Paladar

Comida

Comida

Bom, limpo e justo

Por Cintia Bertolino

29 maio 2013 | 23:09 por redacaopaladar

Especial para o Estado

No final da década de 1980, um punhado de amigos interessados em comer e beber bem resolveu se manifestar contra a “mcdonaldização” da gastronomia. À mesa de uma osteria no norte da Itália, com vinhedos por todos os lados, eles criaram um manifesto. Em oposição ao fast propunham um slow food. Assim, despretensiosamente, sob a bênção de Barberas e Nebbiolos, nasceu o movimento que hoje se faz presente em 150 países.

Logo ficou evidente para os fundadores do Slow Food, e para as pessoas que se associaram a ele, que para manter a excelência da comida seria preciso ir além da cozinha. Estava na hora de fincar os pés na terra, conhecer melhor e valorizar o produto. Em outras palavras, era preciso transformar o gastrônomo em coprodutor. O conceito do coprodutor é o do consumidor que adora comer, sabe de onde vem seu alimento, como ele foi cultivado. Há 20 anos, Carlo Petrini, um dos comensais insatisfeitos com a forma como as pessoas vinham se alimentando, tornou-se o mais eloquente porta-voz do Slow Food e da ideia de que a comida ideal é o alimento bom, limpo e justo (bom, por ser saboroso; limpo, em respeito ao ambiente, e justo por remunerar dignamente o produtor). Em breve, o Slow Food abrirá escritório em São Paulo, para acompanhar de perto a América do Sul.

Dentro do atual cenário, o recente acordo de cooperação entre a FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) e o Slow Food sinaliza um novo caminho também para a gastronomia. Além de tratar dos assuntos de segurança alimentar, a FAO contará com o auxílio do Slow Food para recuperar cultivos esquecidos e ampliar o acesso dos pequenos produtores ao mercado. Do México, Petrini falou com o Paladar sobre o plano de atuação conjunta.

FOTO: Alberto Peroli/Divulgação

Que tipo de apoio o Slow Food dará à FAO?

Há tempo o Slow Food trabalha pelo bem-estar de comunidades agrícolas. Um dos exemplos de ações bem-sucedidas é a Arca do Gosto, que cataloga produtos, modos de fazer, raças de animais e técnicas ameaçadas pelo esquecimento. Com a FAO vamos trabalhar com a preservação de variedades autóctones, com a importância de resguardar o bem-estar animal e diminuir o desperdício de alimento. É importante instruir e formar pessoas que possam crescer desfrutando dos recursos locais. Quando falamos instruir, falamos na ampliação do conhecimento sobre o local onde se vive, na preservação de tradições.

Como nasceu a colaboração Slow Food-FAO?

A ideia vem da consciência de que é preciso apoiar comunidades, pequenos produtores e fornecer instrumentos para que alcancem a autossuficiência alimentar e econômica. No projeto firmado se fala de rede e cooperação como alicerces do desenvolvimento. O Slow Food e a FAO trabalham há muito tempo por esse ideal de cooperação.

Qual a importância do acordo?

Ele será fundamental para apoiar, efetivamente, o desenvolvimento da economia agrícola em pequena escala. É também um passo importante no combate aos graves problemas alimentares que afligem nosso planeta. A escassez de comida, o desperdício, o desaparecimento de culturas tradicionais, essas questões deveriam ser do interesse de todos que pretendam continuar vivos.

Quais os projetos envolvidos no acordo com a FAO?

Sensibilizar as pessoas sobre a necessidade de apoiar a agricultura em pequena escala como modelo contra a malnutrição e a fome; apoiar uma agricultura sustentável, que respeite a biodiversidade e franquear o acesso de pequenos agricultores ao mercado, além de trabalhar pela mudança de paradigma da política alimentar.

O alimento é um instrumento de transformação social?

O alimento é um poderoso agente transformador, capaz de mudar a vida das pessoas e o entorno em que elas vivem. Mas para isso é preciso combater a falta de sensibilidade em relação à comida e investir na educação. Só assim a cultura e o patrimônio gastronômico tradicional serão resguardados.

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