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Suzana Barelli

Vinho combina com empresas de investimento?

Enóloga alentejana não tem dúvidas em responder sim; empresas sabem que as vinícolas só vão se valorizar se tiverem rótulos mais premiuns

30 de outubro de 2021 | 03:00 por Suzana Barelli, O Estado de S.Paulo

A enóloga alentejana Joana Roque do Vale não tem dúvidas em responder sim para a pergunta do título. E exemplifica com o vinho alentejano Terras de Xisto Vinhas Velhas Reserva Branco 2017, que chega ao mercado brasileiro até o final deste ano. Ainda sem preço definido por seu importador, a Adega Alentejana, não será um vinho barato pelas suas qualidades. O branco nasce de um vinhedo da Roquevale, que até 2017 pertencia à família de Joana, e é elaborado com uvas como arinto, roupeiro e fernão pires, e também com manteúdo, diagalves e rabo de ovelha, variedades menos conhecidas, mas que revelam a diversidade das castas portuguesas. O vinho, ainda, fermenta em barricas de carvalho novas, o que lhe passa uma boa untuosidade.

Este branco e também o seu par tinto, elaborado com alfrocheiro, aragonez e alicante bouschet, são agora dois cartões de visita da Enseada Family Office, empresa que gere os investimentos da família controladora da SulAmérica, e que decidiu investir em vinícolas portuguesas. Dentro do seu plano de diversificar investimentos, a Enseada criou a empresa Ségur Estates, que adquiriu a Roquevale e também a Encostas de Estremoz, no Alentejo, e a Quinta do Sagrado, no Douro.

Empresas adquirem vinícolas com intuito de diversificar investimentos.

Empresas adquirem vinícolas com intuito de diversificar investimentos. Foto: Issei Kato/Reuters

“Analisamos uma série de oportunidades em Portugal, e faz sentido investir em vinhos”, conta o carioca Louis de Ségur de Charbonnières, chairman da Enseada e que atualmente vive em Londres, de onde cuida dos negócios da família. Com o Ségur Estates, Charbonnières também resgata uma tradição. Ele é um dos herdeiros de Nicolas Alexandre de Ségur, que no passado distante teve forte ligação com os vinhos de Bordeaux. No século XVIII, Nicolas, apelidado de príncipe das vinhas, foi o maior proprietário de vinhedos desta nobre região francesa. Entre suas propriedades estavam os hoje super renomados chateaux Lafite, Latour e Mouton (diz a lenda, inclusive que o hoje batizado Château Mouton Rothschild foi comprado na época por preço de banana).

Nesta volta ao vinho, três séculos depois, a família tem 100 hectares de vinhedos próprios e a capacidade de elaborar 10 milhões de garrafas por ano. Desde 2016, quando comprou a primeira quinta, a do Sagrado, já foram investiu 12 milhões de euros nos três projetos e estão prestes a fechar a compra de uma nova vinícola na Espanha. Seus gestores dizem que o diferencial e o ganho financeiro estão na sinergia na gestão dos negócios, na logística, administrativo, compra de garrafas etc, mas mantendo separadas a identidade de cada quinta.

Joana, por sua vez, foi promovida à enóloga-chefe das três vinícolas, e diz que ganhou tempo para pensar em projetos especiais. Até porque os donos sabem que as vinícolas só vão se valorizar como investimento se tiverem rótulos mais premiuns. Na Roquevale, onde Joana conhece os vinhedos desde menina, a ideia é ir para os vinhos mais clássicos e austeros. “Novo vinhedo de brancos mostra o respeito ao que era o Alentejo, as suas castas tradicionais”, afirma Joana. Na Encostas de Entremoz, o trabalho foca em um estilo mais moderno e que tem a casta touriga nacional como destaque. “Estamos elaborando um tinto novo, moderno, com passagem em barricas novas”, conta ela, empolgada.

No Douro, 2021 foi a primeira colheita em que ela teve tempo de pensar nos projetos especiais, depois de arrumar a vinícola, que vai ganhar novas instalações neste ano. “É desafiante fazer vinhos no Douro, utilizar os lagares antigos, com a pisa a pé”, conta ela. E acrescenta: “Agora é esperar os resultados”. A conferir.

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