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Uísque verde e amarelo: duas destilarias têm se destacado na produção nacional de single malts

Já foi comum tratar o uísque brasileiro com um certo desdém, mas nos últimos anos, o jogo (ou o copo) começou a virar com o lançamento de novas marcas: a Union e a Lama, conheça

27 de fevereiro de 2022 | 05:00 por Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

A Escócia não é aqui. Mas a ideia de um uísque brasileiro não é mais tratada como anedota ou um sinônimo óbvio para ressaca ou dor de cabeça. Enfim, o melhor amigo do homem também pode falar Português em paz (ainda que com algum sotaque). Mas vamos dar um gole de cada vez...

Garrafas de uísques produzidos no Brasil no bar Caledonia 

Garrafas de uísques produzidos no Brasil no bar Caledonia  Foto: Daniel Teixeira/Estadão

A memória afetiva de quem já está quase batendo na casa dos 50 anos costuma buscar referências em marcas como Drury's e Old Eightquando o assunto é uísque brasileiro. O primeiro é um blended uísque (com mistura de grãos e maltes) lançado em 1959. Já o Old Eight (também um blended) foi lançado em 1966 - e é reconhecido por ter sido pioneiro no País em usar maltes envelhecidos por 8 anos. 

Com a entrada de marcas importantes de países como a Escócia, Irlanda e Estados Unidos no mercado brasileiro e, principalmente, com um consumidor local mais "educado" em termos etílicos, tornou-se comum tratar o uísque brasileiro com um certo desdém. Na maioria dos casos, o "nariz torcido" era amplamente justificável, mas, também é verdade, que muitos detratores sequer se davam o trabalho de experimentar o produto. 

Mas, nos últimos anos, o jogo (ou o copo) começou a virar. Duas destilarias têm se destacado na produção de single malts (uísque de malte único): a Union e a Lamas.

 A Union Distillery nasceu como uma vinícola em 1948, em Veranópolis, na região da Serra Gaúcha.  "Com o chamado milagre brasileiro nos anos 70, passamos a investir em destilados", disse o diretor-executivo da marca, Luciano Sérgio Borsato, 54 anos. Nas décadas de 80 e 90, a Union como produtora de uísque a granel para produtos de baixo custo.

O conceito da marca mudaria em 2010, com a construção de uma segunda destilaria em Bento Gonçalves. A partir daí, a empresa iniciou um processo de criação de uma linha premium. Entre seus uísques, produtos mais tradicionais como um single malt envelhecido por 5 anos em barris de carvalho; ou lançamentos mais ousados como o Turfado Wine Cask Finish -  feito com turfas importadas da Escócia (material orgânico retirado do solo escocês, usado para a secagem do malte e responsável por percepção de 'defumação' no uísque) e finalizados em barris de vinho. 

O bartender Rodolfo Bob prepara drink com uísque produzido no Brasil no bar Caledonia 

O bartender Rodolfo Bob prepara drink com uísque produzido no Brasil no bar Caledonia  Foto: Daniel Teixeria/Estadão

Com uma produção de quase 3 milhões de litros por ano e um crescimento de 20% em suas vendas, a Union vende uísques a partir de R$ 180. Eles podem ser encontrados na própria destilaria, no site uniondistillery.com.br e em lojas especializadas como o Caledônia, em São Paulo.

Uísque mineiro 

Já a Lamas tem uma proposta muito mais experimental. A destilaria fica em Matosinhos, em Minas Gerais. Ela nasceu com uma produção de cachaça familiar, voltada apenas para presentear amigos. " Minha família sempre se uniu em torno de bebida. Para mim, a lembrança nunca é da família comendo, mas meus pais bebendo. Apesar da cachaça,  a verdadeira paixão do meu pai era o  uísque. Começamos no amadorismo. Para consumo próprio. Mas as pessoas começaram a gostar e pedir", contou Luciana Lamas, 31 anos, proprietária da destilaria.

A profissionalização começou em 2017.  Até agora são quase 20 premiações internacionais para os uísques produzidos pela Lamas. "Ainda tem muita gente que bebe a marca e não consegue perceber a qualidade do produto. O status acaba valendo mais. Para vencer essa desconfiança, investimos em concursos internacionais e na avaliação dos maiores especialistas do mundo. Esses selos de qualidade, valem mais do que qualquer ação de marketing e ajudam a quebrar preconceitos", disse Luciana. "Uísques japoneses, australianos e canadenses já foram foram considerados os melhores do mundo. Por não os brasileiros", completou.

A Lamas tem, por exemplo, o Nimbus. Ele é um uísque defumado, mas sem a utilização de turfa. A defumação é feita com madeira de reflorestamento (eucalipto). Por ano, a Lamas produz 30 mil litros. O preço dos uísques da marca começam por R$140. Os produtos podem ser comprados no site da empresa (lamasdestilaria.com.br) e lojas especializadas como é o casa do já citado Caledonia Whisky &Co. (R. Vupabussu, 309, Pinheiros) em São Paulo.  

