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Sommelier brasileiro se prepara para campeonato mundial

Para enfrentar 61 candidatos de todo o mundo no próximo sábado (16), Diego Arrebola degusta chás, vinhos, destilados e qualquer outro líquido que seja servido num restaurante e não seja sopa

13 abril 2016 | 20:29 por Isabelle Moreira Lima

Na última semana, Diego Arrebola foi a Caxias do Sul (RS) para um treinamento intensivo em enologia com o enólogo da Piagentini, Alejandro Cardozo. Três dias depois, já em São Paulo, passou por um curso intensivo sobre o mundo do chá - conheceu diferentes estilos e origens, suas histórias e seus aromas e sabores. O treinamento ocorreu depois de uma megadegustação de vinho, onde ele provou 30 rótulos do sul da Itália. No dia seguinte, seria a vez dos destilados. Marcou com um amigo de ir a um dos bares mais completos de São Paulo para, mais uma vez, provar tudo o que estivesse disponível. 

 

  Foto: Nilton Fukuda|Estadão

A rotina de aluno aplicado em véspera de vestibular se repetiu por quase um mês, desde que subiu ao pódio do Concurso Brasileiro de Sommeliers e se viu automaticamente inscrito como o representante brasileiro no concurso mundial, que começa no sábado (16) em Mendoza, na Argentina. A prova inclui tudo o que é líquido e é servido em um restaurante - menos sopa, ele lembra.

Arrebola sabia exatamente onde estava se metendo, afinal, não é novato. Aos 34 anos, participou de três concursos brasileiros e este é seu segundo mundial. Ganhou o título no campeonato nacional de 2012, que o levou a Tóquio para disputar o mundial de 2013. Apesar dos sacrifícios daquela época - chegou a inverter seu fuso horário por uma semana antes de viajar para que não sofresse durante as provas -, ficou em 22º lugar.

Neste ano, seu “objetivo razoável” é ficar entre os 20 primeiros. Mais ousado seria se classificar para a semifinal. “Ser campeão não é sonho. É delírio de grandeza. Os caras que estão lá fora têm mais acesso a tudo”, afirma sobre a concorrência europeia.

No caso de Arrebola, há uma dificuldade adicional - o fato de não estar fixo em um restaurante ou importadora, e trabalhar como sommelier consultor, o que dificulta o acesso aos vinhos. “Tem importadoras que apoiam e entendem, com algumas tenho amizade. Mas há outras que só se importam com os números.” No último mês, foi comum vê-lo tornar-se habitué de todos os eventos de vinho com possibilidade de degustação massiva em São Paulo, do lançamento do guia sul-americano Descorchados ao road show de vinhos italianos promovido pelo guia Gambero Rosso.

 

  Foto: Sergio Castro|Estadão

Sua maior sorte é que pode contar com os amigos e, assim, como diria o filósofo Zygmunt Bauman, passou a viver em tempos líquidos. Para se preparar para o brasileiro, por exemplo, fez provas de degustação com concorrentes como Marcelo Batista, da Trattoria Fasano, e Gabriela Monteleone. Conseguiu até garrafas defeituosas para saber identificar problemas. Entre os “técnicos” que ajudaram na preparação estão os sommeliers Manoel Beato, José Santanita e Gianni Tartari, além de Bernardo Silveira, diretor técnico da Zahil, e o especialista em saquês Alexandra Iida, entre outros. 

“Minha vida virou uma enorme caixa de flashcards”, diz em referência aos fichários utilizados com informações sobre países produtores, vinícolas e estilos de vinhos. E, claro, treinou muito na frente do espelho. “O problema é a falta de alguém para jogar umas cascas de banana, fazer umas pegadinhas.”

O resultado de tanta dedicação é visto a olhos nus. Arrebola porta uma segurança que, se não for real, é bem treinada. Ficou claro, para quem assistiu à prova prática do campeonato brasileiro, que Arrebola tinha vantagens em relação aos concorrentes pela tranquilidade com que passou pela prova, incluindo o serviço de vinho em uma confraria fictícia afeita a questionar todo tipo de assunto, desde ingredientes presentes nos pratos até cepas pouco conhecidas como a italiana Pecorino - não seria um queijo?

