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A temporada do cação está aberta, mas não deveria

Especialistas recomendam que se evite consumo de cação (ameaçado de extinção), mas a venda é promovida na Ceagesp; centro de abastecimento diz que tipo vendido em feira é importado e tem controle de procedência

23 março 2016 | 17:21 por José Orenstein

Amanhã é Sexta-Feira Santa, dia em que peixes vão ocupar boa parte das mesas brasileiras. É dia de bacalhau, robalo ou, quem sabe, se a grana estiver curta, cação. O problema é que esse barato pode sair caro.

Especialistas recomendam que se evite ou se reduza o consumo de cação – eufemismo para o temido (e ameaçado de extinção) tubarão. Ao mesmo tempo, a venda do peixe é promovida no mercado: ao longo desta semana e até hoje às 21h, a Ceagesp faz a Santa Feira do Peixe. O destaque deste ano é justamente o cação, vendido a preço promocional: R$ 12,99 o quilo. 

“A situação é preocupante. É consenso entre os pesquisadores que é preciso ter muita cautela quando falamos de venda e compra de cações. Eles viraram commodities por aqui, mas a verdade é que os estoques estão muito ameaçados”, diz Rodrigo Barretto. Ele é pesquisador associado do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação Marinha do Sudeste e Sul, ligado ao Ministério do Meio Ambiente. No fim do ano passado, publicou um artigo em que recolhe todos os dados da pesca de tubarões no Brasil de 1979 a 2011. 

Balcão de pescados na Ceagesp

Balcão de pescados na Ceagesp Foto: Luiz Ligabue|Estadão

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Uma das conclusões do estudo é que mais de 50% das espécies de tubarão que ocorrem na nossa costa estão com os estoques colapsados em razão da sobrepesca – e o resto das espécies pode estar perto do limite da ameaça de extinção. 

“O problema é que é difícil até mesmo entender o tamanho da encrenca”, diz Fabio Motta, pesquisador de Ecologia e Conservação Marinha da Unifesp, em Santos. Ele, que também vê com preocupação o incentivo ao consumo de cação feito pelo mercado, lembra o fato de que desde 2012 a estatística pesqueira no País está abandonada. Ou seja, não sabemos ao certo o que, quanto e como se pesca nos nossos litorais e águas oceânicas. 

Para a pesquisadora Cíntia Miyaji, da Unimonte, ações como essa promovida pela Ceagesp é algo “bastante questionável do ponto de vista da saúde do consumidor e, do ponto de vista ambiental, um verdadeiro desastre”.

O cação estava na lista de espécies ameaçadas publicada pelo Ministério do Meio Ambiente no fim de 2014, mas a portaria (de número 445) foi suspensa por pressão, entre outros, do setor pesqueiro.

A Ceagesp afirma ser “rigorosa para coibir a comercialização de produtos proibidos”. Afirma ainda que o cação à venda na feira é o Prionace Glauca (cação azul), que é importado e conta com controle sanitário e de procedência.

 

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