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Comida

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Céus, que medo da jolokia

Por Juliana Araújo

01 julho 2010 | 08:52 por janainafidalgo

Eu nunca escrevi sobre gastronomia, de pimenta só entendo de tabasco, biquinho e olhe lá e estava em fechamento – momento supostamente tenso, que exige concentração – quando decidi parar tudo para provar a polêmica pimentinha que estava em cima da mesa do Adriano, designer do jornal. Tudo porque um bando se formou em volta dele com celulares e afins para registrar algo que parecia muitíssimo esperado: o momento em que ele colocaria parte dela na boca. Aquilo virou um espetáculo e, de repente, me vi ali no meio, com uma vontade silenciosa terrível de provar a tal pimenta também – a ignorância, às vezes, encoraja.

Claro, se eu soubesse que se tratava da jolokia (ou melhor, se eu soubesse o que era uma jolokia) antes, eu teria passado reto daquelas pessoas malucas que incentivavam ali, no meio da Redação, a ingestão pura de uma pimenta que, cotada em um milhão na escala Scoville (que eu também vim a conhecer hoje), é a mais ardida do mundo e foi criada na Índia! Ai, ainda por cima é exótica. Os malucos eram formados por toda a equipe do caderno Paladar e alguns curiosos de outras editorias.

Finalmente, quando o Adriano provou a pimenta, todos ficaram desapontados: ele não fez careta, não ficou vermelho. Nem chorou! Disse não ter sentido nada. Foi quando, já cega de vontade, eu mesma peguei a faca e cortei um pedacinho, que logo mordi, sem nenhum rodeio. Foi instantâneo: a minha boca começou a pegar fogo, meu olho lacrimejou, os lábios amorteceram. Saí correndo em direção ao bebedouro (o que só confirma a minha falta de experiência com pimentas), mas só senti algum alívio quando comi, quase que de uma só vez, a maçã que a Patrícia, editora do Paladar, trazia com ela para o caso de alguém passar mal depois de provar a jolokia.

Acreditando que eu pudesse ter um ataque ali mesmo, fui sozinha para o banheiro, tentar me acalmar. No meio do caminho, ao enxugar uma lágrima, devo ter encostado algum resquício da pimenta que estava em meu dedo no olho esquerdo. A ardência foi absurda, e comecei a jogar água com abundância. Pânico. Só piorava. Juro que pensei que ficaria cega, meu maior medo na vida. Nesse ponto já nem me lembrava mais do que eu sentia na boca. Comecei a falar sozinha e pedi ajuda à primeira mulher que entrou, comecei a explicar a ela o que tinha acontecido, falei da pimenta… “Vai que eu desmaio nesse banheiro?”, pensei.

Ficou com água na boca?

Era fechamento e eu precisava voltar à Redação. Comecei a reparar na sensação de formigamento em volta da boca. No rosto, minha pele já estava toda irritada, vermelha. Na minha cabeça, eu tinha desenvolvido, em cinco minutos, uma alergia fatal e o sufocamento seria apenas uma questão de tempo. Cheguei a me despedir de alguns amigos, mas ninguém me levou a sério. O desespero passou. Já fora de perigo, li a matéria da Olívia sobre pimentas e a jolokia virou, para mim, algo como uma estrela recém-saída do Big Brother: nunca ouvi falar, mas de repente tenho que aturar. O mais estranho disso tudo é que fico pensando que, se me oferecessem de novo, eu talvez não recusaria. Para sentir melhor o gostinho bom do começo, para saber como seria uma segunda experiência, para chorar as mágoas… Ou por puro vício. Céus, que medo da jolokia.

Ficou com água na boca?