Seu calcanhar de aquiles foi a identificação de bebidas: errou todos os destilados servidos na taça preta. Talvez por isso seja comum ver fotos em seu Instagram com diferentes bebidas e “parceiros” de degustação. “A preparação é contínua”, ele afirma.

Tanta dedicação faz com ele se adapte a uma nova rotina doméstica. Com mulher e quatro filhos, Arrebola acaba conseguindo estudar melhor à noite, quando a casa dorme. O hábito lhe dá pouco tempo de sono e olheiras crescentes. Por sorte, a maratona está perto do fim: o mundial termina no dia 19, próxima terça-feira. 

 

  Foto: Sergio Castro|Estadão

Antes do vinho. Se o mundo não desse tantas voltas, o vencedor do Campeonato Brasileiro de Sommelier, veja bem, poderia estar agora cumprindo horário bancário e seguindo uma carreira administrativa em uma instituição financeira. 

Concursado do Banco do Brasil, Diego Arrebola trabalhava em uma agência aos 21 anos. Mas no fim do mês, com os gastos que um filho pequeno pode gerar, as contas não fechavam. Buscou outro emprego na mesma área e nada. Até que um amigo informou que o restaurante onde trabalhava em um shopping em São José dos Campos precisava de cumim. Apertado, Arrebola não pensou duas vezes e topou. 

Acontece que o horário de intervalo de apenas quatro horas entre almoço e jantar e a perspectiva de pegar estrada quatro vezes ao dia fez com que o sommelier arrumasse algo para fazer e matar tempo próximo ao trabalho. Seu programa favorito era ir à livraria do shopping e ler. “Como estava começando a trabalhar nessa área, passei a ler sobre gastronomia e vinhos”, conta. Ao mesmo tempo em que se encantava pelo mundo do vinho, um restaurante prestes a abrir procurava alguém para cuidar da adega. Era o homem certo na hora certa.

Pouco tempo depois, mudou-se para Campinas, onde mora até hoje e onde fez parte da primeira turma da ABS (Associação Brasileira de Sommelier). Foi sommelier do Olivetto e do Pobre Juan, onde ainda atua como consultor.

O engraçado é que na época em que trabalhava em banco Arrebola mal bebia vinho. Era espumante no Natal e olhe lá. Às vezes, algum membro da família comprava um vinho “simplão” e estocava em uma prateleira. Além de focado e seguro, Arrebola guarda certa sentimentalidade: preserva com carinho três ou quatro garrafas de brasileiros dos anos 1990 que herdou do pai. 

O CONCURSO

Neste ano, 61 candidatos disputarão o título de melhor sommerlier do mundo, concedido pela Association de la Sommellerie International. Entre eles, há quatro mulheres (de Argentina, Canadá, Finlândia e Irlanda) e seis franceses (baseados em França, Bélgica, Irlanda, Luxemburgo, Mônaco e Reino Unido). A França levou o título oito vezes. A Itália vem em segundo lugar, com três vencedores. Japão, Alemanha, Suécia e Reino Unido têm um título cada país. 

Fundada em 1969 em Reims, na França, a associação com sede em Paris realiza o concurso a cada três anos - esta é a 15ª edição. A competição começa com uma avaliação teórica escrita, seguida de degustação às cegas, identificação de bebidas e prova de serviço. Os 12 candidatos que conseguirem as melhores pontuações serão anunciados em um jantar de gala no mesmo dia e passam para a semifinal, que tem avaliação semelhante, mas com nível de dificuldade mais alto e testes orais.

Na final, os três candidatos só ficam sabendo que estão classificados pouco antes da disputa. A prova acontece em um palco e, obrigatoriamente, em idioma estrangeiro - inglês, francês ou espanhol. A final deste ano, no dia 19, será transmitida ao vivo pelo site da associação.

Diego Arrebola indica rótulos de bom custo-benefício

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