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Suzana Barelli

Solidariedade no vinho

As chuvas que atingiram a Europa Ocidental deixaram sua marca também nos vinhos - mas a tragédia foi acompanhada de um movimento de solidariedade

27 de julho de 2021 | 03:00 por Suzana Barelli, O Estado de S.Paulo

As chuvas fortes que atingiram a Europa Ocidental dez dias atrás deixaram sua marca também nos vinhos. Várias vinícolas ficaram submersas, barricas, prensas, tratores e demais maquinário foram levados pela enxurrada – uma foto das barricas da vinícola alemã Meyer-Näkel há mais de 3 quilômetros da sede é uma das marcas da tragédia. Nos vinhedos, ainda há muita dúvida se todas as vinhas vão conseguir se recuperar e dar frutos na próxima safra, que começa a partir de meados de agosto, começo de setembro.

Testes estão sendo realizados para saber se a água da chuva contaminou os vinhos que amadureciam nos barris. Ahr e Mosel, na Alemanha, foram as regiões mais afetadas.

As chuvas fortes que atingiram a Europa Ocidental deixaram sua marca também nos vinhos

As chuvas fortes que atingiram a Europa Ocidental deixaram sua marca também nos vinhos Foto: Andreas Kranz/Reuters

A tragédia foi acompanhada de um movimento de solidariedade. Além dos próprios produtores que, depois de limparem suas vinícolas, se deslocam para as propriedades vizinhas para ajudar, há diversas campanhas de doação e ajuda. Michael Schuette, dono da importadora brasileira Vindame, com um portfolio com vinhos alemães, conta que vinícolas estão vendendo pacotes especiais de suas produções e doando o valor recebido à VDP (sigla para a mais alta classificação dos vinhos alemães), que distribui o valor arrecadado para as vinícolas. 

A vinícola dr Bürklin-Wolf, por exemplo, ajuda com 30 lotes do grand cru Gaisböhl GC, das safras de 2016, 2017 e 2018. Junto com mais três vinhos da vinícola Rings, cada lote de seis vinhos é vendido por 350 euros, na Alemanha.

O site da inglesa Jancis Robinson, uma das mais importantes críticas de vinho da atualidade, dá o caminho das pedras de como doar para ajudar os alemães. As informações são compartilhadas por Michael Schmidt, colunista de www.jancisrobinson.com, que atualmente vive no vale de Ahr.

Não são apenas as chuvas torrenciais que estão pregando peças desagradáveis nos produtores. Nesta semana, há notícias de incêndios próximos a vinhedos no Canadá. Por enquanto, não há danos nas vinhas e espera-se que continue assim. Mesmo que o fogo não chegue ao vinhedo, no entanto, sua fumaça tem o poder de acabar com uma safra. Ao encobrir os vinhedos, a fumaça é “absorvida” pela uva e dá origem a vinhos com notas aromáticas chamadas de “smoke taint”. São aromas que lembram cinza, borracha queimada, trazerem amargor à bebida e são bastante desagradáveis.

O risco da destruição das vinhas também é real. No ano passado, a Califórnia, principal região produtora dos Estados Unidos, teve vinhedos devastados pelo fogo, nos incêndios que atingem a costa oeste do país no final do verão, início do outono. A trilha Silverado foi destruída pelo fogo, assim como este ano os belos vales alemães, um dos cartões postais do enoturismo, foram levados pela chuva.

São sinais que mostram que nem tudo da chamada mudança climática é favorável aos vinhedos. Sim, para o vinho há mudanças positivas, como o exemplo de as vinhas conseguirem dar bons frutos na Inglaterra – atualmente, há espumantes ingleses que competem em qualidade com os bons champanhes franceses, graças a um clima mais quente, ou menos frio, no sul da Inglaterra. As recentes boas safras na região sul do Brasil também têm a contribuição da ausência de chuva no verão gaúcho, o que não acontecia até recentemente.

Mas as geadas, as inundações e os incêndios são a face triste dos “acidentes” naturais. Ainda bem que temos, também, a solidariedade.

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