Paladar

Comida

Comida

Armênios, sírios e libaneses emigraram juntos

Por Guga Chacra

30 julho 2014 | 20:00 por redacaopaladar

Armênios não são árabes. São um povo cristão milenar que historicamente se concentrou ao redor do bíblico Monte Ararat, na região da Anatólia, onde hoje está a Turquia, o país Armênia e o Irã. Além dessas regiões, armênios, proeminentes comerciantes do Oriente, também se espalharam por cidades mercantis como Aleppo, Beirute, Damasco, Jaffa e Alexandria ao longo dos séculos, e sempre tiveram a sua presença no quadrilátero armênio de Jerusalém.

A ligação com o povo árabe não é nova, mesmo porque boa parte dos armênios vivia sob soberania dos turco-otomanos, assim como os árabes. Mas essa relação se intensificou há cem anos com o genocídio armênio, quando cerca de 1 milhão de armênios foram massacrados pelo Império Otomano na 1ª Guerra Mundial. Centenas de milhares deles foram expulsos da Anatólia em marchas da morte em direção à Síria. Os que sobreviveram, muitas vezes órfãos, ao chegarem, foram recebidos de braços abertos pelos sírios e pelos libaneses.

LEIA MAIS:

Ficou com água na boca?

+ Armênio ou árabe? Aqui é paulistárabe

+ Conheça restaurantes sírio-libaneses e armênios em São Paulo

Levante e Cáucaso estão entre as regiões que passaram pelo domínio otomano. O resultado foi uma grande comunhão gastronômica. CRÉDITO: Infografia/Estadão

A região do Levante, onde hoje estão a Síria e o Líbano, sempre teve cristãos. Os armênios rapidamente se identificaram com os cristãos árabes de Beirute, de Aleppo e Damasco – afinal todos tinham pertencido ao Império Otomano. Parte desses armênios seguiu viagem e emigrou, com sírios e libaneses, para a América. As comunidades continuaram próximas em São Paulo, Buenos Aires e Nova York.

Muitos armênios, porém, permaneceram no que hoje é a Síria e o Líbano e têm cidadania dos dois países. A comunidade armênia de Aleppo ainda compunha a elite local até a eclosão da guerra civil, em 2011. Quase todos eles apoiam o regime de Bashar Assad temendo o extremismo dos rebeldes da oposição, que crucificam cristãos em outras partes da Síria. A histórica cidade de Kassab, no Mediterrâneo, chegou a ser dominada pelos rebeldes, que expulsaram os armênios – o regime de Assad já recuperou a região, garantindo a segurança dos cristãos. Armênios ainda vivem bem em Damasco e outras cidades da Síria sob controle do governo.

No Líbano, armênios têm papel fundamental no caldeirão religioso, sendo um dos raros braços religiosos a ter boa relação com os demais. Isto é, os armênios, sejam eles da maioria ortodoxa ou católica, se dão bem com os cristãos maronitas, ortodoxos, melquitas, assírios, muçulmanos sunitas, xiitas, alauitas e drusos.

A região de Burj Hamoud, em Beirute, é o coração armênio na capital libanesa. Ali, é fácil encontrar ótimos restaurantes armênios. A badalada e armênia Mar Michail, em outra parte de Beirute, se tornou nos últimos tempos uma espécie de Vila Madalena libanesa. Anjar, uma cidade perto da fronteira da Síria, é conhecida por sua culinária e por ser bastião de armênios.

O Líbano, assim como Argentina, Chile e França, reconhece o genocídio armênio. Assad, da Síria, o reconheceu pela primeira vez neste ano, em entrevista à France Presse. Brasil, Israel e Estados Unidos não reconhecem – Barack Obama reconheceu como cidadão e senador, mas não como presidente.

Os armênios do Irã ainda vivem relativamente bem no país, tendo inclusive um dos maiores craques da seleção de futebol iraniana. Mas muitos emigraram para a Califórnia e Nova York (André Agassi, o tenista, é filho de armênios do Irã). Já os armênios do Império Russo têm sua nação independente, a Armênia, cuja capital é Yerevan, não muito distante do Monte Ararat, localizado do lado turco da fronteira.

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 31/7/2014

Ficou com água na boca?