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Um vinho de 10 mil uvas inéditas

Isabelle Moreira Lima

19 agosto 2015 | 21:00 por redacaopaladar

A ideia é produzir um “grahm cru” no vinhedo Popelouchum, a 200 km de Napa, a partir das milhares de novas cepas geneticamente únicas.

Para bancar a loucura, criou uma campanha no site de financiamento coletivo Indiegogo para arrecadar US$ 150 mil. Quem contribuir ganha recompensas, como dar nome a uma casta.

Se a empreitada tiver sucesso, Grahm vai mais do que decuplicar o número de castas existentes. No Wine Grapes, guia de uvas viníferas de todo o mundo, a crítica inglesa Jancis Robinson catalogou pouco mais de 1,3 mil variedades. Para que criar mais 10 mil?

A resposta mistura sustentabilidade e imortalidade. Ao mesmo tempo que diz que pode criar uvas mais resistentes a doenças e às mudanças de clima, Grahm diz que essa pode ser sua chance de “fazer algo verdadeiramente importante” para a comunidade do vinho. “Seria bom deixar algo de valor depois que eu me for”, diz.

A dois dias do fim da campanha online, arrecadou menos da metade dos US$ 150 mil. Mas, segundo Grahm, a ideia do financiamento coletivo não era pagar a iniciativa (que custa muito mais do que isso) mas sim criar uma comunidade e conscientizar para os vinhos de terroir. “É um conceito desconhecido para a maioria dos consumidores de vinho”.

Vinicultor apaixonadiço (ou, para os críticos, sem foco)

Grahm, 62 anos, faz vinhos há 30. Recém-formado em Artes Liberais na Universidade da Califórnia em Santa Cruz, foi trabalhar como faxineiro na Beverly Hills Wine Merchant, gigante varejista de vinhos de Los Angeles, onde acabou provando uma vasta quantidade de vinhos franceses de alta qualidade.

 

Randall Grahm quer criar um vinho único para deixar “algo de valor” depois que morrer. FOTO: Divulgação

Resolveu, então, estudar Ciência da Plantação na Universidade da Califórnia, em Davis, onde se formou em 1979 e desenvolveu obsessão por Pinot Noir.

Em 1983, fundou a Bonny Doon, com objetivo de encontrar o grande Pinot Noir americano. Anos depois, ele diz, descobriu que “era apenas uma ilusão” e resolveu apostar nas variedades do Rhône.

A rapidez em mudar de tema faz que alguns críticos o acusem de falta de foco. Depois de ficar conhecido como o “Rhône ranger” (o guarda do Rhône), passou a defender as cepas italianas – sem falar em sua fase Riesling e no período de amor pelos vinhos doces.

Em 2006, a Bonny Doon atingiu seu pico de produção, com mais de 5 milhões de garrafas. Grahm parou para balanço. De 35 rótulos, decidiu manter só 10; de 450 mil caixas produzidas, passou a montar 35 mil. O crítico Hugh Johnson elogiou: “Desde que vendeu suas marcas massificadas e se concentrou em vinhedos únicos e biodinâmicos, Randall Grahm mostra uma melhoria acentuada, indo para o território das quatro estrelas”. Os destaques são o Vin Gris de Cigare e o Le Cigare Volant (leia ao lado).

Para ele, o pior da produção hoje é o que chama de ‘vinhos cínicos’. “Tintos doces ou monstruosamente alcoólicos têm sido a regra na Califórnia. Em Napa, a falta de diversidade é alarmante.”

VIN GRIS DE  CIGARRE 2009

FOTO: Divulgação

Origem: Califórnia, EUA

Preço: R$ 139,03 na Vinci

Este rosé traz um corte de 83% de Granache Noir, 10% de Grenache Blanc, 5% de Roussanne e 2% de Cinsault com grande profundidade de fruta aos moldes dos vinhos do sul da França. Tem 13,4% de álcool e é considerado um dos melhores vinhos de Grahm pela crítica internacional.

LE CIGARRE VOLANT 2006

 FOTO: Divulgação

Origem: Califórnia, EUA

Preço: R$ 237,70, na Vinci

Com 44% de Syrah, 12% de Cinsault, 43% de Grenache e 1% de Mouvèdre, este tinto é o carro-chefe da vinícola de Randall Grahm e uma homenagem a Châteauneuf-du-Pape. De corpo médio, tem 13,3% de álcool e potencial de guarda de mais de 10 anos.

 >>Veja a íntegra da edição do Paladar de 20/8/2015

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