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Isabelle Moreira Lima

Tratado Mercosul-UE deve mudar geopolítica da adega

A lógica por trás da prateleira de vinhos do seu supermercado, tal como é hoje, está com os dias contados

03 de julho de 2019 | 19:59 por Isabelle Moreira Lima, O Estado de S.Paulo

A geopolítica por trás da prateleira de vinhos do seu supermercado, tal como é hoje, está com os dias contados. Desde a última semana, o mercado de vinhos no Brasil começou a se dividir entre a depressão e a euforia com o tratado Mercosul-União Europeia. A expectativa é que o Mercosul irá zerar as tarifas de importação para vinhos europeus em até 12 anos.

O preço dos vinhos europeus deve cair e a concorrência vai ficar mais acirrada

O preço dos vinhos europeus deve cair e a concorrência vai ficar mais acirrada Foto: Sara Krulwich/The New York Times

O que isso quer dizer é que o preço dos europeus deve cair e a concorrência ficar mais acirrada. A ideia de que, por aqui, se bebe melhor vinhos da América do Sul – afinal um chileno custa menos que um francês da mesma qualidade – será subvertida. Com os incentivos tributários, o frete deve ser um valor mais decisivo no preço a ser cobrado ao consumidor final. Para se ter uma ideia, enquanto o transporte em um caminhão do Chile para Santa Catarina custa cerca de US$ 3,5 mil (cerca de R$ 13,4 mil), um contêiner da Itália sai a 400 euros em média (R$ 1,7 mil). 

Mas quem se assusta mesmo são os produtores brasileiros, que conseguiram a promessa de que terão contrapartidas e incentivos, mas que ainda não sabem quais. Oscar Ló, presidente do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), diz que espera conseguir a redução de tributos como o IPI e linhas de financiamento específicas para a cadeira produtiva. “Se essa medida atingir a produção de uva, por exemplo, teremos um grave problema social. No Sul, há comunidades inteiras que dependem dela”, afirma. Segundo ele, há uma comissão em contato direto com a Casa Civil para cobrar a contrapartida. 

A maior parte dos importadores é cautelosa, tanto entre os grandes, quanto os pequenos. Ciro Lilla, da Mistral e da Vinci, diz que no Brasil o período de um ano já é considerado um longo prazo. Doze anos então seriam uma eternidade. “Isso realmente não está no hall das minhas preocupações imediatas, se é que (o tratado) vai ser implantado. Acho que a reforma tributária pode ter um impacto muito maior no mercado”, afirma.

A dúvida, diz Edson Hermann, da Decanter, é como e quando a redução dos preços vai acontecer. “Vale lembrar que quando o Chile entrou no Mercosul levou dez anos até que as alíquotas chegassem a zero”, afirma. Dessa forma, o que está no estoque deve ser vendido no preço praticado antes do tratado, diz Philippe de Nicolay Rothschild”, CEO da PNR Import, focada em vinhos franceses.

Para Ulisses Kameyama, da Belle Cave, especializada em vinhos de pequeno produtor, os preços devem sim cair, mas a magnitude da queda depende de quanto o custo do vinho representa no preço total a ser cobrado por uma garrafa, afinal há outros custos que incidem sobre ela (logística, marketing, etc.). 

A expectativa de uns é que os vinhos mais caros mostrem uma queda maior no preço, mas isso vai depender da estratégia comercial de cada importadora. 

Há quem se preocupe também com outros custos adicionais considerados desnecessários como, por exemplo, a obrigação de se fazer análise do produto no país de origem e no Brasil. Uma dúvida que fica é se o acordo também simplifica o processo de importação para além do imposto em si. 

Mas isso não quer dizer que ninguém se animou com a notícia. Rico Azeredo, um dos idealizadores e diretor da ProVino, feira profissional de vinhos e destilados, diz que a medida é muito positiva, deve “educar” o consumidor e ampliar o mercado. Segundo ele, depois do anúncio da conclusão do tratado, a feira, que ocorre em outubro em São Paulo, foi procurada por produtores europeus que ainda não vendem seus rótulos no País. “Entendo a preocupação dos produtores brasileiros, mas até eles serão beneficiados. Quando pizza cresce, todas as fatias aumentam”, afirma.

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