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Tradição é a aposta do vinicultor Ernest Loosen

O produtor alemão Ernst Loosen fala de sua especialidade, a Riesling, exibe, sem constrangimento, suas opiniões politicamente incorretas e diz que agora investe em fazer vinhos como nos tempos de seu avô

03 junho 2015 | 18:51 por redacaopaladar

Por Guilherme Velloso

Ernest Loosen tem duas propriedades na Alemanha. A Weingut Dr. Loosen, no coração do Mosel, que pertence a sua família há mais de 200 anos, e a Villa Wolf, no Pfalz. A distância entre as duas é de 155 quilômetros, aproximadamente duas horas de carro. “Mas levo uma hora e meia”, diz, antes de informar que seu carro é um Porsche e de contar, às gargalhadas, que seu importador no Japão tem pavor de fazer esse percurso com ele. A história foi uma das muitas que contou em sua terceira visita a São Paulo, ao longo de um almoço de quase três horas com degustação no qual, além do bom humor, mostrou que não tem nenhuma preocupação com o politicamente correto.

Loosen, cuja aparência lembra a de um arqueólogo, que ele quase foi, é um dos produtores mais famosos do Mosel e seus vinhos estão presentes em 90 países, inclusive o Brasil. Foi apontado “Homem do Ano” pela Decanter, e um dos 50 enólogos mais influentes do mundo pela revista Wine & Spirits, além de ser considerado o “Embaixador” da Riesling.

FOTOS: Divulgação

Mas nem sempre foi assim. Quando assumiu a vinícola da família, em 1987, não faltaram prognósticos de que iria a falência. O pessimismo era justificado. O prestígio da Riesling nunca fora tão baixo, por conta da invasão, que também alcançou o Brasil, de exemplares açucarados e sem personalidade, exportados em larga escala e a preços irrisórios. Marcas como Lieberfraumilch, Scwarzekatz e tantas outras. Além disso, a valorização do marco alemão em relação ao dólar praticamente fechara as portas do mercado que, até então, absorvia toda a produção do Weingut. Para completar, o currículo de Ernst não ajudava muito. Ele estudara Enologia na melhor escola alemã, em Geisenheim, mas apenas para cumprir a vontade do pai. Assim que se formou, foi cursar Arqueologia na universidade de Mainz.

A grande virada em sua vida e na história da vinícola aconteceu quando o pai ficou gravemente doente e a mãe confrontou os filhos com uma decisão irrevogável: ou alguém assumia o negócio ou ela venderia a vinícola. Até então, nem o pai, político, nem o avô, que era empresário e político, tinham dedicado muita atenção à vinícola, que cumpria mais a função social de reunir a família, católica, por ocasião da Páscoa e do Natal. Ernst herdou uma empresa com receita de 250 mil dólares e dívidas que somavam o dobro, com vinhedos muito antigos, plantados em porta-enxertos originais, já que os solos de ardósia azul do Mosel impedem o ataque da filoxera.

Recorrendo a um velho mapa vinícola da antiga Prússia, constatou que, em 1868, seis desses vinhedos tinham sido classificados, para fins de pagamento de impostos, como Erste Lage, o equivalente alemão a um grand cru francês. Decidiu engarrafá-los separadamente. E também impôs uma seleção rigorosa das uvas. A produção, em alguns casos, é ínfima (o Weingut Dr. Loosen produz 200 mil garrafas por ano). O mais famoso desses vinhedos, Erdener Pralät, tem uma área total de quatro hectares e 19 proprietários. Ernst, o maior, é dono de aproximadamente 1,5 hectare, pouco mais do que um campo de futebol.

O arrendamento da Villa Wolf contribuiu para a diversificação da linha, acrescentando vinhos de Pinot Noir, Pinot Blanc e Pinot Gris, já que produz apenas Riesling no Mosel. Em 1995, criou a marca “Dr. L”, que virou o maior sucesso do Weingut Loosen.

Ele acabou contratado como consultor da vinícola Ste. Michelle, no estado de Washington, com o desafio de fazer um Riesling comparável aos alemães. Fez o Eroica, o melhor e mais caro Riesling norte-americano. E um pequeno lote de Trockenberenauslese (TBA), com uvas botritizadas, em safras especiais, que em 2000 obteve uma das mais altas pontuações já concedidas pela Wine Spectator a um vinho norte-americano. Em 2009, Loosen construiu uma vinícola no Oregon, em parceria com um “garagista” local, Jay Sommers, da J. Christopher Wines.

Atualmente, a maior aposta de Ernst é reviver a tradição dos Riesling secos e com longo período de envelhecimento em grandes barris (foudres) como os que eram produzidos nos tempos de seu avô. Segundo ele, esse tipo de vinho é tão parte da história do Mosel como os afamados vinhos doces da região, mas sua produção foi praticamente abandonada após a Segunda Guerra Mundial. Desde 2008, o Weingut vem produzindo Rieslings secos, originários de seus melhores vinhedos, com estágios de 12 a 36 meses em grandes barris usados de carvalho. Antes de produzi-los em escala, Ernst tinha feito uma experiência, com autorização do pai, e conservado em barril, por quase 28 anos, um Wehlener Sonnenhur safra 1981. Segundo ele, esses vinhos tornam-se mais frescos e jovens a medida que envelhecem. “São meus vinhos Benjamin Button”, diz ele.

ENTREVISTA

A Riesling sempre será um produto de nicho

O vinho alemão ainda enfrenta preconceitos por conta da invasão de vinhos de garrafa azul que eram vendidos no Brasil no final dos anos 1980?

