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Safra 2014 de enólogos se reúne em São Paulo

Mais de 60 produtores de diversas regiões vinícolas de 16 países participaram de encontro promovido pela importadora, que se repete a cada dois anos. Quem foi ao evento pôde provar vinhos e falar com os produtores

07 maio 2014 | 21:45 por redacaopaladar

Por Guilherme Velloso  e Marcel Miwa

A 7.ª edição do Encontro Mistral reuniu mais de 60 vinícolas de 16 países que pertencem ao vasto catálogo da importadora de vinhos. De segunda a quarta-feira desta semana, no Hotel Grand Hyatt de São Paulo, foram expostos centenas de vinhos, de diferentes estilos e origens. Quem pagou R$ 290 por dia – ou foi convidado – podia provar livremente o que era servido pelos vinicultores.

O Paladar conferiu de perto a reunião de enófilos, promovida a cada dois anos. Um dos destaques foi a presença de uma nova geração de enólogos. Alguns já consagrados, outros ainda pouco conhecidos por aqui, formam um time que promete fazer barulho nos próximos anos. Conheça suas histórias e a de novos nomes do mundo do vinho.

E, se bater uma sede, veja no Quinta do Paladar os vinhos levados ao Encontro da Mistral que mais chamaram a nossa atenção.

A boa filha à vinícola torna

A francesa Eve Faiveley completou 30 anos no Brasil, ontem. Mas não houve tempo para grandes comemorações. Ela veio ao País representar a vinícola de sua família, o tradicional Domaine Faiveley – maior proprietário de premier e grand crus na Borgonha. Há apenas três meses, ela assumiu a direção da vinícola, ao lado do pai, François, e de Erwan, o irmão do meio – o mais velho é fotógrafo. Eve, que nasceu em Beaune e viveu na Borgonha até os 20 anos, trabalhava na conhecida firma norte-americana de cosméticos Estée Lauder até o fim do ano passado. Mas nunca perdeu as memórias do vinho.

FOTO: Márcio Fernandes/Estadão

Da infância, quando costumava brincar nos vinhedos da família – vizinhos à casa dos avós Nuits-St-Georges, quartel-general do Domaine –, à adolescência, quando trabalhava todo ano por duas semanas nas mesas de seleção de uvas da vinícola, Eve passou a vida rodeada de boas garrafas.

Agora, uma de suas responsabilidades na Faiveley será cuidar do mercado parisiense, crucial para vinhos de alta qualidade. É que a família faz questão de ter forte presença na França. Outra tarefa de Eve será dividir com Erwan a representação em feiras e outras atividades internacionais.

A francesa conta que, quando o irmão lhe perguntou se queria vir ao Brasil para o Encontro Mistral, aceitou sem titubear, pois tinha adorado o mês que aqui passou, de férias, no início do ano, numa viagem que a levou de São Paulo a Fernando de Noronha, passando por Paraty, Rio e Recife. (Por Guilherme Velloso)

Uma brasileira em Beaune

Com menos de 2 mil habitantes, Savigny-Lès-Beaune é um vilarejo rural, na prestigiada Côte d’Or, na Borgonha. É lá que mora, há oito anos, a brasileira Carolina Licati. Ela morava em Santo André (SP) até decidir se mudar para a Europa. Isso foi 15 anos atrás.

FOTO: Gladstone Campos/Divulgação

Depois de ter trabalhado em Milão e Paris na grife da estilista Stella McCartney, Carolina resolveu que queria continuar na França. Dos muitos currículos que mandou, um foi aceito por uma empresa norte-americana que organiza viagens de “cicloturismo” por regiões vinícolas. O novo emprego exigia que fosse morar em Beaune, “capital” da Borgonha, um dos roteiros comercializados pela empresa. Começava ali uma história de amor.

A primeira degustação de que participou em sua nova atividade a levou a uma pequena vinícola familiar, a Parigot, especializada em produzir Crémant de Bourgogne (crémant é o nome dado na França aos espumantes produzidos fora da região de Champagne). Foi lá que conheceu Grégory Georger, da família proprietária da vinícola. É fácil prever o resto da história, que mais parece enredo às avessas de um filme na linha de Comer, rezar, amar, da americana Elizabeth Gilbert (na história real que deu origem ao filme, ela se casa com um brasileiro). Carolina casou-se com Grégory e está esperando o primeiro filho do casal.

Mas, hoje, ela não se limita a eventualmente ajudar o marido, principalmente em viagens como a que fizeram ao Brasil para o Encontro Mistral. Com a experiência adquirida, ela abriu sua própria empresa de enoturismo, que atende pelo sugestivo nome de Vidaboa Viagens.

A Vidaboa organiza viagens enológicas, de bicicleta ou carro, cursos de vinho e de culinária, bem como festas e casamentos, na França e na Itália. (Por Guilherme Velloso)

Enobsessivo

“Enfant terrible”, “Bad Boy” ou rebelde. Qualquer um dos apelidos cairia bem para Alejandro Vigil. No entanto, se há uma palavra que melhor descreve seu comportamento é workaholic. Certa vez, eu estava em Buenos Aires participando de uma pequena degustação com outros jornalistas e enólogos argentinos. De repente, chegam Vigil e a esposa. Como estava em época de colheita, ele esperou terminar o expediente daquele dia e embarcou para Buenos Aires. Não tinha sequer reservado um hotel. Após a degustação, voltou ao aeroporto com a esposa e lá esperou o primeiro voo de volta a Mendoza. Claro que ali havia grandes amigos e alguns raros vinhos, mas a obsessão em provar e conhecer novos vinhos me impressionou. Não é à toa que ele chegou à posição de enólogo-chefe da principal vinícola argentina, a Catena, aos 34 anos de idade.

