Paladar

Bebida

Bebida

Só de birra

Heloisa Lupinacci

Uma onda de latinhas

Esqueça a associação de latas às cervejas aguadas e baratas: a leva de enlatadas que está chegando, tem cervejas aromáticas, complexas (e caras). Mas você vai ter de tomar no copo para aproveitar o melhor delas

10 dezembro 2014 | 19:42 por Heloisa Lupinacci

Ilustrações: Francisco Martins

Este é o verão da lata. Mas, desta vez, é da lata de cerveja boa. As prateleiras das lojas especializadas, antes monopolizadas por garrafinhas, vêm cedendo cada vez mais espaço a latas.

Mas para pegar essa onda é preciso virar algumas chaves. Primeiro, esqueça a ideia de que cerveja em lata é barata. Essas custam de R$ 12 a R$ 24. Em compensação, delas não saem bebida sem graça. Elas vertem cervejas complexas, equilibradas, aromáticas e criativas. E isso leva a outro ponto: você vai precisar de um copo – tomar da lata esconde a riqueza dessas bebidas. Elas merecem ser olhadas e cheiradas, missão impossível bebendo direto da lata.

 

Ficou com água na boca?

A boa maré se deve em grande parte ao hype da lata nos Estados Unidos. O cilindro de alumínio vem sendo adotado por cada vez mais cervejarias artesanais – de olho nas vantagens da lata na conservação e no transporte da bebida (leia abaixo).

Lá, de 2012 para cá, o número de rótulos em lata se multiplicou. No livro Canned!, sobre o assunto, Russ Philips afirma que hoje mais de 500 cervejarias artesanais americanas têm a bebida em lata – apenas cinco anos atrás, eram dúzias. O marco inicial é o lançamento da Dale Pale Ale, da Oskar Blues, em 2002. Contra tudo e contra todos, especialmente contra a ideia de que lata é para cervejas sem qualidade, a cervejaria do Colorado enlatou e emplacou.

Mas a maré ainda não está cheia. Apesar do crescimento, só 3% da cerveja artesanal produzida nos Estados Unidos é envasada em latas, segundo a Brewers Association (a associação de cervejeiros artesanais americanos). O maior volume, 60%, é engarrafado. Os 37% restantes são vendidos em barris.

Enlatadora ambulante. O principal obstáculo para enlatar é o preço – o processo exige equipamento industrial, enquanto para engarrafar dá até para lançar mão de gambiarras caseiras. E, como microcervejarias muitas vezes não têm porte para investir nesses equipamentos, acabou surgindo um novo business nos Estados Unidos: as enlatadoras móveis. São linhas de enlatar montadas em cima de caminhões que circulam pelas cervejarias. Já há três em operação: a Mobile Canning, a Can Van e a NorthWest Canning.

Enquanto a novidade não chega por aqui, as cervejas nacionais disponíveis em lata resumem-se às lagers industriais – nossas cervejarias artesanais não enlatam ainda.

Mas, neste verão paulistano, a oferta de enlatadas importadas já é considerável e, assim, o isopor com gelo ganha o reforço de cervejas com dose caprichada de lúpulo. Ele é o que mais se beneficia dessa embalagem. Totalmente protegida da luz, a bebida em lata mantém por mais tempo as mais frescas notas cítricas, frutadas, florais e herbais associadas à flor responsável pela explosão de aroma das novas cervejas americanas. Neste verão da lata, a onda é a cerveja de qualidade.

Peneira de rótulos

Para chegar à seleção de dez latas, provamos 29. Deixamos de fora Boris Premium Lager (França); Glutenberg APA (EUA); Karlsbräu Black (Alemanha); Orangeboom (Holanda); Sea Dog Wild Blueberry (EUA) ; Tennents Lager (Escócia) e Wexford Irish Cream Ale (Inglaterra). Anderson Valley Barney Flats Oatmeal Stout e Six Point RAD só saíram da seleção pois já tinha dois rótulos das cervejarias entre as eleitas. No caso da Anderson Valley, a escolha foi por estilo que combina com verão. No da Six Point, porque o lote de RAD que havia aqui venceu.

