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Tannat bem domado

A fama tânica e áspera que a uva carregou quando viajou da França para o Uruguai ainda ronda os vinhos que, em prova às cegas, se revelam macios, ácidos e frutados

14 maio 2014 | 22:11 por redacaopaladar

Por Marcel Miwa

Assim como a Carmenère no Chile e a Malbec na Argentina, a Tannat ficou mais conhecida pelos vinhos produzidos no Uruguai do que em sua região de origem, o Madiran, no sudoeste francês, onde sofria com a fama de produzir vinhos duros e tânicos.

Não por acaso, nasceu no Madiran a técnica da micro-oxigenação desenvolvida pelo enólogo Patrick DuCournau e tão divulgada por Michel Rolland. Você não precisa entender detalhes desse método (que consiste na aplicação de pequenas borbulhas de oxigênio no mosto durante a fermentação nos tanques), mas saber que ele tem o objetivo de amaciar os taninos dá ideia do caráter da uva local.

A Tannat chegou ao Uruguai no século 19 e desde então segue como casta emblemática do país. No Brasil, ela chegou pela Campanha, nos anos 1970. Por muito tempo, nos dois países a casta foi símbolo de aspereza e rusticidade na garrafa. Mas, com o tempo, nos dois países a casta começou a dar origem a versões mais amenas da bebida.

Ficou com água na boca?

A equipe de vinhos do Paladar (eu, a sommelière Daniela Bravin e o jornalista Guilherme Velloso) se reuniu para provar, avaliar e comparar Tannats produzidos no Uruguai e no Brasil.

Os resultados da prova são animadores. Tanto no Uruguai, onde a associação com a parrillada contribuiu para a popularidade da uva pelo mundo, assim como seu alto índice de polifenóis (os antioxidantes), como no Brasil, onde vem ganhando espaço nos vinhedos da Região Sul, a partir da fronteira do país com o Uruguai, os vinhos elaborados com a uva Tannat surpreenderam.

No Vale dos Vinhedos, embora o clima úmido dificulte o amadurecimento consistente da casta, produtores como Don Laurindo se notabilizaram pelo bom resultado nos anos mais secos. E um dos destaques da prova foi o Miolo Almadén Tannat Vinhas Velhas 2012.

A imagem de vinhos duros, que precisam de longo envelhecimento na garrafa, ficou para trás, como você poderá ver nas notas da prova. Para Velloso, até faltou taninos em alguns vinhos, que também primaram pela boa acidez. A sommelière Daniela Bravin ressaltou que os vinhos estão fáceis de tomar e nada agressivos. Se não houve algum grande destaque, ninguém fez feio.

AVALIAÇÃO

Ótimo. O exemplo dentro do contexto do painel.

Bom. Muitas virtudes para a categoria.

Ok. Algumas virtudes dentro de sua categoria. Bom, mas sem entusiasmar.

Regular. Apenas correto e sem defeitos.

Ruim. Vinho com problemas. Não recomendável.

BOUZA TANNAT 2011 – Ok

Origem: Canelones, Uruguai

Preço: R$ 78,10  decanter.com.br)

Entre os vinhos que participaram da prova, este é o que tem a cara mais bordalesa. Aromas de baunilha, café e frutas negras frescas; taninos finos em média intensidade, boa acidez. Daniela Bravin lembrou que mal associaria um Tannat a este vinho, apesar de entregar boa qualidade.

DUNAMIS TANNAT 2012 – Ok

Origem: Campanha Gaúcha/RS, Brasil

Preço: R$ 49,30  dunamisvinhos.com.br)

A versão mais amigável da Tannat. Aromático, com fruta negra intensa e floral (violeta). Compacto na boca, tem poucos taninos, boa acidez e final curto. O nariz é interessante, mas na boca ficou devendo um pouco mais de intensidade e persistência.

MIOLO ALMADÉN TANNAT VINHAS VELHAS 2012 – Bom

Origem: Campanha Gaúcha/RS, Brasil

Preço: R$ 93,32  miolo.com.br)

Os aromas são de fruta negra madura (cereja e amora), alcaçuz, baunilha e grafite. Na boca, boa potência, com taninos intensos e finos, equilibrados pela boa acidez. Tem boa coerência entre nariz e boca, com final harmonioso. Se enquadra bem na descrição da Tannat.

BODEGAS CARRAU AMAT 2008 – Ok

Origem: Cerro Chapéu, Uruguai

Preço: R$ 169  zahil.com.br)

Aqui será necessária alguma paciência. O vinho ainda está fechado, com aroma de licor de cereja, ervas, couro e baunilha. A textura é levemente untuosa, com taninos potentes (ligeiramente secantes) e acidez elevada. Alguns anos de garrafa devem fazer bem a este vinho.

DON LAURINDO TANNAT 2010 – Ok

Origem: Vale dos Vinhedos/RS, Brasil

Preço: R$ 45,90  reidoswhiskys.com.br)

Eis uma expressão mais selvagem da casta. Há aromas de couro, suor, especiarias (curry) e frutas negras maduras, banana cozida e ervas. Os taninos são tipicamente intensos e finos, com acidez elevada e final curto.

PISANO RPF TANNAT 2010 – Bom

Origem: Canelones, Uruguai

Preço: R$ 68,59  mistral.com.br)

Não é dos mais aromáticos (a Tannat não é uma variedade rica em aromas), tem referências de frutas negras maduras, couro e ervas. Na boca ganha expressão, com taninos potentes e polidos, boa acidez e tostado discreto. É o mais gastronômico do painel e Velloso destacou que o vinho deve ganhar com o tempo na garrafa.

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 15/5/2014

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