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Suzana Barelli

Quando o vinho premium ensina

Rótulos sofisticados funcionam como um pequeno laboratório de experiências que, bem-sucedidas, melhoram a elaboração dos demais vinhos da vinícola

02 de dezembro de 2020 | 03:00 por Suzana Barelli, O Estado de S.Paulo

Com 127 hectares de vinhedos, nem todas as uvas do Don Melchor, um dos rótulos premium do Chile, são utilizadas neste vinho. Mesmo cultivadas com capricho, algumas frutas não chegam à qualidade desejada. Outras, mesmo tento gerado vinhos de qualidade, não são escolhidas para o blend final, pela característica da safra daquele ano. Assim, enquanto a Viña Don Melchor não tem o seu segundo vinho, o tinto gerado por estas uvas vai para as linhas Gravas Del Maipo e Marques de Casa Concha, que também pertencem à Concha Y Toro.

Do outro lado da Cordilheira dos Andes, o projeto Cheval des Andes traz uma experiência francesa à Argentina. Seu principal enólogo, Pierre Lurton, que também elabora os ícones Cheval Blanc e Château D’Yquem, em Bordeaux, começa a apresentação da safra de 2017, com o comentário de que gosta de ir para a Argentina para conversar com Roberto de la Mota. Um dos grandes enólogos do país, Mota participou do início deste projeto e também do Terrazas de Los Andes, que pertence ao mesmo grupo, antes de partir para o seu voo solo – atualmente, são dele os vinhos Mendel.

O conhecimento em elaborar rótulos premium pode ajudar na elaboração de toda a linha.

O conhecimento em elaborar rótulos premium pode ajudar na elaboração de toda a linha. Foto: Fernando Sciarra/Estadão

Ainda na América do Sul, Eduardo Felix, viticultor da Garzón, no Uruguai, conta quais das 1.200 parcelas de vinhedos próprios são destinadas ao Balasto, tinto premium da casa. E faz apostas quanto ao futuro da marselan, uma das cinco uvas do blend deste vinho. A variedade, que faz sucesso na fronteira do Brasil com o Uruguai, deve dar origem a um tinto 100% marselan, na linha Petit Clos, pelo conhecimento que a vinícola vem aprendendo no seu cultivo para o Balasto.

Trago estes três exemplos porque estas vinícolas lançaram recentemente suas novas safras no Brasil. Todas de qualidade, ainda jovens, com muito potencial de envelhecimento e preços caros (R$ 945 o Don Melchor; R$ 895 o Cheval des Andes; e R$ 980 o Balasto). Mas o meu ponto hoje é como o conhecimento em elaborar rótulos premium acaba ajudando os demais vinhos de cada vinícola.

Não apenas no marketing e na visibilidade, mas nas técnicas para fazer uma bebida melhor. O Cheval des Andes, por exemplo, é um projeto separado da operação da LVMH. Mas o conhecimento em irrigação do vinhedo em Las Compuertas da Cheval acaba chegando às demais vinícolas do grupo. Quando decidiram apostar neste vinhedo na virada do século XX, a ideia era manter a irrigação por inundação, com água do degelo dos Andes. Agora ela é feita por gotejamento para ter um melhor controle da quantidade de água que as vinhas de malbec recebem. O aprendizado com irrigação é um dos desafios da viticultura, principalmente em regiões quase desérticas, como Mendoza.

Assim, os malbecs da Terrazas tiram proveito deste conhecimento, assim como os vinhos mais simples da Garzón, mesmo sem a complexidade de seus ícones. Como se os rótulos sofisticados fossem um pequeno laboratório de experiências que, bem-sucedidas, vão melhorando a elaboração de toda a linha.

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