BIKINI BEER

Cervejaria: Evil Twin

Origem: Two Roads Brewing (Connecticut, EUA)

Preço: R$ 24 (355 ml)

Com apenas 2,7% de teor alcoólico, tem cara de praia – a lata está vestida com biquíni. A cor, amarelo-claro, lembra sol e areia. No nariz, notas florais e resinosas, mas muito delicadas. Tudo indica que ela vai ser leve como a espuma do mar. Mas na boca, não é bem assim: seca e com amargor persistente, porém equilibrado, é uma cerveja contundente, que vai direto ao ponto. Refrescante, combina com fim de manhã e sol a pino. Para acompanhar, queijo coalho com melaço.

ALL DAY IPA

Cervejaria: Founders

Origem: Michigan (EUA)

Preço: R$ 14 (355 ml)

O último contêiner exportado pela Founders para o Brasil foi aberto. As latas desse lote estão chegando às lojas, então aproveite para se despedir. Explosiva nos aromas, lembra frutas amarelas, como seriguela. Na boca, é amarguinha, leve, longa e fresca. Como o nome diz, combina com o dia inteiro, mas é boa para aplacar o auge do calor. Tem 4,7% de teor alcóolico. Para acompanhar, espetinho de carne com bacon.

CLASSIQUE

Cervejaria: Stillwater

Origem: Baltimore (Maryland, EUA)

Preço: R$ 23 (355 ml)

Doce, salgado, ácido e condimentado: tudo isso aparece nesta cerveja (de 4,5%) assim que se aproxima o copo do nariz. É difícil descrevê-la. Na boca, tem acidez leve, amargor estável e um estalo de dulçor. É fresca, parece uma brisa que viajou por mil campos de cereais e pomares carregados até soprar na beira do mar, na borda do seu copo. Combina com fim da tarde e moqueca capixaba.

BENGALI

Cervejaria: Six Point

Origem: Nova York (EUA)

Preço: R$ 23 (355 ml)

Essa Bengali é um belo exemplo de como uma cerveja com gradação alcoólica mais elevada – 6,5% – não é condenada a ser pesada, basta caprichar no equilíbrio. Ela é uma aula de equilíbrio. Superaromática, com notas cítricas, é um golpe de ar fresco no dia quente. Na boca, o amargor e o dulçor empatam e fazem essa cerveja ser facílima de beber. O fim do gole é refrescante. Combina com espetinho de camarão e tarde na praia.

BROOKLYN LAGER

Cervejaria: Brooklyn

Origem: Nova York (EUA)

Preço: R$ 13 (355 ml)

Esta é daquelas cervejas que dá vontade de encher a geladeira – e beber como se fosse refresco, com 5,2% de teor alcoólico, é verdade. Toda lager clara em lata deveria ser assim. Tem nariz bem expressivo e aquele final de gole limpo que só as lagers têm. Dá vontade de tomar mais uma e outra e outra. Tudo fala baixo, mas aparecem notas de frutas amarelas e caramelo. Combina com sol a pino e salada de tomate.

HOP OTTIN IPA

Cervejaria: Anderson Valley

Origem: Califórnia (EUA)

Preço: R$ 13,50 (355 ml)

É das menos refrescantes desta seleção. Uma IPA bem sisuda. No nariz, é pouco aromática – ao menos o exemplar provado estava. Na boca, faz o estilo parruda: amargor e doce elevados e razoavelmente equilibrados. Ela tem 7% de teor alcoólico e o gole tem um pouco de aquecimento. Com churrasco e com aquela hora que chove na praia e todo mundo vai pra casa.

THE KIMMIE, THE YINK AND THE HOLY GOSE

Cervejaria: Anderson Valley

Origem: Califórnia (EUA)

Preço: R$ 16,90 (355 ml)

Sabe o momento em que você coloca a cabeça para fora da água depois de um mergulho no mar, a boca fica salgada, mas a sensação geral é de refrescância? O gole dessa cerveja é assim. Gose é um estilo alemão que leva sal e passa por fermentação lática, além da normal. Na boca, é um tapa ácido seguido por sal. Tem 4,2%. Vai bem no começo da noite e combina com iscas de peixe.

