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Pinot Grigio: a culpa não é da uva

Há bons Pinots Grigios. Quem já tomou um Movia, Gravner, Meroi, sabe o que essa uva pode

22 janeiro 2014 | 21:04 por redacaopaladar

Por Eric Asimov

The New York Times

Pode um vinho acabar vítima da própria popularidade? Aparentemente, sim.

A questão surgiu porque eu queria confirmar um ponto de vista. Como muitos outros vinhos bem populares, o Pinot Grigio (o mais lucrativo vinho branco importado para os EUA, segundo o instituto de pesquisa Nielsen) é apenas tolerado por muitos cujo trabalho é vendê-lo. Já vi muito isso: a garrafa é aberta por sommeliers dedicados, mas que resmungam porque os clientes pedem aquele vinho que eles, sommeliers, mal conseguem tomar.

Vinhos pedidos meio por impulso – Sancerre, Merlot – correm risco de desprezo parecido. Não é que os sommeliers sejam esnobes ou pouco hospitaleiros. Afinal, se um restaurante só se preocupasse em servir o que a maioria dos clientes quer, teríamos uma inundação de Pinot Grigio, filé de salmão e peito de frango.

O fato é que sommeliers, em sua maioria, levam vinho a sério e gostam de inspirar as pessoas a pedirem os rótulos que os empolgam. Quando os clientes rejeitam suas sugestões e preferem pedir por inércia, eles responsabilizam o vinho pedido pelo seu fracasso.

Vinha com vista. Vila em Alto Adige, região de Pinot Grigio. FOTO: Dominic Ebenbichler/Reuters

Entendo como eles se sentem, mas ninguém é obrigado a atender ao gosto do sommelier. O fato de os clientes acabarem no Sancerre (vinho desta região francesa, quase sempre Sauvignon Blanc) não significa que Sancerre seja ruim. Significa apenas que os sommeliers devem achar novas táticas para inspirar os clientes a fazer pedidos mais estimulantes – e aceitar quando eles tiverem outras prioridades.

Essa linha de pensamento frutificou quando eu estava considerando que o Pinot Grigio da Itália, mais que qualquer outro, parece merecer o desprezo dos sommeliers como protótipo de bebida insípida. Sei que há bons Pinots Grigios por aí. Quem já tomou um Pinot Grigio de Gravner, Movia, Meroi ou outros grandes produtores da fronteira entre Friuli-Venezia Giulia e a Eslovênia sabe o que essa uva pode oferecer. Mas é difícil contestar que a maioria dos Pinots Grigios vendidos nos Estados Unidos são doces e ordinários.

No que eu esperava que fosse um resgate de um gênero das mãos de seus detratores, organizei uma degustação com 20 Pinots Grigios de safras recentes do Trentino-Alto Adige, região do Tirol, nordeste da Itália. Nesta perigosa missão eu e Florence Fabricant fomos acompanhados por Jeff Kellogg, diretor de vinhos do Maialino, e Joe Campanale, proprietário e responsável pelas bebidas de quatro restaurantes de Nova York, como Dell’Anima. Joe e Jeff não são daqueles que se queixam de ter de vender Pinot Grigio. A estratégia deles é mais simples: não têm Pinot Grigio no cardápio.

De qualquer modo, eu estava ainda convicto de que os Pinots Grigios eram subestimados. Até que a degustação acabou.

A triste verdade é que não achamos muita coisa interessante em nossas 20 garrafas. Havia alguns bons, claro, como nossos dois favoritos (o rico Gaierhof 2011, de Trentino, e o Köfererhof 2012, da região do Valle Isarco, do Alto Adige). Mas, na maior parte, eram exatamente os vinhos baratos, simples, monótonos que esperava não encontrar.

As perguntas então surgiram: será tão difícil fazer um bom Pinot Grigio? Estariam os produtores tomando o caminho fácil de fazer grande quantidades de vinhos que sabem que venderão bem? O que faz o vinho tão popular, afinal?

Essa última é fácil. Nomes eufônicos, que soam bem aos ouvidos (Pinot Grigio, Sancerre, Chardonnay), sempre ganham de alternativas mais ásperas – embora o Grüner Veltliner (variedade do Leste Europeu) venha se saindo bem nos últimos tempos. Mas é mais difícil dizer por que os vinhos não são melhores.

Além dos nossos dois escolhidos, elegemos alguns bebíveis e refrescantes – mas a maioria parecia ter um dulçor exagerado.

Lasquei-me a mim mesmo, enfim, um tapa, ao menos no sentido figurado: o inimigo não é a Pinot Grigio. Assim como não era a Merlot ou Pinot Noir cultivadas no lugar errado, ou qualquer outro gênero que vira alvo da indignação do mundo do vinho.

O inimigo são produtores que tentam se aproveitar da popularidade de tais vinhos fazendo bebidas medíocres com métodos preguiçosos e cínicos. Alvo identificado.

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 23/1/2014

Ficou com água na boca?