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Heloisa Lupinacci

Rolha e barbante

Dê uma volta ao passado com a nossa colunista

21 janeiro 2015 | 16:36 por Heloisa Lupinacci

Hoje, hoje mesmo, dia 22 de janeiro de 2015, estamos vivendo uma revolução da cultura cervejeira no Brasil, com a diversificação das marcas e estilos disponíveis, depois de décadas de prateleiras ocupadas por tudo do mesmo. Hoje, 140 anos atrás, época em que o Estadão nascia, o cenário cervejeiro era o seguinte: o mercado era dominado por cervejas inglesas (nada mau), concorriam com elas, principalmente, cervejas caseiras (sem registro oficial e sem grilos), começava a despontar a preferência por cervejas alemãs (que eram importadas em garrafas, diferente das inglesas, que vinham em barris), havia muitas fábricas pequenas, entre caseiras e microcervejarias, e ao menos uma grande cervejaria que sobrevive até hoje, a Bohemia, fundada em 1853.

Diante dessa descrição, é preciso rever a ideia de revolução cervejeira: talvez fosse mais adequado dizer retomada cervejeira em vez de revolução. Veja só: o atual cenário, de diversidade e criatividade, deve muito às panelas dos cervejeiros caseiros (muitos deles viraram cervejeiros depois de registrar suas receitas para poder vendê-las oficialmente) e às cervejas das escolas inglesa e alemã (pergunte a seu amigo bebedor de cerveja qual foi a primeira cerveja especial que ele tomou e eu aposto que a resposta será a irlandesa Guinness ou a alemã Erdinger). E vivemos um boom de cervejarias pequenas. (Para coroar as semelhanças entre as duas épocas, a “cerveja” mais largamente consumida pela população também era à base de milho – a gengibirra levava farinha de milho, gengibre, casca de limão e água. Mas deixa para lá.)

Fig. 11 — A cerveja marca barbante deu origem à expressão que foi substituída pelo termo ‘genérico’

A cerveja naquela época era coisa de se tomar em casa ou no boteco. Não era posta à mesa – território exclusivo de garrafas de vinho. Hoje (demorou), a bebida é percebida como gastronomia e vem ocupando cada vez mais espaço nas cartas de bebidas de restaurantes. Naquela época, era feita e vendida na vizinhança. Quase sempre, o comprador ia até a cervejaria para comprar cerveja, numa aproximação entre cervejeiro e bebedor que é de fazer inveja aos dias de hoje…

Graças ao trabalho de pesquisa de Carlos Alberto Tavares Coutinho, autor do site Cervisiafilia, é possível resgatar o começo da vida cervejeira no Brasil – cujo primeiro registro remonta ao século 18, com uma fábrica instalada no Recife pelos holandeses. Há uma pausa, devido à proibição de manufaturas da colônia, e a cerveja volta à vida nacional, mas agora importada, em 1808, com a vinda da família real.

Plóc. Voltando à década de 70 do século 19, 140 anos atrás, o fato cervejeiro mais curioso é a origem da expressão marca barbante – que foi substituída pelo termo “genérico” no começo dos anos 2000. Marca barbante era como as pessoas se referiam a algo sem marca – e muitas vezes de qualidade pior – até duas décadas atrás. Essa expressão é legado da história da cerveja no Brasil. Bem nesse período, quando o Estadão nasceu, as cervejas marca barbante tinham esse nome porque era um nó de fio grosso de algodão que segurava a rolha à garrafa – como eram rudimentares, tinham muito gás e suas rolhas sairiam pelos ares sem a ajuda do barbante. Quando abriam, faziam plóc, igual garrafa de champanhe. E é com um plóc de cerveja marca barbante que proponho o brinde ao aniversário do jornal.

 

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