OLD SPECKLED HEN

Cervejaria: Morland

Origem: Oxfordshire, Inglaterra

Preço: R$ 14,90 (500 ml)

Ela não é um exemplar da nova leva de rótulos enlatados, sempre esteve por aí, ao lado de outras britânicas, como Guinness e New Castle Brown Ale. No nariz, transporta para uma sala de estar de uma casa inglesa. O malte predomina. Na boca, prevalece um dulçor elegante. É uma cerveja simples e classuda. Leve e fácil, tem 5,2%. Para tomar no final da tarde. Combina com estrogonofe.

SWEET ACTION

Cervejaria: Six Point

Origem: Nova York (EUA)

Preço: R$ 15,90 (355 ml)

Alaranjada e com cheiro de damasco e pêssego, é tranquila e acolhedora. Na boca, o amargor é bem inserido e equilibrado com as notas frutadas que já tinham aparecido no nariz. A carbonatação – o gás da cerveja – é delicada e elegante. O final do gole tende ao doce, deixa um melado no lábio, como se se tivesse acabado de comer sobremesa. Tem 5,2%. Combina com fim de tarde e salada de fruta.

1664

Cervejaria: Kronembourg

Origem: Estrasburgo, França

Preço: R$ 14 (500 ml)

Ela não é da nova leva de latas, esteve sempre por aí. É fácil de achar e muito fácil de beber. Tem 5%. Superfresquinha, dá para sentir o lúpulo floral bem delicado. Ela só parece simples: tem uma complexidade que fala baixo, um sussurro de fruta e flor. Boa para ser a primeira cerveja do dia, no fim da manhã, com um misto quente – ou um croque monsieur, em homenagem à origem francesa.

Onde comprar

SERVIÇO | Capitão Barley

Onde: R. Cayowaá. 358, Pompeia

Tel.: 3569-3560

SERVIÇO | Cervejoteca

Onde: R. Sena Madureira, 749, Vila Mariana

Tel.: 5084-6047

SERVIÇO | Empório Alto dos Pinheiros

Onde: R. Vupabussu, 305, Pinheiros

Tel.: 3031-4328

SERVIÇO | Mr. Beer

Onde: R. Dr. Alceu de Campos Rodrigues, 476. Vila Nova Conceição

Tel.: 4324-2618

O que elas têm de bom e de ruim

Gela mais rápido

Basta um balde de gelo e alguns minutos para a lata gelar. O alumínio é melhor condutor de calor que o vidro, porém isso quer dizer que ela esquenta mais rápido também.

Menos exposição à luz

A garrafa é escura para proteger o líquido da luz. Mas mesmo assim ela é impactada. A luz tem dois efeitos na cerveja. O primeiro é que ela transforma as moléculas que dão amargor na cerveja (os chamados iso-alfa-ácidos). A mudança dá aromas que são descritos como “de gambá”. O segundo é que ela degrada os óleos essenciais do lúpulo, responsáveis pelas notas aromáticas. Na lata, a incidência de luz é zero e com isso os buquês aromáticos característico das cervejas americanas da nova escola, são as mais protegidos.

Menos espaço

Uma pilha de latas tem basicamente líquido e a fina camada de alumínio embalando-o. Uma pilha de garrafas tem o gargalo (o ar dentro do gargalo e fora dele também), ou seja, quem fabrica e exporta transporta mais cerveja pelo mesmo preço – porém, Renato Ferreira Lima, da Uniland, relativiza a vantagem: “essa é uma questão controversa. Há uma leve vantagem de espaço e tem a questão da resistência, a lata não quebra. Mas. por outro lado, por vir em ‘bandejas’ e não em caixas, ela é mais suscetível a pequeninos amassados, que, por menores que sejam, inviabilizam a venda”.

Mito: menos oxigênio

Uma das vantagens atribuídas à lata é que ela não teria oxigênio – ao contrário da garrafa, que tem ar entre o líquido e a tampa. O contato da bebida com o ar degrada a cerveja – ainda que minimamente. Alfredo Ferreira, do Instituto da Cerveja, que trabalhou na Heineken e na Brasil Kirin, derruba o mito: “A lata também tem o chamado ‘headspace’, o espaço entre líquido e tampa. Mas tanto no processo de engarrafar quanto no de enlatar, o oxigênio é praticamente eliminado da embalagem”. A ressalva é que, no contexto das microcervejarias, a tecnologia de expulsão de oxigênio do headspace não é uma realidade.