FOTO: Divulgação

Com certa previsibilidade, o passo seguinte de Vigil foi iniciar um projeto autoral. Em 2008, formou sociedade com Adrianna Catena, filha de Nicolás Catena, e fundou a Bodega Aleanna, mais conhecida pela linha de vinhos El Enemigo.

Se na Catena os vinhos seguem uma linha consensual, em El Enemigo, Vigil busca interpretações extremas e intensas de Mendoza, mais exatamente de Gualtallary. Para atingir a proposta de vinhos extremos, explica que o trabalho de precisão é fundamental. Somente para os vinhos da linha El Enemigo, trabalha com mais de 120 diferentes parcelas de vinhedos. Pode parecer muito, mas o enólogo logo avisa que para Catena tem um material base de mais de 400 parcelas de vinhedos para trabalhar separadamente.

Provavelmente o principal rótulo da vinícola, o Gran Enemigo 2008, ilustra melhor a proposta de vinhos extremos, em que taninos, acidez, concentração, aromas e madeira ainda estão em alta frequência. Por outro lado, a um terço do preço do Gran Enemigo, o El Enemigo Malbec 2010 mostra a força da Malbec, com seus aromas de ameixa e violeta intensos, a marca dos tostados e abaunilhados das barricas de carvalho e taninos mais prontos para se tomar hoje. (Por Marcel Miwa)

Inquietações do Vale

Luís Henrique Zanini é enólogo e proprietário da Vallontano, uma das primeiras vinícolas para quem caminha pela rota do Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves. Quem não conhece o projeto pode até perguntar se não é mais uma vinícola daquele vale que produz bons espumantes e merlot.

Zanini sempre se colocou contra as medidas protecionistas do vinho brasileiro (como na época das salvaguardas), ainda que pudesse ser beneficiado, e saiu em defesa das pequenas vinícolas nacionais, normalmente esquecidas das ações de promoção setorial e pisoteadas pela burocracia.

Dupla. À direita, Luiz Henrique Zanini, da Vallontano; à esq., Luc Desroche, da Masi. FOTO: Márcio Fernandes/Estadão

De fato, está longe da imagem de empresário ranzinza que só reclama. Uma boa parte de seu tempo (e dinheiro) é investida em aprendizado, com intercâmbio com vinícolas estrangeiras. Em 2007 foi à Borgonha e participou da colheita e vinificação no Domaine De Montille. Hoje, reconhece que os momentos compartilhados com Hubert De Montille (impossível não lembrar do documentário Mondovino) foi um marco em sua carreira: “Tanto pela filosofia e pureza na produção do vinho como pela integridade humana”, diz.

No Encontro Mistral, ele mostrou o mais recente fruto de suas investigações, o vinho Oriundi, ao lado de Luc Desroches, diretor da Masi, vinícola do Vêneto, na Itália. Foram seis anos de testes até a ideia de fazer um vinho brasileiro no estilo do Amarone sair do papel. As castas Teroldego e Tannat passaram por um “apassimento” (secagem dos cachos em caixas abertas) de 45 dias antes da vinificação. É um vinho concentrado, em que a inspiração italiana se manifesta com os aromas de frutas negras (cereja amarga) e chocolate, taninos finos e potentes e uma leve untuosidade. (Por Marcel Miwa)

O enólogo de bermudas

Diogo Bragança Campilho, 34 anos, tem cara de gajo de praia. Mas é como respeitado enólogo que é conhecido no mundo dos vinhos. Descendente do 2.º duque de Palmela, que adquiriu a Quinta da Lagoalva de Cima em 1846, Diogo estudou enologia em Portugal e, por três anos seguidos, viajou à Austrália, para estágios em vinícolas do Hunter Valley. Lá, no Novo Mundo, percebeu condições climáticas que, segundo ele, se assemelham às da Lagoalva, situada às margens do Tejo, próxima à cidade de Santarém.

FOTO: Márcio Fernandes/Estadão

A produção de uvas vinícolas na quinta que herdou teve início em 1920, mas somente em 1990 começou produzir vinhos com marca própria. Hoje, são cultivadas 16 diferentes castas, autóctones e internacionais, em 50 hectares de vinhedos. A produção total é de 500 mil garrafas, 70% das quais de vinhos tintos. Outras atividades econômicas incluem o cultivo de cereais, de árvores como o sobreiro, cuja casca dá origem à cortiça, a produção de azeite e a criação do cavalo lusitano iniciada pelo 2.º duque de Palmela. A produção de máquinas e componentes agrícolas também faz parte dos negócios familiares.

Mais recentemente, o enoturismo está ganhando força e quem responde pela atividade é a mulher de Diogo, Sofia. O programa pela propriedade engloba de provas de vinhos, passeios de charrete e equitação – refeições podem ser agendadas com antecedência.

O casal e os três filhos moram na própria quinta, cuja casa principal é propriedade da avó de Diogo, ainda a principal acionista da empresa familiar. A direção está nas mãos de seu pai e dois tios.

Mas quem faz vinhos (de bermudas, tomando cerveja e ouvindo música) é Diogo. Ele diz que a Lagoalva foi a primeira a cultivar Syrah na região, mas sua casta preferida é a Alfrocheiro. Vale provar o Grande Escolha Alfrocheiro 2009 (os “Grande Escolha” só são engarrafados em safras classificadas acima da média).

É um vinho que ainda não alcançou o apogeu, como revelam os aromas bastante frutados. Mas a ótima acidez, muita fruta madura e taninos macios em boca mostram que já está ótimo para ser bebido.  (Por Guilherme Velloso)

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 8/5/2014

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