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Vinhos fora do radar

Por Guilherme Velloso e Marcel Miwa

17 setembro 2014 | 22:18 por marcelmiwa

Não faz muito tempo, surgiu um movimento nos Estados Unidos batizado de “ABC”, iniciais de “Anything but Chardonnay” ou “Anything but Cabernet (Sauvignon)”, ou seja, qualquer vinho menos Chardonnay ou Cabernet Sauvignon. Foi uma reação de muitos consumidores ao hábito de se oferecer apenas vinhos dessas castas, não por acaso, respectivamente, a branca e a tinta, mais conhecidas no mundo.

Os tempos mudaram e, hoje, há enorme oferta de rótulos de diferentes castas, em vinhos monovarietais ou de corte. Mesmo assim, seja por falta de informação, seja por temor de se aventurar, muita gente ainda prefere opções consideradas mais seguras. Entre os tintos, os rótulos da onipresente Cabernet Sauvignon, principalmente chilenos, dividem essa primazia com os indefectíveis Malbecs argentinos. Merlot e Pinot Noir ficam em segundo plano.

Entre os brancos, os Chardonnays (chilenos, argentinos, brasileiros e de muitas outras nacionalidades) lideram as preferências, secundados à distância pelos Sauvignon Blancs.

Claro que em qualquer restaurante italiano o Chianti ainda impera, mas aqui a garantia é o próprio nome do vinho, um dos mais difundidos no mundo, e não a uva (Sangiovese) com que é majoritariamente feito. Não há nada errado nessas escolhas. Afinal, independentemente da uva utilizada, o importante é que o vinho seja bom e do agrado de quem o pediu ou comprou.

Mas desta vez, apostamos em uvas menos conhecidas. Ser produzido com uma uva “exótica” não garante nem uma coisa nem outra. O que nossa degustação quis mostrar é que há ótimos vinhos (inclusive na relação preço/qualidade) feitos com uvas menos conhecidas.

E, para que você não tenha medo de experimentar, apresentamos aqui uma seleção de vinhos feitos com elas.

Selecionamos quatro brancos e quatro tintos, que vale a pena você conhecer. São vinhos de diferentes regiões vinícolas e de tradicionais produtores como França, Itália, Portugal e Espanha, além da Grécia.

Para avaliá-los conosco, convidamos o sommelier Marcelo Batista, da Trattoria Fasano, onde foi realizada a degustação. Como o objetivo era analisar as características de cada vinho individualmente, não houve necessidade de prová-los às cegas, como costumamos fazer. Os resultados foram surpreendentes, inclusive para nós, como você vai poder conferir nesta página.

FOTOS: Felipe Rau

QUINTA DAS BÁGEIRAS COLHEITA 2009

Uva: Baga

Origem: Bairrada, Portugal

A simples menção do nome Baga pode assustar alguns conhecedores. Num paralelo com a Itália, pode lembrar a Nebbiolo, pois taninos e acidez estão em alta frequência. Mais uma vez, as mãos de um bom enólogo faz toda a diferença para domar esses dois componentes. No nariz há conexão de fruta negra fresca (amora), baunilha, terra e pimenta rosa, uma combinação original. Os taninos e a acidez são intensos, sem rusticidade e alinhados com o conjunto. A tipicidade está lá e sem sustos. Além do ótimo preço, é um bom desafio para a gastronomia; combina bem com leitão e costela bovina.

TEMPESTA FINCA DE LOS VIENTOS 2009

Uva: Prieto Picudo

Origem: Tierra de León, Espanha

A denominação de origem Tierra de León está próxima da Galícia e das Astúrias. O clima frio e úmido se traduz em vinhos com menos álcool e maior acidez. O nome curioso vem do fato de a uva ser cor violeta-escuro e ter forma ovalada. A casta começou a se destacar por consumidores que preferem vinhos mais frescos e com menos madeira. Neste caso há aromas de cereja amarga, tomilho e tostados. O álcool mal aparece e pode dar a impressão de um vinho “magro” na boca. Deve ser encarado como um vinho fácil e simples. Para Guilherme, é melhor no nariz que na boca; para Marcelo, é um vinho que pede a companhia de comida.

