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A torrada galante de Ana Bolena

Por Dias Lopes

19 junho 2013 | 23:05 por redacaopaladar

Na voz do povo, Henrique VIII, da Inglaterra, foi um rei tirano e libidinoso. Casou-se seis vezes e mandou decapitar duas das esposas, uma delas, Ana Bolena, talvez a mais instigante figura de mulher dos últimos 500 anos. Para casar-se com Ana, pediu ao papa Clemente VII que anulasse seu primeiro casamento, com Catarina de Aragão.

Como o papa não o atendeu, rompeu com Roma e criou a própria igreja. Foi excomungado e por esse anátema arderia no fogo do inferno. Estava à procura de uma mulher que lhe desse um filho homem para assegurar a continuidade da dinastia Tudor.

O Livro de Henrique, romance histórico escrito pela inglesa Hilary Mantel, cuja tradução brasileira a editora Record acaba de lançar, mostra que o rei não agiu sozinho. A serviço dele estava Thomas Cromwell, um filho de ferreiro que subiu na vida alavancado pela esperteza e se tornou o principal ministro da Inglaterra de 1532 a 1540, ano em que também teve a cabeça decepada por ordem do rei.

Foi Cromwell quem articulou o casamento de Henrique VIII com Ana Bolena, e depois contribuiu para acusá-la de adultério, incesto com o irmão e conspiração política – “provas” que a levaram à morte aos 35 anos.

Rainha era comedida à mesa. FOTO: Divulgação

Mulher de personalidade forte, Ana Bolena colecionava aliados e desafetos com a mesma facilidade. Inteligente e educada, interessava-se por literatura, filosofia e moda. Mas não era flor que se cheire. Antes de se casar com Henrique VIII, foi dama de companhia da primeira esposa dele. Paralelamente, tornou-se amante do rei.

No leito extraconjugal, sucedeu à irmã Maria, que virou amante do soberano inglês depois de treinar com o da França e rapazes dos dois lados do Canal da Mancha. Henrique VIII uniu-se oficialmente a Ana Bolena achando que ela carregava no ventre seu filho homem tão desejado. Mas a segunda esposa deu à luz uma menina, a futura rainha Elizabeth I, que morreu sem descendentes e encerrou a dinastia Tudor.

Os ingleses batizaram de Ana Bolena uma toast (torrada) feita de pão preto com manteiga, arenque e canela. Saboreiam-na no chá, no lanche, ou como ligeira refeição. Tem origem impudica. Relaciona-se com um episódio registrado pelo escritor francês Alexandre Dumas, pai, no Grande Dicionário de Culinária (Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2006).

Em inglês, a palavra toast também significa brinde. No passado, os britânicos brindavam à saúde de alguém passando de mão em mão uma caneca de cerveja. Cada um tomava um gole. No fundo da caneca havia uma fatia de pão torrado que o último bebedor comia. Alexandre Dumas envolveu Ana Bolena nesse ritual.

Um dia ela tomava banho assistida pelos senhores do seu séquito. “Era desinibida”, comentou Alexandre Dumas. Para lhe fazerem a corte, cada um pegou um copo e encheu com a água da banheira. Todos a beberam, exceto um dos homens. Interpelado, explicou o motivo da recusa: “É porque me reservo a toast”.

Mulher de beleza exótica, pele cor de oliva, pescoço esguio e dedos alongados (que seriam seis, e não cinco, devido a uma alteração genética), corpo delgado e estatura média, Ana Bolena se mostrava comedida às refeições, destoando do comportamento de Henrique. O rei barba-azul era baixo, nunca pesou menos de cem quilos e, com apetite de leão, devorava peças inteiras de veado, carneiro, porco e aves em geral.

Importava vinhos da Itália, sobretudo da Toscana, e perus da América do Norte. Tinha um especialista na engorda de faisão. E aí por diante. Faleceu aos 55 anos de idade, de morte natural, quando sua cintura media quase 1,50 metro de diâmetro.

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