francos suíços (cerca de US$ 11,00).

“A situação é muito complicada para muitos dos produtores”, admitiu Emmanuel Estoppey, gerente do projeto da Unesco em Lavaux.

O Chasselas, segundo ele, exige uma elevada intensidade de trabalho. “Trata-se de uma uva muito doce e que, para transformá-la em um bom vinho, exige um forte acompanhamento”, explicou. Em média, um vinho exige 300 horas de trabalho por hectare por ano. No caso do Chasselas, a média é de 1,2 mil horas. “E isso tudo precisa ser pago”, disse.

Existe ainda uma outra limitação. Com vinícolas de pequeno porte, a possibilidade de armazenar garrafas ou produções antigas em velhos barris é quase impossível, o que também impede a venda de vinhos mais valorizados. “Para que um produtor coloque sua nova safra em um barril, ele praticamente precisa consumir o que está ali antes”, explicou Estoppey. São raras, portanto, as garrafas de safras anteriores no mercado e, em locais literalmente escondidos de Lavaux, alguns poucos guardam tesouros de 40 ou 60 anos.

O selo da Unesco, portanto, passou a ser uma oportunidade extra para equilibrar a renda local, atraindo o turismo e transformando casas da região em locais para eventos. Se de um lado o título obriga a região a preservar suas características, os responsáveis locais garantem que as leis já existem antes mesmo da Unesco chegar. Já em 1977, um referendo foi realizado no cantão de Vaud dando privilégios e garantias para Lavaux.

“Quando se compra esse vinho, compra-se uma parte da história, a paisagem incrível da região e cultura”, justificou.

Para Estoppey, o que de fato pode fazer a diferença é a atração de turistas selecionados. Uma série de atividades culturais e caminhadas entre os vinhedos passaram a ser planejadas. Numa dessas trilhas, as paradas se confundem com a história do local. Na vinícola de Blaise Duboux, são 17 gerações de produtores. Numa casa e num terreno mantido pela mesma família desde 1454, os relatos sobre a região mais parecem um épico. Não distante dali, no Auberge de la Gare, só um produto vem de uma altitude ainda maior que o vinho: o queijo trazido diretamente dos Alpes.

Nos meses de inverno e quando a noite chega mais cedo, a região também propõe uma trilha surpreendente. Sair às cinco da tarde para caminhar e ver como a região escurece. Caminhando apenas sob a luz da lua que reflete no lago, a trilha entre os vinhedos ganha um sabor diferente.

Enquanto os turistas fazem o trajeto, guias contam as histórias mais curiosas do local. E, dizem, o ar fresco contribui para abrir o apetite. Quatro quilômetros e cerca de 1h30 depois, a trilha termina em uma mesa bem montada com um fondue e, claro, os melhores vinhos da região. “Se não temos como exportar, pelo menos trazemos os turistas até aqui”, diz Estoppey. Belo programa.

Vinhedos tombados pelo mundo

FRANÇA

Champagne

Saint-Emilion (1999). Paisagem de vinhedos histórica. O Château Cheval Blanc está entre os mais renomados vinhos da região.

Champagne (2015). Região é resultado de expertise aperfeiçoada ao longo dos anos.

Borgonha (2015). Exemplo de cultivo desenvolvido na idade média. Tem ainda microclimas delimitados. Domaine de la Romanée-Conti, um dos mais caros do mundo, é produzido aqui.

HUNGRIA

Tokaj

Tokaj (2002). Com suas montanhas e vales, a região representa uma tradição de vitivinicultura distinta que existe há pelo menos mil anos e que se manteve intacta até hoje, de acordo com a Unesco. Se destaca pelos vinhedos e adegas, bem como vilas, fazendas e casas históricas. Da região, sai o célebre e muito valorizado Tokaj Aszú, feito com uvas botritizadas, presente até no hino húngaro.

ITÁLIA

Piemonte

Piemonte (2014). A área tombada engloba cinco diferentes regiões vitivinícolas, que, acredita-se, são produtivas desde o século 5º a.C., quando o local servia de ponto de contato e comércio entre celtas e etruscos. Guarda o arquétipo do que é o vinhedo europeu. No último século, o nome de Angelo Gaja, um dos mais importantes produtores da Itália, se destaca na região de grandes Nebbiolos

PORTUGUAL

Douro

Alto Douro (2001). Produz vinhos há mais de 2 mil anos e tem sua paisagem moldada pela atividade humana. Entre os principais rótulos produzidos ali está o Barca Velha.

Ilha do Pico (2004). Segunda maior ilha do arquipélago dos Açores, a Ilha do Pico mostra indícios da vinicultura praticada desde o século 15, com uma reunião extraordinária de campos, casas do século 19, adegas, igrejas e portos. A paisagem extraordinária feita pelo homem, com diversos currais para barrar o vento e a água do mar, é um ótimo exemplo de uma prática muito comum no passado.

>> Veja a íntegra da edição de 19/11/2015

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