CANTINA CELLARO MICINA NERELLO MASCALESE 2013

Uva: Nerello Mascalese

Origem: Sicília, Itália

A Nerello é mais conhecida pelos exemplares feitos aos pés do vulcão Etna. Neste caso, a origem é menos nobre, mas o preço compensa (é mesclado com 10% de Nero d’Avola). As marcas da variedade – fruta fresca e elegância – estão presentes de forma descontraída. Nariz e boca andam na mesma sintonia e aromas de framboesa, ervas, baunilha e iogurte de morango estão presentes. O vinho é leve e sedutor, desde que bebido jovem.

AGIORGITIKO BY GAÍA 2011

Uva: Agiorgitiko

Origem: Nemea, Grécia

A Agiorgitiko disputa com a Xynomavro o posto de variedade tinta mais cultivada na Grécia. Seu estilo frutado lembra a Merlot, com notas de ameixa e outras frutas negras. O tempero local está na forte presença de especiarias no nariz: canela, pimenta e ervas secas. Na boca mostra o lado mediterrâneo, com boa potência, estrutura mediana, taninos firmes e muito finos e acidez viva. Seu estilo internacional com um toque exótico o torna uma boa alternativa às castas populares.

TRIMBACH SYLVANER 2006

Uva: Sylvaner

Origem: Alsácia, França

A casta pode ser considerada do segundo escalão na Alsácia, onde Riesling e Gewurztraminer imperam. Nas mãos de um ótimo produtor, o resultado é um vinho singular, untuoso, com aromas discretos de jambo, pera e hortelã. Envelheceu exemplarmente, pois combina os aromas de mel, avelã e medicinais com uma estrutura firme e fresca. Marcelo comentou que é uma ótima oportunidade para conhecer esses aromas raros de brancos evoluídos, que combinam bem com cogumelos.

GAROFOLI PODIUM VERDICCHIO DEI CASTELLI DI JESI 2009

Uva: Verdicchio

Origem: Marche, Itália

Conhecida como a “Chablis da Itália”, a Verdicchio na denominação de origem dei Castelli dei Jesi mostra certa mineralidade salina. O nariz é discreto, com sutis notas de limão, pera e algo de maresia. Na boca tem boa potência alcoólica balanceada pelo frescor adequado. Em termos de exuberância não é uma grande referência, mas há mineralidade e elegância para valorizar qualquer prato com frutos do mar. Para Guilherme, poderia ter um pouco mais de intensidade no final, pois seu início prometia um ótimo vinho.

HERDADE DA MALHADINHA NOVA ANTÃO VAZ DA PECEGUINA 2012

Uva: Antão Vaz

Origem: Alentejo, Portugal

Embora pouco conhecida na forma varietal, a Antão Vaz é a variedade que domina nos grandes brancos do Alentejo. Neste exemplar, assinado pelo enólogo Luis Duarte, o vinho é rico em notas de frutas como abacaxi, melão e casca de limão. Há algo de fermento de pão e baunilha discreta. Está longe de ser aqueles vinhos “salada de frutas tropicais”, pois há definição dos aromas e intensidade controlada. Em complemento, há bom frescor que reforça o estilo alegre e jovem deste alentejano.

VAL DE SIL 2009

Uva: Godello

Origem: Valdeorras, Espanha

Preço: R$ 88,20, na peninsulavinhos.com.br

O branco mais empolgante do painel foi também o mais em conta. A casta Godello merece ser conhecida e, neste caso, seduz logo no nariz com notas de pão, marzipã, iogurte e cítricos. A acidez é ótima e precisa; aliada à delicada textura e sensação mineral (talco), ensaia uma arquitetura que lembra a Chardonnay na Borgonha. É um grande vinho em qualquer contexto.

>>Veja a íntegra da edição do Paladar de 18/9/2014

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