Lata ou garrafa: testamos no copo

Na primeira rodada de degustações para esta edição, de cara Raphael Rodrigues (do Allbeers), Renê Aduan (sommelier de cerveja) e eu pegamos as latas e levamos à boca. Foi o primeiro teste. Era a Bikini Beer, e ela perdeu grande parte da graça tomada direto da lata. A boca colada no lacre de alumínio bloqueia a percepção do aroma da cerveja, que é a estrela em quase todos os rótulos sugeridos aqui. Essas cervejas especiais que estão chegando enlatadas devem ser tomadas no copo – para que possam ser vistas e cheiradas.

O segundo teste foi provar a mesma cerveja em lata e em garrafa. Fizemos essa comparação com a AllDay IPA. Visualmente, a da garrafa estava um pouco mais escura. No aroma, as duas estavam idênticas, impossível apontar diferença. Na boca, a da garrafa estava um pouco mais resinosa e com uma sensação de corpo esquisita, como se desse para mastigar o gole, chewy, no jargão. A da lata estava mais agradável, dava mais vontade de repetir.

O terceiro teste foi menos científico, mas contundente. Ao longo de três semanas, comprei, no supermercado, cervejas convencionais em lata e em garrafa – de diversas marcas. Provadas às cegas, a tarefa era apontar a mais gostosa. A garrafa ganhou todas.

O que leva às questões: a cerveja da lata é pior? A lata deixa gosto ruim? “É a mesma cerveja”, diz, na lata, Alfredo Ferreira, do Instituto da Cerveja, que trabalhou na Brasil Kirin e na Heineken. “Em alguns casos, a bebida que vai para a lata pode ter um pouquinho menos de gás, para não correr o risco de estufar, mas em muitos casos, é o mesmo tanque que abastece as duas linhas de envase.”

Sobre a sensação de gosto de metal, o caso é o seguinte: impressão, deixada pela memória das latas de décadas atrás. Em todos os testes, ninguém sentiu aromas ou sabores metálicos. A lata de alumínio é revestida com um forro de polímero que impede a cerveja de entrar em contato com o metal. “Tanto as cervejarias quando as fabricantes fazem um controle muito rigoroso da superfície interna da lata para garantir que o líquido não entre em contato com o metal”, explica Ferreira.

Ainda vem por aí

O maré de latas vai continuar trazendo novidades para o Brasil nos próximos meses. A Punk IPA, da escocesa Brewdog, chega enlatada por aqui em janeiro.

Na Mr. Beer, acabaram de chegar às lojas rótulos enlatados de três cervejarias americanas (que são exclusivos da rede). Da Coalition, veio a american wheat – estilo norte-americano de cerveja de trigo, leve e refrescante e, claro, com bastante lúpulo – Wheat the People, com 4,4% de teor alcoólico; da Hop Valley são três: a american lager 541; a Double-D Blonge, blonde ale à moda americana, e a Citrus Mistress, uma american IPA. E da Caldera, cinco: Ashland Amber Ale; Caldera IPA; Lawnmower Lager; Pale Ale e Pilot Rock Porter.

A Anchor IPA em lata, que era aguardada para o começo do ano, não vem. “A experiência que temos é que o consumidor prefere as garrafas”, diz Renato Ferreira Lima, da Uniland, que traz a californiana para cá.

Praia limpa: a ordem é reciclar

Não importa quantas latas ou garrafas tenha tomado, não se esqueça de mandar reciclar. Alumínio e vidro são 100% reaproveitáveis e transformados em novas embalagens. E o processo de reciclagem consome menos energia do que a produção da embalagem a partir da matéria-prima. O vidro tem duas outras vantagens: é retornável – usa-se o mesmo casco diversas vezes – e consome menos energia na reciclagem do que a lata. Por enquanto, o vidro é mais reciclado que o alumínio: das 5 mil ton/mês da coleta seletiva em São Paulo, 9% é vidro e só 1% alumínio segundo cálculo da Ciclosoft 2014.

Ficou com água na boca?