Paladar

Comida

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A manga, ainda

13 novembro 2009 | 18:16 por redacaopaladar

Era a primeira árvore que aparecia quando entrávamos, saindo do carro, no jardim do sítio da tia Carlota, rápidos como gafanhotos. Lá embaixo, toda faustosa estava ela, a mangueira. Impossível chamar mangueira só de árvore. É redondamente: mangueira.

Era ponto de referência. “Tá vendo aquela flor ali, atrás da mangueira?”. Ponto de encontro: era lá que a gente se encontrava para a partida ao piquenique, à cachoeira do Caminho dos Macacos.

A mangueira era esconderijo. Na Páscoa, época em que as tias espalhavam os ovos de chocolate pelo sítio numa caça ao tesouro açúcarado, nós sempre tínhamos certeza de que havia alguma cestinha pendurada na mangueira (geralmente do priminho mais novo, porque a árvore fica perto da sede do sítio e ele não teria paciência de esperar todos os outros 19 acharem seus ovos).

Minha avó viu a reportagem sobre manga publicada no Paladar dessa semana e comentou que não reconheceu a manga que dá no sítio. “Não parece com nenhuma da foto e o gosto não bate também”. Qual era então, vó? Não sabia, mas imediatamente descobriu com a cozinheira, a Soninha. É a espada a manga que chupei a vida toda. Cultivar da Bahia, quantidade razoável de fibras e sabor regular.

Ficou com água na boca?

Vovó Teresinha lembrou também que mangueiras são ótimas para abrigar casas da árvore. “Os troncos são largos e é uma árvore fácil de escalar. Eu subia muito em mangueira quando era criança, e muitas vezes nem era com manga, era com abacate e açúcar”, contou. Ela também é boa, por ser firme, explicou, para pendurar balanço.

Na mangueira do sítio tinha uma casinha, é claro. Quem construiu foi um primo e quando cresceu e parou de brincar nela, já caidinha, virou minha e de minha fiel companheira Manô. Nós nos abrigávamos ali para espiar o movimento na casa sem que ninguém reparasse, dar risada das conversas dos mais velhos que passavam pela mangueira durante suas caminhadas em grupos e para trocar livremente fiapos de confidências, essa era a melhor parte.

Ficou com água na boca?