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Cenário da pesca no Brasil é desolador

21 setembro 2014 | 15:43 por joseorenstein

O quadro é desanimador: nem na Ceagesp é possível encontrar peixe de qualidade, dizem o chef Ivan Ralston, do Tuju, e o armador de pesca Antônio Amaral. E por qualidade entende-se tanto o valor gastronômico como o respeito ambiental. Comentando sobre as técnicas inadequadas de pesca e a desinformação do consumidor sobre a cadeia do pescado, a dupla apresentou um cenário desolador.

FOTOS: Tiago Queiroz/Estadão

“A maior parte da pesca feita no Brasil é de arrasto. Isso estraga o peixe e, ao mesmo tempo, o fundo do mar”, diz Ivan, sobre a técnica que consiste em passar um rede puxada pelo barco no mar e arrastar tudo que estiver lá embaixo. O arrasto acaba capturando espécies em extinção ou de pouco valor comercial, que são descartadas. Além disso, o peixe que é içado às toneladas tem sua carne machucada pela pressão da rede e pelo impacto ao cair no porão da embarcação.

Da modalidade de pesca ao acondicionamento – que idealmente deve ser feito com cuidado, em caixas menores de isopor, com gelo e plástico -, passando pelo transporte e o preparo adequado na cozinha, a cadeia do pescado é altamente problemática. A aquicultura seria uma forma possível de controlar melhor o processo, mas gera controvérsia pelo impacto ambiental e pela qualidade inferior do pescado de cativeiro. “A agricultura, o manejo de espécies terrestres já é dominado pelo homem há muito tempo. Mas no uso do que vem do mar, estamos engatinhando”, disse Ivan.

O chef lembrou que a pesca é essencialmente uma atividade extrativista, portanto, limitada pela natureza, não pelo homem: “O pescado selvagem corre o risco de, em breve, ser algo exclusivo para pessoas muito ricas”. Ou seja, não só os processos da cadeia do pescado são problemáticos; a ideia da pesca como um todo, no Brasil e no mundo, aponta para um futuro de impasse.

E tem solução?, perguntou o público que assistiu à aula de Ivan e Antônio no 8º Paladar Cozinha do Brasil. Para este, mais pessimista, não muito, tamanha é a escala do problema; para aquele, sim, mas ainda leva tempo. O que os dois concordam, no entanto, é que passa necessariamente pelo consumidor uma resposta para a pergunta. Quando quem compra começar a exigir mais qualidade, sustentabilidade e informações sobre a origem do que consome, toda cadeia vai ter que se adaptar.

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