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Bebida

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Torrar ou não torrar?

Se você for ao Rause Café e Vinho, em Curitiba, até as 14h30 e pedir um café, será servido por um homem de olhar sério, barba por fazer e um monte de pulseiras no braço. O líquido feito de grãos especiais certamente virá na medida, denso e equilibrado – um café de primeira. Mas depois desse horário, o premiado barista Otávio Linhares larga o balcão do café para agitar a cena artístico-literária curitibana: cuida de sua editora de livros, Encrenca, que já lançou três volumes (um de sua autoria, Pancrácio) e da revista de literatura Jandique, que chega ao quinto número, além trabalhar numa peça a ser lançada este ano. “Faço literatura como faço café”, diz com naturalidade Otávio, de 35 anos.

26 fevereiro 2014 | 20:02 por joseorenstein

FOTOS: Fernando Sciarra/Estadão

O barista, formado em história, filosofia e teatro, modula a voz com habilidade para contar a própria história. O café apareceu depois que ele foi demitido do emprego de professor de um colégio, por volta de 2003. “Ninguém tinha experiência nem sabia o que era barista ou torra. Eu vinha de um período meio junkie. Aí mergulhei no café.”

Otávio empolga-se ao contar a paixão pela bebida e o princípio que guia seu trabalho: “Fazer a população do maior produtor de café do mundo, mas analfabeta sobre a bebida, entender e valorizar o que vai na xícara”.

Ele estudou firme sobre a bebida, praticou o que aprendeu no Lucca, em Curitiba – um dos primeiros cafés a ter variedades especiais do País– e chegou a campeão brasileiro de baristas em 2005. Foi viajar e participou do campeonato mundial, quando conheceu a turma dinamarquesa do Coffee Collective, a vanguarda do café no mundo. Trabalhou por lá, voltou. “Ali vi o lado humano do café, não só o técnico”, diz Otávio, com a eloquência teatral característica de sua fala.

O teatro o levou a participar, em 2009, da primeira turma da escola do dramaturgo Roberto Alvim, um dos expoentes do teatro contemporâneo brasileiro, em Curitiba, ao lado do parceiro de editora e escritor Luiz Felipe Leprevost. Foram tempos intensos, lembra.

Intensos como tudo parece ser para Otávio, que diz não ter nenhuma vontade de deixar Curitiba. “Tem um coisa neurótica e velada aqui que fomenta uma inventividade poética – que deu, por exemplo, um Leminski”, diz o barista-escritor-editor-dramaturgo. “Minha paixão é por quem inventa. E tem muita coisa para inventar – no café, na literatura, no teatro.”

SERVIÇO – Rause Café e Vinho

Al. Dr. Carlos de Carvalho, 696, Centro, Curitiba

Tel.: (41) 3024-0696

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 27/2/2014

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