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Bacon não tem de ser suíno, mas precisa ser gordo e gostoso

Cozinheiros jogam o porco para o escanteio e aplicam técnicas de cura e defumação em cortes de outros animais, como carneiro e pato

19 setembro 2018 | 19:59 por Danielle Nagase

Especial para o Estado

No balcão da Paca Polaca, além dos clientes pragmáticos, que sentam, comem e logo vão embora, há sempre alguém disposto a demorar um pouco mais, interessado em saber como Clarice Reichstul prepara seus pratos judaico-poloneses. Uma vez engatado o papo, a cozinheira exibe tudo o que anda testando: “Bacon de carneiro. Não é muito da hora isso?”.

Bacon de carneiro, feito pel'A Table Charcutaria para Paca Polaca

Bacon de carneiro, feito pel'A Table Charcutaria para Paca Polaca Foto: Tiago Queiroz|ESTADÃO

Inspirada em delis de Nova York (como a Mile End) – veteranas em fazer bacon com carne ovina ou bovina, uma vez que o porco é proibido na cozinha kosher –, Clarice desafiou Bernardo Criscuolo, d’A Table Charcutaria, a desenvolver esse tal de “bacon diferentão” com ela. A dupla se soma a entusiastas como Eran Bick, charcuteiro do Hook, em Tel Aviv, que dizem ter sido o primeiro em Israel a usar barriga de cordeiro no lugar da peça suína. 

Louro, semente de coentro, dill e até casca de mexerica cavalo foram utilizados na cura da primeira barriga de carneiro que Clarice trouxe de seu sítio na Bocaina. “Testamos e percebemos que não é por aí. Uma carne com tanta personalidade não pode ter seu sabor mascarado”, conta Bernardo, que, no segundo teste, apostou no básico: sal, açúcar, pimenta-do-reino e madeira de goiabeira para defumar. “Ficou bom, mas não ficou ótimo. Faltou calibrar o tempo de cura”, conta Clarice. 

Clarice Reichstul e Bernardo Criscuolo provam novo bacon de carneiro

Clarice Reichstul e Bernardo Criscuolo provam novo bacon de carneiro Foto: Tiago Queiroz|ESTADÃO

Na terceira tentativa, Bernardo lançou mão de uma enzima, a transglutaminase, para “colar” uma peça de barriga na outra e deixar o bacon mais espesso e menos ressecado depois de pronto. O resultado, que o Paladar provou em primeira mão, pode ser conferido na foto desta página: um bacon delicado, sutilmente defumado, com leve dulçor e boa distribuição de gordura na carne – dá até para comer sem fritar (R$ 170, o quilo, a partir de terça-feira). “Estou pensando em servir bacon com ovos estalados. Não precisa de mais nada.” 

Nos mesmos moldes nova-iorquinos, Julio Raw, do Z Deli Sandwich Shop, aproveita a famosa língua bovina defumada da casa para improvisar um bacon kosher, que, vale dizer, não consta do cardápio. As fatias finas, fritas até se contorcerem, são supercrocantes e lembram torresmo. 

Mas, calma aí, se não é feito de barriga de porco, pode ser chamado de bacon? Na enciclopédia Oxford Companion to Food, de Alan Davidson, a palavra se refere a cortes suínos (não necessariamente a barriga) curados e defumados. Se não é de porco, não é toucinho.

“De fato não é, mas convencionou-se chamar assim por conta da técnica empregada, que é a mesma”, defende o jornalista Pedro Marques, que há oito meses criou a Don Bacon e atende clientes sob encomenda. Além da versão suína, faz magret de pato curado (com sal, açúcar e cravo) e defumado para “diversificar o portfólio”. 

Magret de pato curado e defumado, da Don Bacon

Magret de pato curado e defumado, da Don Bacon Foto: Daniel Teixeira|ESTADÃO

Bem carnudo e salgadinho, o produto (R$ 27; 300g) caiu no gosto de clientes como Dani Borges, do vietnamita Bia Hoi, e ganhou status de protagonista: no restaurante dela o bacon de pato é servido com molho de anis, legumes salteados e arroz.

O chef Antonio Maiolica, do Antonietta Cucina, em Higienópolis, bairro com alta concentração de judeus, também prepara o próprio bacon de pato, temperado com pimenta-do-reino, pápricas doce e defumada, alho e cebola em pó. “A capinha de gordura do peito da ave fica bem gostosa depois do processo. Aproveito e uso no carbonara no lugar da pancetta”, conta.

É também com peito, mas de marrecos, que o chef Willian Vieira prepara o bacon servido no Terroir Bistrô, em Joinville (SC), com acácia, mel de mandaçaia e pó de batata doce roxa. A carne da ave é temperada com pimenta, tomilho e zimbro, além de sal e açúcar, e defumada com lenha de goiabeira. 

Extrapolando a despensa terrestre – no Japão, faz-se bacon com barriga de baleia –, o chef Cesar Costa pinça da Europa o costume de curar e defumar pescados. No Corrutela, faz bacon com barriga de peixe espada, que é bem gordo, e usa lenha de caqui no processo. Sem aviso prévio, usa em pratos como o polvo com mashed potato. “Ninguém percebe que não é porco.” 

BÊ-A-BÁ DO BACON

​Guia básico para fazer bacon em casa

- Escolha do corte: use a criatividade para ir além do suíno. Dá para fazer bacon com qualquer tipo de carne (quanto mais gordura no corte, mais saboroso e suculento será o seu toucinho). 

- Cura: além de sal e açúcar, aposte em pimentas, cravo, páprica, zimbro, coentro; o período de descanso varia bastante (até 25 dias), dependendo da espessura da carne (quanto mais grossa, maior o tempo)

- Defumação: troncos de árvores frutíferas são os preferidos dos chefs e charcuteiros, mas dá para usar eucalipto ou até serragem. Defume no próprio forno: forre uma assadeira com serragem, ponha por cima uma grelha, a carne, e use outra assadeira para fechar. 

SERVIÇO

Onde provar bacon de outros animais.

Carneiro: Paca Polaca.  

R. Amália de Noronha, 339, Pinheiros. 3060-8228.

 

Marreco: Terroir Bistrô.  

R. Itaiópolis, 685, Joinville (SC). (47) 3026-2481.

 

Pato:

Bia Hoi. R. Rego Freitas, 516, República. 3151-2508.

Antonietta Cucina. R. Mato Grosso, 412. 3567-2052.  

Don Bacon. @donbaconbr; 99590-4820.

 

Peixe espada: Corrutela.  

R. Medeiros de Albuquerque, 256, Vila Madalena. 3032-2443.

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