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Isabelle Moreira Lima

Uvas esquecidas ganham força fora do mundo 'Parker' e viram tema de livro

Uhfark, Obaideh, Chasselas e Saperavi são algumas das cepas listadas em 'Godforsaken Wines', de Jason Wilson, que vê a retomada de variedades abandonadas como busca por experiências mais autênticas na gastronomia

12 setembro 2018 | 18:58 por Isabelle Moreira Lima

Existe uma corrente que busca vinhos feitos com uvas hoje pouco conhecidas. Naturais de regiões específicas, elas foram escanteadas e substituídas por uvas consideradas superiores. Mas atualmente, em mercados mais maduros como os EUA e algumas cidades europeias, veem-se vinhos feitos com castas abandonadas de todas as partes: Uhfark, da Hungria; Obaideh, do Líbano; Chasselas, da Suíça; e Saperavi, da Geórgia. 

O movimento, que começa a mudar paisagens e mercados, chamou a atenção do pesquisador Jason Wilson, que lançou nos Estados Unidos o livro Godforsaken Wines (R$ 84,05 o e-book na amazon.com.br). 

Godforsaken Grapes, de Jason Wilson

Godforsaken Grapes, de Jason Wilson Foto: Reprodução

Wilson acredita que a retomada dessas cepas tem a ver com a busca por sabores e por experiências mais autênticas na gastronomia, que andam em alta. “Certamente começou com um movimento hipster, mas ganhou outras proporções. É só pensar no Pipeño (tipo de garrafão) chileno feito com a uva País e em como ele se tornou popular em todo o mundo”, afirmou em entrevista ao Paladar.

Por anos, a indústria do vinho girou em torno de uma monocultura que valorizava as uvas mais rentáveis, consideradas “nobres”. Apesar de existirem 1.368 cepas catalogadas, cerca de 80% do vinho mundial é feito com apenas 20 variedades, diz Wilson.

Os responsáveis por isso foram principalmente nobres, que durante séculos determinaram o que deveria ser plantado – em 1395, por exemplo, o duque da Borgonha baniu a Gamay em seus domínios e determinou que a Pinot Noir fosse plantada. (Essa e outras histórias estão no livro de Wilson.)

Para ele, hoje ainda há quem determine o que é bom e o que não é, assim como fazia a nobreza europeia. Como exemplo, ele cita o crítico Robert Parker. “Parker usou o termo ‘uvas abandonadas’ para rebaixar as uvas locais ao ver reduzir o interesse dos consumidores mais jovens por vinhos clássicos de Bordeaux e Napa. Acontece que foi com esses vinhos, feitos com uvas internacionais como Cabernet Sauvignon, Chardonnay e Merlot, que Parker construiu sua reputação”, afirma. 

Segundo ele, a mudança não é boa para o crítico. “Tenho certeza de que a volta de uvas esquecidas não é boa para seu negócio como guardião do vinho e por isso ele reagiu negativamente. Há uma agenda para manter a antiga hierarquia de vinhos de prestígio no topo e buscar melhores preços”, diz.

 

Três perguntas para Jason Wilson, autor do livro Godforsaken Wines

Que região está resgatando suas uvas autóctones de modo eficiente?

A Áustria, nos anos 1990, fez isso com a cepa branca Grüner Veltliner e com algumas uvas tintas, como Blaufränkisch e Zweigelt, além das castas ainda mais obscuras como Neuberger, Rotgifler, e Zierfandler. No sudoeste da França, em Gaillac, foram preservadas cepas como Fer Servadou, Duras, Mauzac, Ondenc, Prunelart, entre outras.

Jason Wilson, que resolveu virar advogado de castas após degustação

Jason Wilson, que resolveu virar advogado de castas após degustação Foto: Kevin Klinskidorni

Como se interessou pelas uvas esquecidas?

Há uma década, durante uma viagem à Itália, provei Timorasso, uma uva branca piemontesa que havia sido salva da extinção pelo produtor Walter Massa. Fiquei encantado e percebi que queria ser um advogado das uvas desconhecidas. 

Qual foi o vinho mais obscuro e maravilhoso que provou?

Vinhos norte-americanos feitos com castas híbridas, fruto de cruzamento entre vitis vinifera e espécies nativas americanas. Uvas como La Crescent, Marquette, Frontenac e Traminette, cultivadas no norte dos EUA, em lugares onde há muita neve como Vermont e que não têm um histórico ou uma cultura de vinhos estabelecida. Com a mudança climática, essa é possivelmente a última fronteira.

Para provar cepas esquecidas por aqui 

No Brasil, encontra-se a Grüner Veltliner em alguns catálogos. Conhecida por fazer vinhos refrescantes e quase picantes, tem aromas de pimenta branca e dill. Na Mistral, o Grüner Veltliner Loiser Berg 2015 (R$ 281) é um exemplar clássico, fresco e mineral.

Na importadora Decanter, o Grüner Veltliner Loss Hiedler 2017 (R$ 172,20) tem agradáveis aromas de maçã verde. E a Sonoma vende o moderno e levíssimo Zero- G Gruner Veltliner 2016 (R$ 129,90).

Grüner Veltliner, com aromas de pimenta e dill

Grüner Veltliner, com aromas de pimenta e dill Foto: Reprodução

 

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