Não conheço a situação no Brasil, mas fico feliz que os tempos dos Liebfraumilch, Black Cat, Madonna e todos os nomes pelos quais essas porcarias eram chamadas tenham terminado, pelo menos nos EUA e Inglaterra. Mas demorou 25 anos para consolidar a imagem dos vinhos finos alemães que (naquela época) não tinham a menor chance. Vejo um fenômeno semelhante atualmente com o Yellow Tail australiano. O Yellow Tail está se tornando um benchmark dos vinhos australianos como o Liebfraumilch foi dos vinhos alemães.

Porque a Riesling não é tão popular como a Chardonnay ou a Sauvignon Blanc?

Ela não pode ser tão popular porque a produção é pequena. A área total de Riesling é de 100 mil hectares. A de Chardonnay é pelo menos dez vezes maior. A Riesling sempre será um produto de nicho. É como a Chenin Blanc. Adoro os Chenin Blanc do Loire. São vinhos fantásticos. Mas serão sempre um produto de nicho.

É mais fácil vender Riesling doces ou secos?

Depende do mercado. Nos Estados Unidos, praticamente só vendemos os doces. No Brasil, os secos. O Dr. L seco vende mais no Brasil; o meio-seco, na Escandinávia; e o doce, nos Estados Unidos.

POLITICAMENTE INCORRETO, POR GOSTO

Sobre vinhos laranja

“É entregar os vinhos a Deus. São oxidados e têm um gosto horrível, mas Deus os fez assim. Até os romanos odiavam esses vinhos, tanto que usavam mel e especiarias para melhorar seu gosto. E agora os naturalistas vem dizer que essa é a melhor maneira de fazer vinhos.”

Sobre a biodinâmica e o trabalho de Rudolf Steiner

“Ele não inventou nada de novo. Só pegou algo que já existia, a agricultura orgânica, e acrescentou sua religião a isso. Você acredita ou não, como a homeopatia.”

Sobre Nicolas Joly, o “papa” da biodinâmica

“Está ganhando mais dinheiro em palestras, US$ 15 ou 20 mil em cada. Ele podia investir esse dinheiro para fazer vinhos melhores.”

Sobre a mineralidade nos vinhos Riesling

“Não tenho a menor ideia do que significa. Parece que mineralidade está sempre relacionada à acidez no vinho. Mas mineralidade está fora de moda. O ‘quente’ agora é o salgado. Ele é a nova mineralidade. Ninguém sabe o que é, mas soa importante.”

Sobre fazer fermentação malolática nos Riesling

“Odiamos a malolática. Ela deixa cheiro de chucrute e não quero chucrute nos meus vinhos.”

Sobre o irmão Tomas, que trabalha com ele na vinícola

“É um típico engenheiro alemão, faz todas as contas com três casas decimais.”

NOTAS DE UMA PROVA EXCLUSIVA

VILLA WOLF PINOT NOIR 2012

Origem: Pfalz

Preço: R$ 69

Boa acidez, boa fruta e taninos macios num vinho elegante, que lembra mais os exemplares da Borgonha do que os do Novo Mundo. Pode encarar pratos não muito pesados de carne e peixes como o salmão.

VILLA WOLF PINOT NOIR ROSÉ 2013

Origem: Pfalz

Preço: R$ 69

Agrada pelo bom equilíbrio entre acidez e açúcar (menos de 9 gramas). Gastronômico, é um bom curinga à mesa: combina com saladas, vai bem com peixes e frutos do mar, pode acompanhar um frango assado.

VILLA WOLF PINOT GRIS 2013

Origem: Pfalz

Preço: R$ 69

Exemplar muito acima da média para os vinhos dessa uva encontrados no mercado brasileiro, que em geral são italianos. Suculento, com boa acidez, muita fruta e revela leve untuosidade.

DR. L RIESLING DRY 2014

Origem: Mosel

Preço: R$ 69

Possivelmente o Riesling de melhor relação preço/qualidade à venda no Brasil. Está na categoria dos Rieslings secos. Para beber sozinho ou acompanhado de tapas e petiscos típicos de buteco.

DR. LOOSEN BLUE SLATE RIESLING KABINETT

Origem: Mosel

Preço: R$ 126

Um patamar acima do Dr. L, com o perfeito equilíbrio entre acidez e açúcar característico dos vinhos do Mosel. Bom parceiro para frutos do mar grelhados ou para bebericar sozinho.

ERDENER TREPPCHEN RIESLING SPÄTLESE 2011

Origem: Mosel

Preço: R$ 198

Um dos Grand Crus do Weingut em versão mais doce. Vem dos raros solos de ardósia vermelha. Mineral (desculpe, Dr. Loosen!), com nota de mel e cogumelos. Na boca, é untuoso e delicioso. Antes de prová-lo acompanhando uma tortas de frutas, beba “a capella”.

ÜRZIGER WÜRZGARTEN RIESLING AUSLESE 2013

Origem: Mosel

Preço: R$ 159 (garrafa de 375 ml)

Por ser mais novo e pelas diferenças entre as safras, a acidez quase cortante ainda é a nota predominante, em que pesem os 110 gramas de açúcar residual. Para comprar e guardar por alguns ou até muitos anos.

Onde comprar

Os vinhos do Weingut Dr. Loosen e os Villa Wolf são importados pela Inovini (tel.: 11 3623-2280)

>>Veja a íntegra da edição do Paladar de 4/6/2015

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