Paladar

Bebida

Bebida

Le Vin Filosofia

Suzana Barelli

Vinhos Verdes não são só para o Carnaval

Leves, frescos, às vezes frisantes e meio adocicados, eles combinam como poucos com a folia, agora doméstica, e também com muitas outras ocasiões

16 de fevereiro de 2021 | 03:00 por Suzana Barelli, O Estado de S.Paulo

Os Vinhos Verdes, aqueles elaborados na região mais ao Norte de Portugal, podem ser uma das boas pedidas para os dias de carnaval. Leve, fresco, às vezes frisante e meio adocicado, e mais ou menos aromático conforme o estilo do produtor, eles combinam como poucos com a folia, agora doméstica, sem aglomerar.

Mas trago os Vinhos Verdes aqui não apenas pela festa. Faz tempo que esses vinhos brancos – sim, brancos, porque a palavra verde vem da sua região, mais arborizada, e não pela coloração da bebida – surpreendem pelo ganho de qualidade. Recentemente, em uma live com Dirceu Vianna Júnior, o primeiro e ainda único Master of Wine brasileiro, ele chamava atenção para as sub-regiões, afirmando que, muito em breve não vamos mais nos referir aos Vinhos Verdes ou ao Minho, como a região também é chamada, mas os vinhos de Melgaço, de Lima, de Baião, que são algumas das nove sub-regiões locais.

Frescor e leveza dos vinhos verdes combinam com dias quentes.

Frescor e leveza dos vinhos verdes combinam com dias quentes. Foto: Fernando Sciarra/Estadão

Essa constatação faz parte do trabalho de muitos enólogos de conhecerem melhor a pequena zona onde cultivam as suas uvas. Na denominação de origem Vinhos Verdes são autorizadas o plantio de variedades como alvarinho, avessoloureiro, arinto, trajadura, azal e também as tintas vinhão e alvarelhão. Mas nem todas se adaptam em todos os terrenos, que têm climas e solos diferentes.

Um dos pioneiros em descobrir sua sub-região é o enólogo Anselmo Mendes. Com vinhedos ao norte de Vinhos Verdes, em Monção e Melgaço, ele investiu na uva alvarinho (ou albariño para quem cruza a fronteira com a Espanha, bem ao ladinho). Lá, o clima é mais quente e com menos chuva quando comparado com as demais sub-regiões. Mendes começou colocando o nome da variedade no rótulo, depois testando novas formas de vinificar. O resultado é que atualmente ele tem um portfolio (aqui no Brasil representado pela Decanter) bem amplo de vinhos com a uva, do alvarinho clássico, elaborado em tanques de inox, àqueles que fermentam junto com as suas cascas (o que lhe traz mais corpo e complexidade) e os que amadurecem em barricas de madeira.

Outros produtores seguiram por esse caminho, inclusive na sua sub-região, como os Deu la Deu (R$ 189, na Barrinhas), em Moução, e os da Quinta do Soalheiro, em Melgaço, representado pela Mistral. Outra característica dos alvarinhos é a sua capacidade de envelhecimento e de ganhar complexidade na garrafa. Degustações com safras antigas desses vinhos vem mostrando que a alvarinho não é, apenas, uma uva para vinhos simples, do dia-a-dia.

Na live, por exemplo, Vianna Júnior apresentou o Arêgos Grande Escolha 2018 (R$ 159, na 4U.Wine), que é elaborado pelo enólogo Fernando Moura, na sub-região de Baião. De solo granítico e forte influência marítima, é onde a uva avesso tem mostrado os melhores resultados. Lá, os vinhos tendem a ter alta acidez, o que se traduz em maior frescor, e menor teor alcoólico. Outro bom exemplo é o Covela Avesso, também na região de Baião, e que tem um brasileiro, o empresário Marcelo Lima, como sócio. O vinho é comercializado pela Winebrands por R$ 116.

Em Lima, outra sub-região que vem se destacando, reina a variedade loureiro. Um dos destaques é a Quinta do Ameal, adquirida poucos anos atrás pela gigante Herdade do Esporão. A vinícola se especializou em cultivar apenas a loureiro e sua gama de vinhos tira partido da versatilidade da uva. A linha Escolha traz sempre um loureiro com maior tempo em garrafa (atualmente está no mercado o da safra 2014), indicando que o vinho pode ganhar complexidade com o tempo de guarda. Com a crise econômica, a vinícola decidiu ter também um vinho mais simples, com uvas não apenas da sua propriedade. É o Bico Amarelo, vendido por R$ 73, na americanas.com.

Nesta diversificação, há também espumantes, rosés, os dois em geral leves e frutados. E também os tintos, no passado bem rústicos e que ficavam restritos ao consumo local. Para eles, a uva mais utilizada é a vinhão (o ão final dá a pista da sua potência e rusticidade). Mas há enólogos que sabem tirar bom partido da variedade. Daqueles que chegam ao Brasl, o melhor exemplo é o Vasco Croft, com o seu Aphros Vinhão DOC (R$ 194,75, importado pela WineLovers).

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Ficou com água na boca?