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À mesa com Apicius e suas crônicas, como convém

O que compram R$ 8 hoje em dia? Nalguns restaurantes é quanto vale, incluído o serviço, uma garrafa d’água ou uma xicrinha de café… Tempos difíceis. Melhor ficar em casa e beber a prosa de Apicius. Seu livro Confissões Íntimas é relançado hoje pela editora Cesárea em versão e-book. Custa R$ 8.

19 agosto 2015 | 20:53 por joseorenstein

Lê-se de uma talagada a coleção de textos, lançada em 1986 e que, nesta edição, tem atualizada a ortografia e ganha prefácio da pesquisadora e jornalista Renata do Amaral.

Apicius era o pseudônimo de Roberto Marinho de Azevedo Neto, que entre 1975 e 1997 foi crítico gastronômico do Jornal do Brasil. Marcou época no Rio de Janeiro. Só rompeu o anonimato quando parou de publicar suas resenhas de restaurantes. Morreu em 2006. Os textos foram selecionados por Patrícia Kranz, filha da mais assídua parceira de mesa de Apicius, a Madame K., Marília Kranz.

Mas qual o interesse de ler críticas antigas, de restaurantes que muitas vezes nem mais existem? Bem, para quem gosta de ler sobre comida ou apenas ler, o interesse é máximo.

É curioso notar que permanecem em pauta assuntos de que Apicius tratou há mais de 30 anos: a insistência dos lugares em emperiquitar comida e ambiente em vez de fazer o simples ou os altos preços em casas medianas.

Sem dúvida o panorama gastronômico evoluiu muito do tempo de lá para cá. E Apicius tem papel importante nesta evolução. Mas seus textos seguem atuais e sua reedição é mais que bem-vinda. Pena que só em versão virtual. Além dos textos, o livro traz ilustrações do autor e que eram publicadas em sua coluna no jornal, chamada À mesa, como convém.

TRECHOS

“Leitor, isto não é um guia. É um passeio sentado por alguns restaurantes do Rio e de outros lugares. São cotocos de crônicas, publicadas no Jornal do Brasil, que amputei das partes que pareciam mais perecíveis. Publicá-las inteiras seria fastidioso e inútil: os restaurantes mudam e depois morrem, os festivais se perdem no passado, as modas se esfumaçam. De muitas crônicas semanais, sobraram estes pedaços, como rabos de lagartixa, sem a lagartixa, tentando se mexer com independência. Espero que consigam.” Pág. 8

“Acho mesmo que quanto menos se entende mais se admira. A obscuridade desafia e, ao nos fazer sentir idiotas, nos abre a boca de respeito. Será este segredo, imagino, não só dos oradores como dos economistas e técnicos variados. Com a cozinha, aqui, acontece o mesmo. O ininteligível desperta aplausos. O muito caro inspira respeito. E acabamos comendo mal e pobres.” Pág.66

“Gosta a saúva do Brasil e este de inutilidades. Gostamos de: ministro da Cultura, Academia Brasileira de Letras, fogos de artifício, Funarte e festivais. São coisas que ajudam a passar o tempo e, nos distraindo com assuntos fúteis, afastam a mente do essencial. E distração louvável. Pois que pode trazer de bom ficarmos remoendo ad etemum parcas monotonias, propícias à úlcera e à indigestão? Que coisa estranha é esta de achar que artistas fazem arte, escritores escrevem e restaurantes servem comida! Seria insuportável. De fazer cabecear de tédio um escargot. (São bichinhos, me contam, extremamente sensíveis aos aborrecimentos de origem cerebral. Não suportam sequer um teorema e podem ser extintos só com uma página de Descartes ou até mesmo um artigo  de fundo.” Pág. 45

 

Confissões Íntimas

Autor: Apicius

Editora: Cesárea

Preço: R$ 8 (131 págs.)

 >>Veja a íntegra da edição do Paladar de 20/8/2015

Ficou com água na boca?