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Heloisa Lupinacci

Um pódio arrancado aos goles

O Beer Sommelier World Championship aconteceu em Munique no fim de setembro

16 outubro 2013 | 22:10 por Heloisa Lupinacci

A delegação brasileira no campeonato mundial de sommeliers de cerveja da Academia Doemens (BSWC, o Beer Sommelier World Championship) tinha dez pessoas e uma missão: emplacar ao menos um participante na final.

O evento reuniu em Munique, na Alemanha, no fim de setembro, 54 competidores de dez países, eleitos para estarem ali por seus currículos.

Na edição anterior do evento – que se repete a cada dois anos, portanto, em 2011 –, a delegação tinha alguns dos pioneiros nacionais e nenhum finalista. Desta vez, os dez representantes do Brasil queriam chegar à final quase em homenagem a seus antecessores, entre os quais estavam Cilene Saorin, fundadora do curso que quase todos eles fizeram; Marcelo Moss, criador da Baden Baden; Alexandre Bazzo, fundador da Bamberg; e Herbert Schumacher, da Abadessa.

O time brasileiro não só cumpriu a tarefa de estar entre os seis finalistas, como chegou ao pódio. Tatiana Spogis, 36 anos, que trabalha com cervejas há 12, na importadora Bier&Wein, ficou em terceiro lugar.

A boa colocação da brasileira levantou a possibilidade de a próxima edição, em 2015, ser no Brasil, na semana da BrasilBrau. que será entre 23 e 25 de julho. A negociação está em curso e a decisão deve ser tomada nas próximas semanas.

No dia a dia. Tatiana trabalha  na importadora Bier&Wein e dá  aula no curso de sommelier do Senac. FOTO: Werther Santana/Estadão

Maratona. As provas começaram com um desafio às cegas. Em uma mesa, havia dez amostras de cerveja, todas iguaizinhas. Mas em cada uma delas foi despejada uma cápsula de simulação de sabor – de defeitos, características específicas, compostos químicos. “Para quem é da indústria, isso é cotidiano. Mas para quem não está dentro de uma cervejaria, essas cápsulas são inacessíveis, porque são caríssimas”, conta Tatiana. Ao lado das amostras, um gabarito com 20 opções de resposta. A ideia era descobrir qual era qual só na base da ‘cheiração’. “Tem defeito que contamina totalmente o paladar e aí você perde a sensibilidade para todos os outros. Eu fiz tudo no nariz.”

A segunda etapa era teórica. Uma prova com 50 perguntas de múltipla escolha, cada uma com cinco respostas possíveis, e mais de uma opção de resposta correta. Ou seja, a resposta certa é não só A, B, C, D ou E como qualquer combinação entre duas ou mais dessas letras. E cada erro anula uma resposta certa.

Então veio a terceira prova. De novo, dez amostras de cerveja repousavam sobre a mesa. Num gabarito, uma lista de 30 possibilidades, definindo as cervejas por estilo e marca. “O problema é que há estilos muito parecidos, e tem cervejaria que faz a cerveja de um estilo, mas chama de outro. E você tem de dizer o estilo de acordo com o que a cervejaria diz.” Nesse ponto, três sommeliers garantem vaga na final. Anunciados os nomes, nenhum brasileiro.

Então começou a repescagem. A primeira prova: uma amostra de cerveja e uma folha de papel na qual deveriam ser escritos o estilo da cerveja, uma descrição do estilo – como cor, espuma, olfativo e gustativo –, com que comida aquela cerveja harmoniza e por quê. Errou, dançou. Nessa, Tatiana titubeou. “Strong golden ale ou trippel, strong golden ale ou tripple, aquilo ficou martelando.” Daqui iam mais dois para a final. E, de novo, nenhum brasileiro. E foi por pouco: na classificação, Ronaldo Rossi, da Cervejoteca, ficou em terceiro lugar nessa prova. E Renê Aduan, da Alma Rústica, em quarto.

Os ânimos começavam a murchar. Veio então a derradeira repescagem: uma prova de harmonização, da qual o melhor colocado iria para a final.

Em uma folha de papel, uma lista de seis pratos, com quatro opções de harmonização. Primeiro item: sopa de manga com especiarias. “Sopa de manga! Pensei: ferrou, eu nunca comi sopa de manga!” Era preciso dizer com qual estilo aquele prato harmoniza melhor e defender a harmonização. Antes de anunciar o resultado, os jurados disseram: houve muitas respostas certas, mas só uma perfeita. E chamaram o nome de Tatiana. “Foi a maior gritaria.” Ela foi separada do grupo e levada a uma sala fechada, onde deveria se preparar. “Tive de botar roupa de gala!”, ri muito, vermelha, lembrando a timidez e a tensão.

A final. Vestida num longo cor de vinho, Tatiana foi levada ao palco por uma assistente enquanto tocava uma música alta. “Parecia começo de luta de boxe”, relembra. Ao chegar lá, deparou com uma mesa alta com três cervejas escondidas por cilindros de papel branco. Ela deveria descobrir as cervejas, escolher uma e falar sobre ela – ao menos nessa etapa ela poderia falar em português, com tradução simultânea.

Ela nunca havia provado nenhuma das três opções. Nenhum dos rótulos chega ao Brasil. Era uma Brewdog com mel e flor, uma Baladin, que não coloca informação nenhuma no rótulo, ou seja, que ela não tinha ideia do que poderia ser, e uma cerveja estilo colônia da Braufractum, uma pequena cervejaria de Frankfurt. “Quando eu escolhi falar da alemã, só vi o pessoal do Brasil fazendo sinal com a cabeça: ‘Essa não, essa não!”

Uma brasileira, na Alemanha, diante de sommeliers alemães, falando de uma cerveja alemã, de um estilo alemão feito por uma cervejaria alemã. Pois é. Tatiana pediu desculpa pela ousadia, serviu os jurados em solene silêncio para então desandar a falar, em tom informal e apaixonado. Deu certo. Ela termina de contar a epopeia com uma expressão que mistura incredulidade, orgulho e um toque de nem-ligo-para-isso.

A CERVEJA DA FINAL 

FOTO: Divulgação

O estilo Kölsch é bem peculiar. É ale, mas muitos confundem com lager. O que o define como ale é o tipo do fermento. Mas a temperatura da fermentação e a maturação em baixa temperatura geram confusão. “Deu para entender por que todo mundo sinalizou para eu não escolhê-la? É um estilinho complexo, apesar de toda sua delicadeza”, diz Tatiana.

Ficou com água na boca?