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Pinots sob influência do Pacífico

Por Marcel Miwa

19 março 2014 | 21:11 por redacaopaladar

Se a geografia impacta a produção do vinho, o que dizer da influência de um oceano inteiro? É possível saber qual a influência de um mesmo oceano em diferentes regiões vinícolas? Foi essa a ideia que inspirou a prova – resolvemos avaliar a Pinot Noir cultivada e vinificada em diferentes zonas sob a influência do Oceano Pacífico.

Selecionamos quatro vinhos varietais, 100% Pinot Noir, de quatro países, todos produzidos em zonas sob influência desse oceano em que correntes frias partem dos polos rumo ao continente, varrendo regiões do Chile, Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia.

A Pinot é uma variedade particularmente sensível ao clima. Sua preferência é por temperaturas mais baixas, especialmente se comparada à Cabernet Sauvignon ou à Petit Verdot, e pela baixa umidade. Nascida e criada na Borgonha, a variedade não gosta de viajar e tem a capacidade de expressar muito bem o terroir onde está plantada.

Enquanto outras castas vão bem em condições mais elásticas e são mais versáteis, a Pinot Noir pede um ponto exato de ajuste. Se isso acontece, como em algumas partes da Borgonha, o vinho estará entre os grandes tintos do mundo. Agora, se as condições se afastarem do ideal, a queda de desempenho é exponencial. Por isso, tudo indicava que a Pinot seria capaz de revelar as sutilezas de cada microclima em torno do Pacífico.

Em geral, as faces a leste dos oceanos são mais frias que as enseadas a oeste. Teoricamente, os ventos que sopram do Pacífico têm maior participação no frio da costa chilena e no oeste dos Estados Unidos do que na Nova Zelândia e leste da Austrália. E o frio é o ponto aqui. Em temperaturas mais baixas, as uvas amadurecem lentamente e rendem vinhos mais elegantes, menos alcoólicos, que se dão melhor com a comida. E esses vinhos têm cada vez mais adeptos, já que o bebedor está cansado de potência e concentração de tintos com passagem por barricas novas de carvalho tostado.

A degustação mostrou que medir a influência do oceano não é tão simples. Ele não se sobrepõe de maneira tão incisiva aos demais componentes do clima, como a altitude e a latitude.

Mas, mesmo com tantas variantes a prova evidenciou pontos comuns entre os vinhos do painel. O principal deles é a acidez. Os quatro provados tinham a virtude da boa acidez, que os deixa mais fáceis de beber e, mesmo no caso da versão mais concentrada australiana, confere elegância. No caso do aroma, os vinhos revelaram perfis distintos entre si – mas nenhum desagradou.

Todos os tintos provados foram capazes de dar prazer, uns em contextos mais específicos, outros de forma absoluta.

A receita ideal para a Pinot Noir parece difícil de ser decifrada, mas a busca de seus ingredientes foi um exercício delicioso.

Participaram da degustação Guilherme Velloso, Simon Knittel, dono da loja de vinhos Kylix, e eu.

FOTOS: Fernando Sciarra/Estadão (garrafas); ARTE: Fernando Sciarra/Estadão sobre foto de Felipe Rau/Estadão

WESTEND ESTATES COOL CLIMATE PINOT NOIR 2009 – Bom

Origem: Tumbarumba, Austrália

Potente e concentrado, mas com fruta, acidez e taninos equilibrados. As notas de cereja madura e baunilha estão presentes. Não é um Pinot convencional, por isso é indicado para paladares curiosos. Melhora bastante na presença de comida.

FRAMINGHAM PINOT NOIR 2008 – Ótimo

Origem: Marlborough, Nova Zelândia

O campeão da prova. Este neozelandês possui características de um Pinot Noir evoluído (com coloração rubi atijolada e aromas de café com leite, folhas secas e frutas vermelhas frescas, especialmente cereja e framboesa). O conjunto de acidez, taninos e álcool está muito bem equilibrado. Segundo Guilherme Velloso, foi o vinho mais complexo do painel. Prestes a completar 6 anos de vida, a elegância está em seu auge.

DOMAINE DROUHIN OREGON CLOUDLINE PINOT NOIR 2009 – Ok

Origem: Oregon, EUA

Os aromas estavam fechados, o que ressaltou o álcool (para tirar a teima, provei de novo, no dia seguinte, mas o problema se repetiu). Este Pinot do Oregon é reticente no nariz. O perfil aromático é de fruta madura (groselha e cereja) e há um aroma que lembra o incenso. A untuosidade seduz, mas os taninos intensos secam levemente a boca. Segundo Simon Knittel, eles estão no limite de intensidade para a delicada variedade.

UNDURRAGA T.H. PINOT NOIR LEYDA 2012 – Ótimo

Origem: Leyda, Chile

Preço: R$ 99 (Inovini)

Jovem e com expressão frutada (morango, cereja e framboesa). Mesmo às cegas, os aromas já indicavam um perfil chileno ou um Borgonha jovem. Como o tema excluía a região francesa, ficou fácil identificá-lo. A ótima acidez, os taninos delicados e o aroma de toffee no final o afastam da obviedade. Todos concordaram que é um ótimo passo de entrada para quem quer entender a variedade. Coerente e bem definido.

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 20/3/2014

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