Preconceito 

Maurício Porto, especialista em uísque, dono do bar Caledonia e do site O Cão Engarrafado é quem responde a pergunta de muitos consumidores que ainda não deram uma chance ao uísque nacional: É pra ser levado a sério?. " Sim, é pra ser levado a sério. E cada vez mais. Em menos de 10 anos, a gente tem coisas muito boas e complexas no mercado do uísque nacional. Nosso nível é alto. Não é comparável aos uísques escoceses, mas o Brasil começou a levar a sério há menos de 10 anos. Vamos chegar lá. É continuar tentando", disse.

"O uísque brasileiro vai ter um futuro como 'player' fora do Brasil? Não vejo como uma país que vai se tornar um grande produtor mundial de uísque, como Escócia, Irlanda e Estados Unidos. Eles têm uma indústria muito consolidada. No Brasil, é mais um negócio voltado para o entusiasta do uísque", completou.

Em menos de 10 anos, teremos coisas muito boas e complexas no mercado do uísque nacional

Em menos de 10 anos, teremos coisas muito boas e complexas no mercado do uísque nacional Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Para o consultor em destilados e bartender Rodolfo Bob, "estamos desbravando a produção de uísque no Brasil". "Ainda não é competitivo no mercado. Não é o do dia-a-dia. Para isso, precisava ter escala de produção para ter um preço competitivo. Mas o malte é caríssimo, o vidro é caro. Estamos no ponta pé inicial", falou Bob. "Mas o uísque brasileiro tem caminhos. Nosso caminho tem que ser a inovação", completou.

Lascas de carvalho

No bairro da Mooca, na zona leste de São Paulo, sócios da marca de cerveja artesanal Van der Ale, iniciaram experiência com destilados. Sob a marca Van der Geist Moonshine, eles estão produzindo três receitas de uísque: milho, centeio e abóbora.

"São três produtos que não passam por barril. Eles são curtidos, por exemplo, em lascas de carvalho. Quem experimentou tem elogiado muito", falou  Luis Augusto Russi Berti, 41 anos, um dos proprietários da marca. "A gente está comercializando na loja e no boca a boca. Ainda não tem um plano de marketing", completou. A Van der Ale fica na Rua Siqueira Bueno, 1798.

A Friends Distillery é de Curitiba e também destila com lascas de carvalho. "Existe o preconceito com o uísque brasileiro até o consumidor colocá-lo na boca. As pessoas estão aceitando e entendendo cada vez mais nosso produto", falou Mauro Mozzatto, 50 anos, dono da Friends.

Garrafa de uísque produzido pela destilaria e cervejaria Van der Ale localizado 

Garrafa de uísque produzido pela destilaria e cervejaria Van der Ale localizado  Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Moonshine

A história do moonshine remonta os tempos do Velho Oeste. Basicamente, tratava-se de um destilado americano de alta graduação alcoólica feito de forma clandestina. Ele ficou conhecido como uma espécie de uísque sem envelhecimento, de cor clara e feito a base de milho ou malte de cevada.  

No Brasil, algumas destilarias estão produzindo versões de moonshine (dentro dos parâmetros da lei, claro). É o caso da Geest Destilaria, que em parceria com a cervejaria Juan Caloto, acaba de lançar o El Miraculoso Calibrador de Mira de Widowmaker Joe. Elaborado com malte de cevada, centeio, milho e malte turfado escocês, possui uma graduação alcoólica de 45%.

Luis Augusto Russi Berti, da Van der Ale, destila uísque nos fundos do bar na Mooca 

Luis Augusto Russi Berti, da Van der Ale, destila uísque nos fundos do bar na Mooca  Foto: Damiel Teixeira/Estadão

Para o mestre destilador da Geest, Luís Marcelo Nascimento, o mooshine pode abrir caminhos para a produção de uísques. "Não tenho dúvida que a produção do mooshine pode servir como um primeiro passo para que a gente chegue em um uísque de qualidade. Vamos corrigir os erros e arredondar as receitas.  Aqui na destilaria, vamos pensar em uísques que passem por madeira brasileira. Esse será o caminho - claro, sempre atentos à procedência desta madeira", comentou. 

Felipe Gumiero, sócio proprietário da Juan Caloto e do bar Esconderijo, contou que o interesse do público pelo mooshine e a procura por drinques feito com o destilado já criaram ânimo para novas produções, à princípio com o envelhecimento do próprio mooshine. " A ideia inicial era um Bourbon. Mas a gente não teria tempo hábil para produzi-lo. A saída foi o mooshine, que tem tudo a ver com a proposta da marca. Nosso mooshine tem um quê defumado, que tem agradado aos apreciadores de uísques tradicionais também. Vamos lançar versões envelhecidas no futuro", comentou.  

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