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Suzana Barelli

Será que o vinho sem álcool vira moda?

Preocupações com a saúde e bem-estar durante a pandemia parecem impulsionar a venda de rótulos desse segmento

11 de maio de 2021 | 03:00 por Suzana Barelli, O Estado de S.Paulo

Leandro Simões trabalha com bebidas sem álcool há 20 anos, com a sua loja Empório Sem álcool, hoje um e-commerce em São Paulo. Mas foi apenas com a quarentena que ele percebeu um interesse crescente pelo vinho sem álcool. “Não sei se as pessoas beberam demais na pandemia e estão tentando compensar, mas o fato é que tem aumentado a procura pelo vinho sem álcool”, afirma Simões.

As empresas que analisam as tendências de consumo, como a inglesa IWRS, por sua vez, não têm dúvidas de que o vinho sem álcool, e também aqueles com pouca dosagem alcoólica, são uma tendência, acelerada com a chegada da covid-19. “Junto com o aumento do foco nas preocupações ambientais, a pandemia ampliou a tendência para a saúde e o bem-estar” destaca boletim da IWRS.

Interesse pelos vinhos sem álcool cresce no Brasil.

Interesse pelos vinhos sem álcool cresce no Brasil. Foto: John Kolesidis/Reuters

A também inglesa Wine Intelligence aponta uma preocupação com o estilo de vida, que pode ser traduzida em saúde, controle e sabor, para explicar o interesse pela categoria. Por saúde, entenda-se bebidas com menos calorias, ingredientes mais "naturais" e menos dores de cabeça no dia seguinte. O controle é dos consumidores estarem no comando da situação, seja em almoços de negócios ou simplesmente para não serem envergonhados nas redes sociais.

O sabor é autoexplicativo. Até recentemente, era a cerveja que impulsionava esse segmento e tentava vencer o preconceito em  relação às bebidas que passam pelo processo físico ou químico de retirada do álcool e, não raro, também perdem seus aromas e sabores. O sucesso da Heineken 0.0 é visto como um divisor de águas, desde a cervejaria ter colocado seu nome no produto até a sua semelhança gustativa com a bebida com álcool.

No vinho, uma das explicações para o aumento da procura está no ganho – crescente, mas ainda incipiente – de qualidade da bebida desalcoolizada. “Investimos em uma máquina exclusiva e caríssima para a retirada apenas do álcool nos nossos vinhos”, conta Carlos Martignago, responsável pela marca Torres no Brasil. Há alguns processos para a desalcoolização do vinho, como congelamento, osmose reversa, membranas e filtrações. Os mais eficientes, em geral com osmose reversa, são ainda muito caros.

Outra questão do vinho sem álcool é a sua curta validade, em geral um ano, o que contrasta com a ideia, nem sempre verdadeira, de que um vinho ganha complexidade com o tempo em garrafa.

Fabiano Ruiz, diretor-executivo da Henkell Freixenet no Brasil, percebe esse interesse na chegada de cada novo container do Freixenet 0%. “Lançamos a bebida em agosto de 2020 e já vendemos 22 mil garrafas no Brasil”, conta ele. Mais: em breve, o cava sem álcool terá a companhia de um espumante rosé, elaborado com pinot noir e moscatel e com uma garrafa mais sofisticada.

Também animada pelo interesse pela categoria, a espanhola Torres está reformulando a apresentação de seus vinhos sem álcool, da linha Natureo. “Preparamos um reposicionamento para a linha em 2021, pelo seu sucesso de venda”, afirma Martignago. A Torres tem o vinho zero álcool tanto na Espanha como no Chile, com a linha Santa Digna.

A gaúcha Vinícola Aurora também aposta nesse segmento, mas em um mercado paralelo. No viés do consumidor que quer socializar sem álcool, a vinícola lançou um suco de uva branca gaseificada e vendido em uma garrafa de espumante. “As vendas do nosso Aurora Zero Álcool cresceram 144% no ano passado. Das grávidas e pessoas que estão tomando remédio, ao consumidor que não gosta de bebida alcoólica, há um universo para explorar”, afirma Rodrigo Valério, gerente de marketing da Aurora.

Lançado em 2019, o suco em embalagem de espumante chamou a atenção da empresa nas festas de final de ano. Na ocasião, o último Réveillon sem covid, Valério foi surpreendido pela quantidade de posts com a garrafa em destaque. “Agora, mesmo sem as comemorações, há um crescimento importante”, destaca ele. Sem dúvida, uma bebida para prestar atenção. 

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